A marmita do PAC
    março 31, 2010

É lamentável que a senadora Marina Silva (PV-AC), pré-candidata a presidente pelo nanico Partido Verde não tenha suporte partidário para uma presença mais destacada no bate-boca do presidente Lula com todos que não o reconhecem como o gênio da raça, o maior líder brasileiro da história deste país, acima das leis, das multas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pois nada paga com o dinheiro do seu bolso.


O exemplo de ontem é conclusivo. De passagem por Recife, procurada pelos repórteres, a senadora Marina Silva um dia depois do lançamento do PAC-2, foi de uma precisão do clássico tiro no olho da mosca: “O PAC-2 é uma colagem de obras com finalidade político eleitoreira.” E foi ao fundo: “O PAC é uma marmita com muitas coisas requentadas”. Marina lembrou que no seu tempo de filiada ao PT, o partido sempre reclamava muito deste tipo de conduta. E o presidente Lula “sempre reclamou muito desse tipo de conduta. E agora deveria dar o exemplo para q eu isso não ocorresse”.


Em dia de rara loquacidade, a senadora-candidata observou que “a Justiça já demonstrou que há o uso político dessas inaugurações, uma vez que o presidente foi multado duas vezes por ter tratado a ministra Dilma como candidata”. E voltaria a criticar o PAC, como a primeira candidata numa clara linha de oposição: “O PAC deveria ser um programa mais abrangente. Boa parte do que vem sendo efeito é colocado legitimamente por governos e prefeituras, mas muitas vezes são obras que não ligam lê com crê”. Deu o exemplo: Na minha região, a BR 319 é uma estrada mais de cunho político e eleitoreiro do que uma necessidade. Enfim, ouve-se a voz de uma candidata de oposição.

Na banda do governo, a fuzarca continua. O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) antes de se deixar a pasta para se desincompatibilizar e se candidatar ao governo da Bahia, foi o Papai Noel das Prefeituras, distribuindo verbas com a generosidade dos que dissipam o dinheiro da viúva. As prefeituras baianas receberam de mão beijada 45,9% de R$ 555,3 milhões destinados a todos os órgãos públicos pelo ministério. Segundo o levantamento, dos R$ 555,3 milhões distribuídos entre 756 municípios, R$ 254,9 milhões beneficiaram 137 cidades e os R$ 300,3 milhões para 619 municípios. O Secretário-Geral da Associação das Contas Abertas, Gil Castelo Branco, foi de uma áspera franqueza: Houve um favorecimento descarado para a Bahia. O ministério virou um feudo eleitoral ““.
Muita água vai rolar até o dia 3 de outubro, no primeiro turno das eleições. Mas o candidato Geddel Vieira pode dormir tranqüilo. O baiano saber ser grato.

 
 

Lula troca de mal com a imprensa
    março 30, 2010

O presidente Lula não está sendo original na sua irritação com a imprensa que ousa criticá-lo e ao seu governo. A ministra-candidata Dilma Rousseff também assina em baixo, com a independência que é uma das marcas do seu temperamento. O último pretexto para espinafrar a imprensa é o destaque dado às duas multas de R$ 5 mil e outra da mixaria de R$ 1 mil, aplicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (STF), com recursos dos advogados do multado.


Eis uma demonstração publica, que se confunde com o chilique, que começa por ignorar uma das regras elementares da imprensa: a rotina não é notícia. O cronista Rubem Braga, em crônica de antologia, partiu do fricote dos poderosos que detestam as críticas dos meios de comunicação para imaginar um destaque da imprensa que ficasse na placidez do cotidiano. Não memorizei a pequena crônica do mestre e amigo Rubem Braga. Mas, da espinha da crônica a relatar um dia do cotidiano de um homem comum, funcionário público, bancário, caixeiro de loja. E que desperta às 8 horas, espreguiça-se e levanta com o humor azedo de mais um dia igual à ontem e ao amanhã. Vai ao banheiro, alivia-se, bochecha e senta-se à mesa para o café com leite, a fatia de pão besuntado de manteiga que engole quase sem mastigar. Antes do banho, passa os olhos pelo jornal, a começar pela página de esporte: o Flamengo fora derrotado pelo Vasco. Registro de um atropelamento sem gravidade e o leitor deu-se por informado.


