A lição ética dos vereadores de Nova Friburgo
    outubro 15, 2008

Com o atraso de mais de uma quinzena, lendo a edição do dia 7 do jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, descobri como garimpeiro que encontra a pepita de ouro da aventura, lá no alto da página 10, com o título que cutucava o interesse sem revelar a surpresa de “Vereadores eleitos receberão subsídio mensal de R$ 7.740” e a sacudidela no subtítulo de “Parlamentares não terão direito a 13º salário” - a manchete que deveria ser publicada na primeira página de todos os jornais do país, nos noticiários das redes de TV e emissoras de rádio.

Vamos ler junto o texto da excepcional e surpreendente lição de ética, que soa como um tapa no rosto do Congresso mergulhado na crise moral que ameaça o regime.

Não é grande e confirma a sabedoria popular que ensina que o melhor perfume é o que se esconde nos frascos pequenos.

Olho vivo e atenção para não perder nada: “Às vésperas do pleito de domingo, dia 6, a Câmara de Nova Friburgo aprovou a resolução de número 4280/08, reajustando o subsídio mensal dos vereadores eleitos e que tomarão posse em 1º de janeiro. O subsídio de cada um dos parlamentares será de R$ 7.740 brutos, vedado o recebimento de qualquer outro tipo de gratificação adicional, abono, prêmio e verba de representação”.

“Respire fundo que o melhor está no fim:” Segundo a resolução legislativa, o futuro presidente da Câmara não terá direito a qualquer acréscimo no subsídio para exercer a função, bem como também não haverá pagamento de 13º subsídio aos futuros parlamentares”.

E no arremate: “Na hipótese de o vereador eleito vir a ser nomeado secretário municipal, deverá optar pelo subsídio ou salário custeado pelo Executivo, vedada a acumulação. Os vereadores não serão indenizados ou remunerados em caso de sessões extraordinárias”.

A ressalva que carimba a autenticidade: Apenas dois dos atuais integrantes da Câmara votaram contra o reajuste: os vereadores Marcelo Verly (PSDB) e a candidata derrotada a prefeita, vereadora Jamila Calil (PSB). ”

A Câmara Municipal de Nova Friburgo mantém uma histórica tradição de compostura e modéstia. Os longevos de boa memória, como o diretor da AVS, Laércio Ventura, conheceram a Câmara com meia dúzia de vereadores e apenas quatro servidores que davam conta do recado.

Quando recebi o título de Cidadão Friburgense, em 15 de agosto de l986, a Câmara Municipal ainda se apertava nos dois andares do venerando casarão da Praça Getúlio Vargas que fora a sede da Prefeitura.

Mudou-se para o prédio de amplos espaços que foi do Banco do Brasil. Um convite ao desatino do empreguismo, com mimos para parentes, amigos, cabos eleitorais e cupinchas.

Agora, ficou difícil uma recaída com a vigilância da sociedade e dos vereadores que deram o recado antes da eleição e da posse.

Certamente não sensibilizará os colegas vereadores de todo o Brasil nem aos deputados estaduais e federais e senadores que desfrutam o vexaminoso privilégio de um dos melhores empregos do mundo, cevados pelas mordomias, vantagens e privilégio e a semana útil de três dias.

Esperança de um choque ético? Ou a vergonha que se perde não se encontra mais.

 
 

Índios - parte 1
    outubro 14, 2008

Na volta triunfal, em 1950, nos braços do povo, na desforra da derrubada do Estado Novo, em 1945 e da eleição para presidente do seu ministro da Guerra, marechal Eurico Gaspar Dutra, o ex-ditador do Estado Novo, Getúlio Vargas elegeu-se tendo companheiro de chapa o deputado Café Filho, indicado pelo aliado, então governador de São Paulo, Ademar de Barros. Ressentimentos curtidos no exílio na fazenda em São Borja, na zona missioneira do Rio Grande do Sul foram enterrados na cova rasa do esquecimento. Eleito, empossado, o presidente Vargas driblou o estafante compromisso de inaugurar a primeira reserva indígena no Brasil Central, ao seu vice Café Filho.


