Álbum de retratos
    dezembro 11, 2008

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Meio século, três constituições e treze presidentes da República atrás, Luiz Antônio Villas-Bôas Corrêa usava no pulso um Omega de ouro. Era seu único luxo. Fora o relógio, ele sempre exibiu seu desdém por marcas e etiquetas, combinando a calça de um terno com o paletó de outro, recusando-se a entrar em loja de grife e misturando eventuais presentes caros com acessórios ostensivamente ordinários. Ele tem uma certa vaidade de andar mal vestido, principalmente em lugares que se consideram elegantes e eles se rendem à sua carteira de repórter.

E até o Omega, mais dia, menos dia, foi parar num fundo de gaveta, substituído pelos Casio, os Swatch e outros relógios que chegaram ao mercado do consumismo inconspícuo. Mas o Omega permaneceu na memória dos filhos como a prova material de que jornalismo não é brincadeira. É, ao contrário, um duro ofício, reservado a temperamentos capazes de agüentar o dia-a-dia sem fim dos assuntos urgentes e dos prazos inadiáveis. Tudo porque, paradoxalmente, tirar o relógio do pulso era a primeira coisa que ele fazia quando estava com pressa, preparando seus dois, três encontros diários com a máquina de escrever.

Diga-se de passagem que ele não tem pressa só no trabalho. À mesa, classifica os restaurantes pela presteza da cozinha e a lepidez dos garçons. No carro, costuma passar a quarta antes que o motor comece a pedir a terceira marcha. Nos encontros, chega invariavelmente na hora certa e começa imediatamente a medir os atrasos alheios. Nos telefonemas, desliga assim que a conversa empaca em reticências. Nas despedidas, lidera a marcha em direção à porta de saída.

Mas seu gesto de desafivelar o Omega tinha a gravidade de um rito propiciatório. Quando ele afrouxava o nó da gravata, arregaçava às mangas e punha o relógio em cima da mesa, podia-se contar que começaria a cravar palavras no papel, martelando energicamente o teclado com dois dedos de cada mão, furando com a força das batidas a fita de pano preto que imprimia as letras. Seus textos sempre saíram assim, com tempo marcado, como se, em algum limbo, as linhas aguardassem em fila sua vez de pular na página em branco, ansiosas, elas também, por cumprir horários.

Raramente parava diante da máquina, catando idéias no ar, como se acredita que façam os escritores. Talvez porque nunca se considerou um escritor. Foi sempre repórter. E um repórter esgarçado entre vários empregos mal pagos, dois ou três ao mesmo tempo, todos exercidos como se fossem o único.

Nunca teve tempo a perder com as firulas do estilo. Escreve de olho no dia seguinte. E a posteridade é retardatária. Olhando para trás, é espantoso que tenham jorrado dessa usina de notícias perecíveis as fagulhas de impecável jornalismo literário, que marcaram suas topadas de repórter com capítulos instantâneos da História do Brasil. Como na manhã de 24 de agosto de 1954, quando saía tresnoitado do Diário de Notícias, a caminho não de casa, mas de A Notícia, com a imprensa carioca de plantão, esperando o desfecho da crise terminal do governo Getúlio Vargas. Com a palavra, Villas-Bôas Corrêa:

A pé, andando devagar, atravessei a praça Tiradentes e dobrei a esquina com a avenida Passos. Logo adiante, do rádio de uma loja, a voz poderosa de Heron Domingues, em edição extraordinária do Repórter Esso, começava a virar a cidade com a notícia do suicídio de Getúlio Vargas e a leitura da Carta Testamento.

É como se estivesse vendo ou revendo um filme antigo. Uma senhora escura, gorda e baixote, modestamente vestida, estacou como se varada por um raio. Emergiu do estupor com os olhos esbugalhados por trás dos óculos tortos, inchou como se fosse arrebentar e explodiu num ataque de ódio, de patética violência, xingando aos berros e uivos os inimigos que forçaram o amigo dos pobres a pôr fim à vida.

Está tudo ali, em dois parágrafos – o que os políticos brasileiros não viram na véspera e o que os historiadores só veriam no futuro pelo filtro baço das teorias sobre movimentos de massa. E uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas coube com exatidão em 709 palavras. Aquela mulher, ele registrou, “não era louca”, e sim “profetisa”. Anunciava novos tempos. Fazia isso com mais precisão que os grandes oradores parlamentares.

Villas-Bôas Corrêa passou a vida com lugar cativo na primeira fila de acontecimentos que marcaram época ou nasceram históricos. E por isso o jornalismo, como o Omega, para ele era um luxo. Em casa, aparecia sem mais nem menos trazendo ministros de Estado para almoçar, jurando que eles gostavam do trivial variado. Atendia a ligações de pessoas que estavam naquele instante nas primeiras páginas dos jornais e dizia “você”. Quando tardava muito, era sinal de que alguma coisa importante estava acontecendo lá fora. A reportagem lhe deu a prerrogativa de não precisar ser rico para não se sentir pobre.

Foi preciso que passassem muitas décadas para entender por que ele tirava o Omega do pulso antes de escrever. Era para poupar-lhe os impactos de sua datilografia para lá de vigorosa. Temia que o sacolejo desregulasse a máquina. A cautela deu resultado. Em julho de 2008, o Omega saiu da gaveta pela primeira vez em muitos anos, quando a pesquisa que deu origem a este livro passou a remexer os seus guardados. Estava parado há tanto tempo, que foi preciso repor no lugar a coroa, caída na caixa. Com ela encaixada, os ponteiros começaram a girar e o coração mecânico do relógio a bater assim que se deu a primeira volta na corda.

Protegido do batente na máquina de escrever, o Omega está em melhor estado que os dedos indicadores de Villas-Bôas Corrêa. Os longos anos de pancadas nas teclas os entortaram visivelmente. Mas, mesmo com dedos tortos, ele seguiu em frente. Os jornais e as emissoras de TV em que trabalhou foram, um a um, fechando. E ele manteve a carreira em dia. A política brasileira deixou de ser o que era. Ele trocou o apreço pela indignação e, com ela, preservou seu entusiasmo. Seus dedos tortos dão, aos 84 anos, a medida de sua retidão.

Marcelo de Sá Corrêa e Marcos de Sá Corrêa

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[...] o artigo na íntegra, publicado no blog de Villas Boas, e veja o álbum de [...]

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