Lula que fugia de jornais como o capeta do bispo, agora retoca a imagem e se declara um voraz leitor de todos os jornais. O que é impossível, consumiria o dia inteiro. E o presidente quando lê mais de uma dúzia de linhas fica tonto e tem azia.
Ora, para que tanta bobagem. O que Lula não gosta e nem aceita é a crítica, sempre injusta, caluniosa, um monte de mentira. A cobertura da pré-campanha com a candidata Dilma Rousseff, que rendeu as duas multas, deixa o presidente possesso. Ele e Dilma não fazem campanha, visitam obras e inaugurar casas, pontes, estradas por todo o país E a imprensa mente sem a menor ética, acusando-o de fazer campanha e enganando ate o Supremo Tribunal Federal.
Francamente, presidente. Respeite o povo.

 
 

Saudades de Armando Nogueira
    

Conheci Armando Nogueira na redação do Jornal do Brasil, no velho prédio da Avenida Rio Branco, quando fui o primeiro comentarista político com a coluna Coisas da Política. Pode ser que a memória caduca dos 86 anos faça alguma confusão, o que não muda absolutamente nada. Se não chegamos a ser amigos inseparáveis, até porque cobríamos áreas diferentes, a tribuna da imprensa do Maracanã era um ponto de encontro em todos os clássicos, Freqüentei o Maracanã e não perdi uma partida disputada no estádio monumental na Copa de 50, da derrota mais dolorosa, com a multidão em silêncio, muitos chorando, descendo as rampas em passos lerdos da imagem inesquecível. Nos atalhos da vida, a convivência cordial consolidou a amizade que, no meu caso, somava-se à admiração pelo texto absolutamente incomparável no estilo, elegância e a poesia das imagens.


O estilo que o identificava desde os títulos que valiam pela assinatura. Como este, que nunca esqueci: Ademir da Guia, nome, sobrenome e futebol de craque. No atentado da rua Toneleiros, contra o deputado e polemista Carlos Lacerda, que levou um tiro no pé - cujas cicatrizes nunca foram vistas por ninguém, mesmo depois de retirada a bota de gesso - Armando Nogueira foi testemunha da burrice da guarda-pessoal do presidente Vargas e que o levou ao suicídio que mudou a história do pai. Armando Nogueira apurou o suficiente e disparou para o Diário Carioca onde escreveu o texto do depoimento pessoal, na primeira pessoa, em coluna batucada às pressas, um marco na reforma da imprensa.


Assistimos muitas partidas que entraram para a história do futebol da tribuna da imprensa, na última fila do lado direito. Ao lado de Araújo Neto, Sandro Moreira, Nelson Rodrigues, Teixeira Heizer, João Saldanha, Sérgio Porto, o Stanislau Ponte Preta e tantos que já deixaram este mundo. Armando Nogueira via o jogo como quem assiste a uma peça de teatro. Falava pouco e se irritava com o repórter que torcia com espalhafato. O gol mil de Pelé e o gol de placa, quando o maior jogador do mundo em todos os tempos, recebeu a bola do goleiro e foi driblando os aparvalhados craques do Fluminense, até o chute seco e indefensável para o grande goleiro Castilho


Além da Copa de 50, da tragédia do Maracanã e do gol de Ghigghia, que marcaria o grande goleiro Barbosa com a maldição de responsável pela derrota, mesmo depois da nobre declaração do seu reserva Castilho, que “teria feito a mesma coisas”, assistimos junto a Copa de 86, no México, que Maradona ganharia para a Argentina, com um gol de mão e outro que é dos mais fantásticos da história das Copas. O genial baixote e gorducho argentino disparou pela direita, foi driblando em velocidade os adversários em fila e chutou no canto, cobrindo o goleiro. Um gol de gênio para a crônica de um craque que durou pouco, viciado em drogas e nas farras e bebedeiras.

Pouco vi o Armando no México. Hospedados em hotéis próximos, o Armando sumia nas folgas para as partidas de tênis, dos seus esportes de amador aplicado.

Com problemas de saúde, não puder ir ao velório no Maracanã e ao enterro. Mas, deixo aqui o modesto depoimento sobre uma longa relação sem um único arranhão e da admiração pelo escritor, o cronista, o poeta que tem sido justamente homenageado pelo reconhecimento nacional da sua importância e do vácuo que sempre deixam os que não tem reserva para substituí-lo.