Integrei a comitiva que cabia no DC-3 da Aeronáutica. Saímos de Natal, com o vice em impecável terno de linho branco e pousamos no campo improvisado, com a recepção de autoridades militares, diretores do Serviço de Proteção aos Índios e dezenas, talvez mais de uma centena de indígenas nus ou com as tangas que mais mostravam do que escondiam o que não vergonha para quem desconhecia a malícia do civilizado. No altar armado no amplo espaço ao lado das rústicas cabanas de brancos e índios, foi rezada a missa pelo deputado e padre Medeiros Neto, com os paramentos da sua precavida bagagem. A lembrança da Primeira Missa da descoberta em 1500. Mas, é uma visão que não resiste à sacudidela da realidade de séculos de devastação de floresta e de caça ao índio. Até o fim da missa ninguém arredou pé.

Até o fim da missa ninguém arredou pé. Com o fotografo Amaro Rosa demos uma volta em torno para escolher ângulos para os flagrantes. Sem grande sucesso, como se verifica…

 
 

Crise com fôlego para durar
    outubro 13, 2008

As fichas que o governo apostou no segundo turno da campanha municipal para a eleição de prefeitos e vereadores estão caindo no pano da decepção. E a briga pelo voto é decidida na correria de três semanas, com a votação no último domingo, dia 26. Uma semana passou com a velocidade da pista encharcada pela inclemência da chuva que não prejudicou a articulação das alianças que obedeceram ao rito da coerência.

A estréia dos debates que devem cumprir a obrigação de esquentar a temporada não peca pela modéstia e, ao contrário, assustam pelo risco de passar da medida e maltratar a paciência do eleitor.

Nas manchas no rendilhado municipal em que a fatura foi liquidada no primeiro tempo, sobrou para a população a comodidade de espectadores da disputa na vizinhança, seja pela mídia ou redes de TV, que transmitirão os debates e pelo horário de propaganda eleitoral, que afinal promete ser mais animado e de melhor nível do que a baixaria do espetáculo deprimente do primeiro turno.

Enfim, nem tudo está perdido. Afinal, qualquer eleição deve interessar a todos, na corrente da solidariedade nacional. E, como a próxima, daqui a dois anos, em 2010, mobilizará o país na campanha para a sucessão do presidente e dos governadores e para senadores, deputados federais e estaduais, estamos na preliminar, com o alinhavo das alianças que antecipam o modelo de polarização do nosso falido esquema político, atolado na crise sistêmica que envolve os três poderes, com o destaque do distúrbio ético que aflige o Legislativo.

Antes de bater ponto no dia de amanhã, a ameaça da recessão mundial, afinal admitida pelo presidente Lula e pela dupla que embaralha as cartas, formada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega e pelo presidente do Banco Central, Domingos Meirelles, que desistiu do quebra-cega dos truques para ousar as primeiras medidas para valer, com injeções maciças de bilhões no mercado. Seguiram o rastro da redução dos juros pelos bancos centrais dos três continentes, em inédita decisão que sinaliza a gravidade da crise financeira desencadeada pelos Estados Unidos.

A choradeira ensopa os lenços em todo o mundo e pinga nos prognósticos de escassas esperanças. O Fundo Monetário Internacional (FMI), pela voz rouca do seu conselheiro econômico e especialista em pesquisa, Oliver Blanchard, puxa o crepe para anunciar tempos difíceis, com crescimento zero e até negativo – o que não é crescimento, mas encolhimento – regado com o pífio consolo de uma longínqua recuperação que comece lá por 2009.

O presidente George Bush buscou alivio dos seus remorsos e fracassos em um a bate-papo pelo telefone com o presidente Lula. Pela versão oficial, a voz chegou pelo fio no tom de otimismo: “o Brasil tem uma plataforma sólida para enfrentar a crise devido aos bons fundamentos da economia” - deu o recado.

Lula retribuiu o agrado, saudando a aprovação do pacote de socorro do sistema financeiro americano. Em meio a tal turbação, sobra uma beirada no tabuleiro para o movimento no jogo de dama da política doméstica. Mas, não vamos sepultar a esperança de alguns dividendos com a eleição dos novos prefeitos eleitos e dos vencedores do mano a mano das urnas eletrônicas do dia 26.

As alianças que estão sendo firmadas ou ainda nas preliminares não prometem correções significativas na bagunça da incoerência dos blocos de interesse estaduais e municipais. Na nossa abandonada ex-capital do país e que não parece capital do Estado do Rio de Janeiro, a surpresa da classificação de Fernando Gabeira, do Partido Verde pelo menos coloriu a campanha com o toque do inesperado. O favoritismo do candidato do PMDB, ampliado com os acordos firmados com PT, o PSB e o PSC vai enfrentar o teste dos debates, que prometem sacudir a cidade até o limite da saturação. Mais de vinte estão agendados pelas redes de TV, emissoras de rádios e pela mídia.

Além dos 10 minutos diários para cada um no horário eleitoral. Por todo o país, em todos as capitais e municípios em que a eleição será decidida no segundo turno, com as suas peculiaridades, a população será atraída para o espetáculo democrático do debate de idéias e até do xingamento entre os finalistas que conquistaram a vaga na primeira rodada.

E até é o caso de lamentar pela oportunidade perdida ou adiada. Na próxima eleição, com toda a certeza teremos uma nova legislação eleitoral. E uma das modificações inadiáveis atingirá o horário de propaganda eleitoral para acabar com o ridículo desfile dos candidatos a vereador e estimular o debate sobre programas e idéias.

Quem viver, verá.

 
 

O voto sem dono
    outubro 8, 2008

A campanha do segundo turno emendou no fim do primeiro para seguir rota inteiramente diferente que costuma desnortear os mais diretamente envolvidos que confunde torcida com a tentativa de análise isenta. E que também comete os seus erros e deles se penitencia.

A que arrancou com o embalo dos resultados do primeiro turno, com a carga de surpresas, decepções e esperanças, dispara com a velocidade de raio, exigindo a máxima acuidade para acompanhar a corrida de pequena distância de três semanas, até a chegada ao repeteco das urnas do dia 26 para o voto único da polarização da escolha dos prefeitos das capitais e municípios que não arrumaram a casa no último domingo.

A polarização é impositiva: governo versus oposição, com a mistura das cores das camisas na escalação das equipes. Na arrancada, candidatos e lideranças apostam o cacife para fechar a alianças na cúpula. As óbvias, que são quase todas, não exigem mais que os salamaleques que dissimulem os ressentimentos pelos eventuais equívocos da fase preparatória.

Não há tempo a perder. A campanha chega ao valorizado programa de propaganda eleitoral – com toda a probabilidade de virar pelo avesso o vexame do primeiro turno, com os 10 minutos para cada um da dupla de finalistas e mais a avalanche de debates promovidas pelas redes de TV, pela mídia e pelas excitadas e demais entidades, ansiosas por pegar uma carona no reboque do bonde do voto.

Os candidatos não resistirão aos apelos para comparecer a todos os convites. Até o limite do possível. E sem deixar de reservar algumas horas para os contactos diretos com o eleitorado.

É difícil seguir a trilha da lógica, do bom senso quando a decisão das campanhas está muito mais pendurada no imponderável da crise financeira que enlouquece o mundo e chega ao nosso país nas ondas que arrebentam nas pedras da contradição.

Mas, até onde a disparada do dólar, que nem os leilões do Banco Central estão conseguindo conter ou reduzir, será sentida pela classe média, pelos emergentes e pelos pobres?

Se o cenário é um só para todas as capitais e municípios na fornalha da escolha do prefeito para os próximos quatro anos, cada um terá uma história para ser contada, com as suas muitas e prováveis surpresas. Pois, é impossível que o comportamento do eleitorado não se altere nestas três semanas de imprevisível desdobramento da crise mundial. E dos seus reflexos na rotina doméstica da população.

Os conchavos entre candidatos, líderes de partidos, governadores e ministros - com a participação direta e compreensível do presidente Lula e da ministra-candidata Dilma Rousseff - correm o risco de serem desfeitos pelas imprevisíveis reações do eleitorado. Se faltar pão, desanda a eleição.

O real está em queda livre, com a desvalorização recordista entre moedas emergentes. A celebrada popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não apresenta sinais de abalo. Mas, até onde resistirá a uma frustração que contamine o voto e reverta expectativa?

Lula está fazendo o que pode. Ordena que o Banco Central e a Caixa Econômica Federal socorram as pequenas instituições financeiras, sem recursos para a captação de dólares no exterior. Alinha um pacote para os ruralistas com o anunciado aumento de 3 a 5 pontos percentuais do compulsório para o crédito rural. E, no toada do otimismo, aconselha a população a manter os seus hábitos de consumo.