 
 

O avesso de Lula
    março 29, 2010

Os familiares e amigos do presidente Lula devem estar preocupados – para dizer o mínimo - com a mudança da água para o vinho da embriaguez com a ardência da azia do seu temperamento, com os primeiros e ligeiros sintomas desde que, ignorando o PT como um bando de ingratos, decidiu lançar sem pedir a opinião nem da família, a candidatura da sua ministra-chefe da Casa Civil como candidata à sua sucessão.


Uma escolha extravagante, que desmoralizou a execração pública, o Partido dos Trabalhadores, por ele fundado como o grande líder do movimento operário, que se afirmou em greves memoráveis no negrume da ditadura militar. O PT pode estar com os seus quadros corroídos pelos muitos escândalos e trapalhadas, desde o caixa dois e o mensalão e mais o das ambulâncias. Mas, além de facilitar o acordo indispensável com o PMDB, com a entrega da vice para o presidente do partido, o deputado paulista Michel Temer, é a legenda que toca na alma dos milhões de eleitores da classe média e da massa de operários. Ora, a fama da ministra Dilma Rousseff, antes da sua nova imagem de risonha candidata, que não perde inauguração e nem viagem, colada ao presidente Lula pela goma da ambição, era de um temperamento instável, que explodia por ninharias e daí a minutos recuperava o bom humor para o uso comedido, que não tisnasse a imagem de autoritária e exigente.


Se a candidata está no seu papel fazendo tudo que seu mestre mandar, Lula parece virado pelo avesso. Está irreconhecível na arrogância que se considera acima da lei, que trata com o deboche os R$ 15 mil das multas aplicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, quando já não podia suportar a afronta do presidente da República que desdenhava das restrições à propaganda fora dos prazos legais. Em ditos e piadas Lula zombou da multa, que não pagou do seu bolso com fecho éclair, repassando ao presidente do Serviço Brasileiro das Micro e Pequenas Empresas, Paulo Okamoto, saldar a ninharia de R$ 15 mil.


Um presidente com 76% de aprovação nas pesquisas tem todos os motivos para estar inflado de vaidade. Mas, o decoro recomenda que não passe dos limites. E o Lula gaiato está ridículo. E como não teve nem tem tempo para ler jornais e muito menos livros, que lhe provocam dor de cabeça e azia a arder no estomago, toca o bonde com a esperteza e a popularidade como nunca na história etc. A nossa geração já passou por todos os vexames e constrangimento. Dos 20 anos da ditadura militar `a renúncia aos sete meses de governo do aloprado Jânio Quadros, que esperava voltar nos braços do povo, tal como Fidel Castro logo depois da vitória da revolução que renunciou ao posto de Primeiro Ministro e durante cinco dias e noites a multidão não arredou da praça em frente ao Palácio. O escorraçado presidente fantoche renunciou. Esta história foi contada por Fidel a Jânio quando de sua visita, ainda candidato, a Cuba e testemunhada pelo jornalista e acadêmico Murilo Mello Filho, um amigo de meio século e que conta em minúcias nas suas memórias.


Lula não é Fidel, embora amigo recente, nem ditador, mas eleito e reeleito em duas memoráveis campanhas. E é lamentável e decepcionante que ao fim do segundo mandato, com a cuca fervendo com os sonhos de manter o prestígio internacional, com uma agenda de viagens aos cinco continentes, o presidente perca a compostura na encadernação de um quem virou pelo avesso.

 
 

Aécio é mineiro e neto de Tancredo
    março 3, 2010

Arrisco-me a morder a língua, mas não acredito que a pressão dos tucanos e dos líderes da oposição para arrancar do governador mineiro, Aécio Neves, o desmoralizante recuo de aceitar a vice-presidência na chapa do governador José Serra, de São Paulo tenha a mínima possibilidade de sucesso. E pelas muitas e irrefutáveis: seria um recuo de frouxo, que ele não é; um erro tático travestido de hábil manobra política. Aécio acrescentou às suas muitas razões para ser candidato a uma vaga no Senado, com a eleição praticamente garantida, o argumento irrespondível de que, recuando para ser vice, perderia as condições políticas e éticas para defender o governador José Serra do deboche das cobranças do presidente Lula e da ministra-candidata Dilma Rousseff sobre o seu disse, mas não disse.


Ora, o governador Aécio Neves é neto de Tancredo Neves, um enxadrista que só movia as pedras no tabuleiro depois calcular cinco ou seis lances. A sua competência e habilidade foram demonstradas na fantástica articulação da sua candidatura à presidência, na sucessão do último presidente da ditadura militar, general João Batista Figueiredo quando chegou ao Colégio Eleitoral na eleição indireta com a certeza da vitória por larga vantagem sobre Paulo Maluf, o candidato oficial que derrotou Mario Andreazza na Convenção da Arena.