Não está tão fácil sustentar o discurso otimista do “se a crise chegar ao Brasil não será grave”. E que mereceram do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no seu retorno à militância eleitoral, o comentário provocativo: “Não adianta enganar a população. As pessoas vão sentir a crise no bolso”.

A campanha promete três semanas com a carga de emoção que ameaça as novelas.

 
 

O desafio em tempo de crise
    

Com a natural empolgação dos vitoriosos no primeiro turno e o contraste com o abatimento dos derrotados, não sobrou um palmo de serenidade na inundação de entrevistas, palpites e previsões da cobertura maciça das redes de televisão para o encaixe de uma análise, ainda que superficial, sobre o cenário fosco do segundo turno, espremido entre três semanas de articulação de alianças e de debates já anunciados por jornais, revistas e TVs.

Há muitas novidades a examinar na mudança da água para o champanhe do desmoralizante desperdício de tempo e dinheiro dos ridículos e milionários programas gratuitos de propaganda eleitoral no primeiro turno, especialmente de candidatos ao maná de uma vereança e o mano a mano entre os finalistas a prefeito em 29 cidades, para a decisão pelo voto de mais de 26 milhões de eleitores.

Com menos e mais qualificados candidatos, a propaganda na TV e no rádio será intensa e comprimida, com cada concorrente dispondo de dez minutos, em cada um dos dois programas diários. E cada candidato ganhará o mimo de mais 15 minutos diários para inserções de até um minuto na programação das emissoras.

Não é apenas no enxugamento de candidatos e o melhor nível dos que passaram pela peneira do voto que deve ser analisado o contraste que já se vislumbra na agitada corrida pelo voto.

Para o governo, do presidente Lula ao seu candidato ao mais desfavorecido dos municípios, a visão que se vai desenhando é turva, com manchas dos respingos da crise que esmurra a porta e pede passagem.

E o desempenho escapista e sinuoso do presidente abre furos no seu escudo de proteção e expõe o risco dos seus equívocos. Lula tentou afugentar a crise com a arrogância das suas afirmações categóricas. E que, com a cambalhota do mundo, rolam pelo tapete do ridículo. Ditas e repetidas à exaustão; com a impostação da soberba de que a crise dos Estados Unidos, que se espalhava pelos mercados mundiais, se chegasse ao Brasil seria quase imperceptível. Quando a imperceptível inchou, Lula subiu meio-tom na imodéstia, para admitir que se o tsunami “chegar aqui, vai ser uma marolinha”.

Três semanas de campanha é um prazo curto para inverter a tendência de voto do eleitorado que fez a sua cabeça nos meses de envolvimento pela eleição que passa pela sua porta e mexe com a sua vida.

O segundo turno pega o carro em disparada de ladeira a baixo. Já há espaço para especular sobre as vantagens e desvantagem da presença do maior presidente etc. e tal, com o fantasma da crise derrubando o preço nas feiras e mercados e reabrindo a discussão sobre o delírio de gastança do governo deslumbrado com os índices recordistas de popularidade, o perdulário do inchaço da burocracia com o maior ministérios de todos os tempos, com pastas e secretárias que não resistem à cobrança sobre a sua eficiência.

A pavimentação da passarela para o desfile da eleição da ministra-candidata Dilma Rousseff para guardar a cadeira presidencial para a volta de Lula em 2014 ou 2018 terá que passar pelo enxugamento do PAC, para os ajustes impostos por uma crise que apenas começa com o pé no acelerador.

E se Lula baixar è terra para um segundo de reflexão não necessita de melhor conselho do que a do eleitorado do Rio Grande do Norte, na dose dupla dos resultados de Natal e de Mossoró. Indignado com a atuação parlamentar do senador José Agripino Maia, líder da bancada do DEM, Lula ameaçou participar da campanha em Natal para derrotar o adversário, apoiando a candidatura de Fátima Bezerra, do PT. E cumpriu o prometido para cair da montaria. A prefeita eleita no primeiro turno, jornalista Micária de Sousa, do PV, legenda até aqui sem maior expressão no Estado, foi apoiada pelo senador José Agripino Maia.

Lições da vida que poucos aprendem.

 
 

Lula acredita na crise
    outubro 6, 2008

Depois de negar com a convicção de crente, que a crise financeira que dos Estados Unidos contamina o mundo, o presidente Lula admitiu que ela é grave, muito, embora ressalvando que atingirá o Brasil em dose suportável, graças as medidas acauteladoras adotadas pelo seu governo, com a clarividência que ilumina a sua equipe econômica.

O presidente tem uma solene implicância com a palavra pacote. O enjeitado substantivo não deve ser mencionado nas reuniões palacianas convocadas exatamente para tratar da sua abordagem, com o elenco das medidas urgentes que bloqueiem o risco de que a crise que arruína as instituições financeiras dos Estados Unidos contaminem o Brasil, com efeitos calamitosos para os planos armados para garantir a popularidade presidencial, as obras do PAC e a eleição da ministra-candidata Dilma Rousseff , em 2010.

Na consulta aos dicionários para catar sinônimos que não arranhem os ouvidos presidenciais, o resultado é mofino: embrulho soa como deboche, trouxa piora o soneto.

Ora, fica mais difícil para a equipe econômica passar para o distinto público que no próximo domingo, dia 5, votará nos 5.562 municípios para eleger os prefeitos e vereadores, obedecer ao pé da letra às ordens contraditórias do presidente. Da recomendação terminante de que “o Natal está aí, cuidem do crédito para os exportadores, para os industriais, para os agricultores e para as pessoas físicas”, sem esquecer a continuidade das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que “não podem ser ameaçado pelos efeitos da crise internacional”.

Trata-se de uma mágica a exigir prodígios de habilidade dos ministros da área econômica. De alguma forma facilitada pela aterrissagem presidencial na constatação de “não podemos fingir que não existe uma crise”. No que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, emendou como o eco que amplia o som: “ Haverá pacote, mas nos Estados Unidos. Quem precisa de um pacotão são os americanos. Pacote é coisa do passado”.

Se o equilíbrio na corda frouxa exige cautela e vista apurada para acompanhar a evolução da crise no mundo e as suas repercussões no nosso país, as eleições municipais chegam em boa hora para aliviar as aflições do Planalto. Os resultados do primeiro turno, que devem ser conhecidos na noite de domingo, garantem munição para abastecer o paiol com as especulações sobre o segundo turno. Outubro está com a agenda completa.

E daí até o fim do ano, sô o imprevisto atrapalharia a temporada de repouso dos parlamentares, com as férias do Congresso, o Natal, a passagem ano. Se as urnas não prometem sustos que desestabilizem o esquema oficial, o presidente certamente aproveitará os seu vagares para as articulações que recomponham os estragos na máquina de apoio parlamentar, sem grandes mudanças no núcleo de confiança. E é inútil tentar antecipar o que só a contagem dos votos revela.

Lula já mostrou o seu repertório de esperteza e a sua facilidade em distribuir recompensas e agrados para os injustiçados pelo voto. E o que realmente conta são os grandes estados e o conjunto da obra.

As contradições entre o que o presidente apregoa e a realidade não atravessam o escudo que protege a sua popularidade. Entre êxitos inegáveis como da Bolsa Família, da disparada dos índices de redução da pobreza e tudo o mais que tem sido balado pela maior máquina de propaganda de todos os tempo, o contraste com os desafios que permanecem intocados escorrem como água de morro abaixo pelo desligamento da opinião pública.

O inchaço das áreas urbanas com a migração interna que não cessa nem é acompanhada pelo governo, do município ao federal, infartado pelo monstrengo ministerial e que agora explode com o colapso do transito nas grandes e médias cidades. A pilhagem do aumento suspeito das multas não disfarça a situação calamitosa da rede rodoviária nacional, largada às traças. O mesmo quadro da rede portuária, da saúde pública, da educação. E nas favelas dominadas pelo tráfico de drogas, a polícia só entra nos blindados e caveirões.

Como a hiena da anedota, nós estamos rindo de quê?

 
 

A antipropaganda do horário eleitoral
    outubro 5, 2008

O intervalo entre o primeiro e o segundo turno da eleição para prefeitos e vereadores abriu um espaço que convida a indispensável, urgente e inadiável análise crítica dos defeitos e malefícios da praga do horário de propaganda eleitoral que aproveita a muito poucos e espalha pelo país a reação da sociedade, que se considera desconsiderada pelo espetáculo circense do desfile de candidatos recrutados não se sabe onde e verdadeiros espantalhos do voto.