E, francamente, para um governador de Minas, a vice-presidência da República é uma condenação à forca. Além do Palácio em Brasília e do gabinete para ler os jornais e telefonar para os amigos nas horas ociosas e a substituição do presidente nas viagens pelo exterior, os dias vadios do tédio. E, como a ministra Dilma Rousseff ascendeu ao pódio do favoritismo, o risco da derrota não pode ser ignorado. Em contra-partida a eleição para uma vaga no Senado é praticamente certa.


O neto de Tancredo Neves mostrou que aprendeu as lições do avô, ao sugerir como o melhor nome para candidato a vice de José Serra, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) que “agrega uma fatia do Nordeste”. Com a inauguração, amanhã, da Cidade Administrativa Tancredo Neves, no bairro Serra Verde, na região de Venda Nova, obra monumental, com dois edifícios de 116 mil m2 cada do complexo projetado por Oscar Niemeyer, ao custo de R$ 1 bilhão, o governador Aécio Neves, com convidados de todo o país, a presença do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff, deve carimbar a sua candidatura a senador. E esperar a definição de José Serra para iniciar a campanha em Minas e em todo o país.

 
 

Os números não mentem jamais…
    março 1, 2010

A velha canção dos meus tempos de rapaz, que o Orlando Silva, o maior cantor do Brasil em todos os tempos, gostava de soltar a voz trepado no alto da mangueira do quintal da casa suburbana de seus pais, ainda de calças curtas, a popularíssima Manuelita que ensinava que “os números não mentem jamais…” Nem mesmo o preto no branco das pesquisas que começa a rabiscar o cenário da campanha eleitoral que, privilegiada com a pista livre para a candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, apressa o candidato da Oposição , o governador de São Paulo, José Serra, que procura na praça o companheiro de chapa e assiste a candidata adversária disparar na gangorra da indecisão.


Vamos aos números da pesquisa do Datafolha. No confronto de José Serra com Dilma, de 14 a 18 de dezembro de 2009, os 37% da dianteira do candidato da oposição despencaram para 32% na última pesquisa de 24 a 25 de fevereiro de 2010. Na mesma faixa, Ciro Gomes provável candidato do PSB, de 13% escorregou para 12%, dentro da margem de erro. E a ex-ministra Marina Silva, candidata do Partido Verde, manteve-se em 8%.


Por enquanto, a banca dos boatos registra a óbvia euforia dos petistas, que pularam na garupa da candidatura da ministra, engolindo em seco a escolha pessoal do presidente Lula, que não ouviu ninguém. Mais autêntico é o soar de alerta nas fileiras atordoadas da oposição. Se a candidata de Lula disparar nas pesquisas, a única alternativa do governador José Serra será disputar a reeleição com folgado favoritismo. E a oposição terá que voltar a Minas para retomar a conversa com o governador Aécio Neves para o reexame das duas cancelas de saída: a candidatura à vice-presidente que o governador nunca admitiu ou a mais ousada candidatura a presidente. As saídas pela porta dos fundos.


Serra e Aécio devem se reunir esta semana em Belo Horizonte. È improvável que renda mais do que declarações escapistas e espaço na imprensa. E a oposição centra as críticas na candidata e evita o confronto direto com o presidente Lula que é grande eleitor, com a aprovação nas pesquisas acima de 80%. Esta primeira arrumação da casa deve-se à iniciativa de Lula, que partiu para a campanha fora dos prazos legais, para o teste da viabilidade da sua candidata. E jogou de peito aberto, indiferente ao esperneio da oposição e da penca de recursos ao Supremo Tribunal Federal.

Nada mais detêm a campanha, pois não se cerca fogo de morro abaixo. Acuados, os líderes de uma oposição frouxa e desinteressada só têm a alternativa de criticar o governo, nas suas contradições, na orgia da gastança, nos reajustes de salários de categorias privilegiadas de funcionários, nas nomeações nitidamente políticas, na roubalheira de Brasília e na coleção de tiradas pornográficas dos improvisos presidenciais. E as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da recuperação da rede rodoviária em petição de miséria andam no mesmo passo da reconstrução das imensas áreas por quase todo o país, devastadas pelas enchentes de uma das piores fases dos últimos anos.

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