Mas, até que enfim terminou o calvário do patusco vexame do milionário horário eleitoral gratuito do primeiro turno, em rede nacional de rádio e emissoras de TV. O distinto público mandou o seu recado à violência que impõe a opção entre desligar o botão ou submeter-se suplício, com os baixos níveis de audiência que registram no Rio uma queda de 17% de aparelhos ligados nas transmissões da tarde e de 12% nas noturnas

Mais do que a relativa modéstia dos tombos, a grande lição que entra pelos olhos, ferve na indignação e adverte para o ridículo a que se expõe a maltratada democracia é endereçada ao Congresso - dos presidentes do Senado e da Câmara, aos líderes de partidos e aos 81 senadores e 513 deputados.

Se o conceito do Legislativo anda aos trambolhões, creio que este é o momento exato para o apelo ao instinto de sobrevivência dos profissionais e dos aventureiros que desfrutam os privilégios de um dos melhores empregos do mundo, em que se cruza o mínimo de tarefas na semana de três dias úteis.

E é tudo isto e muito mais que está em jogo na escalada de desmoralização do mais democrático dos poderes. Se Suas Excelências querem proteger o bolso e as regalias não é pedir muito que, concluído o segundo turno com a proclamação dos eleitos para as prefeituras e a renovação das câmaras municipais dos 5.562 municípios do país, de volta à mansa rotina parlamentar iniciem a avaliação dos acertos e erros da rodada nacional de votos pela reforma do programa de propaganda eleitoral, privilégio que custa milhões e que não se sugere extinguir, mas corrigir as suas aberrações.

Já temos uma razoável experiência de muitas campanhas, com os seus altos e baixos. Com a óbvia constatação de que é o debate a atração capaz de bater recordes de audiência nos seus grandes momentos. “A memória exuma velhas lembranças. E pára no debate entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, patrocinado pela Rede Bandeirante com exemplar competência nos seus estúdios, em São Paulo, que bateu recordes nacionais de audiência. Indicado pela Rede Manchete, participei do grupo de jornalistas que fez duas perguntas cada um aos candidatos. E nunca encontrei a explicação satisfatória para o fraco desempenho de Lula, passando a impressão de intimidado diante do desembaraço de Collor, o cometa que se espatifou aos seis meses de mandato.

O torneiro-mecânico colecionaria mais duas derrotas na eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso. E a sua obstinação o levou à desforra em dose dupla, com recorde de aprovação popular no segundo mandato.

Tento destacar o contraste entre extremos opostos. Da eleição presidencial decidida no debate que paralisou o país ao vexame da falsa propaganda eleitoral gratuita do primeiro turno mais chocho da crônica política do Rio de Janeiro e certamente em todo o país, com pontuais exceções.

Quem nada viu não pode fazer idéia do que foi o ridículo do desfile circense de candidatos ao prêmio de uma cadeira na Câmara Municipal na antiga capital do país, a ex-Cidade Maravilhosa na degringolada da decadência que começa com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960 e despenca em queda livre com a violência dominando as favelas com o tráfego de drogas, o transito engarrafado, ruas, praças depredadas e a sensação de milhões acuados no beco sem saída do declínio.

Minha longa militância de seis décadas no jornalismo político não me acode no esforço para entender como e onde os partidos conseguiram recrutar os milhares de candidatos à vereança – com raras, raríssimas exceções – para o desfile ridículo de circo mambembe, com roupas exóticas, enfeites caricatos e desempenho de dar engulhos. Muitos, a maioria, incapazes de decorar uma frase de uma dúzia de palavras.

Na caminhada para 2010 que junta em grande pacote a eleição para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, viria a calhar uma tentativa de exumar a reforma política com a iniciativa das lideranças qualificadas do Congresso.

Do governo não há o que esperar. O presidente Lula cuida em médio prazo da eleição da sua candidata, a ministra Dilma Rousseff, das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e demais obras que inflam a sua popularidade.

O Congresso deve cuidar de si. Já perdeu muito tempo, cometeu todos os erros imagináveis, chafurdou nos escândalos do caixa dois, do mensalão e outros com o tempero da impunidade.