A carapuça de Lula na medida do ministro
    setembro 24, 2008

Em outros tempos e costumes, a esta altura o ministro do Trabalho, Carlos Lupi estaria com o pedido de demissão pronto e assinado para entregar ao presidente Lula assim que puder ser recebido no gabinete do Palácio do Planalto.

Lá é verdade que o ministro pode sair pela tangente, alegando que se enrolou num qüiproquó por desinformação e que um pedido de desculpas, com o presidente boiando nas águas mansas da felicidade com a escalada dos seus índices de popularidade, a bater recordes que parecem que podem chegar à lua da virtual unanimidade pode ser e deve ser a saída pela porta dos fundos, olhando para os lados para conferir se os abelhudos não estão na tocaia para badalar o seu momento de infortúnio.

Acontece que Lula pegou pesado e aumentou o constrangimento do ministro. O caso começa com a matéria publicada pela Folha de S. Paulo anunciando que o governo estava examinando a proposta, apoiada pela União Geral de Trabalhadores (UGT), da liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a compra de ações da Petrobrás.

Em cima do laço, o ministro Carlos Lupi, do Trabalho, bateu o martelo confirmando, em entrevista a Rádio CBN, que era favorável à medida que estava sendo examinada pelo governo.

Lula desembarcou em Nova York para o discurso inaugural na Assembléia das Nações Unidas (ONU) sufocado pela irritação com a notícia lida nos jornais durante a viagem e desabafou, sem medir palavras, com extrema violência: “O governo não está preparando novas ações da Petrobrás. Em momento de crise, a gente não pode tomar nenhuma medida precipitada”. No crescendo foi às nuvens: “Eu acho abominável fazerem manchete irresponsável sobre esse assunto, sem nunca terem conversado comigo, sem que eu tivesse sequer pensado nessa idéia”. Na marcha batida, piorou o soneto: “Isso é uma coisa que eu nunca falei. Para dizer que o presidente pensa alguma coisa dessa magnitude deveriam ter a responsabilidade de me consultar, ou de consultar o ministro da Fazenda, ou o presidente do Banco Central ou o ministro do Trabalho”.

Mas, se o episódio é curioso ao expor o bastidor do governo e as dificuldades de entendimento do maior ministério de todos os tempos, com 38 ministros e secretários batendo cabeça nos corredores superlotados do palácio na Esplanada dos Ministérios, certamente deixará seqüelas, com a UGT estimulada a ativar a mobilização para pressionar o governo a apoiar o ministro do Trabalho, que bate em retirada fugindo da conversa…

Por enquanto, com o vento a favor, Lula passará por cima do incidente, mais para o cômico do que para sério, nas asas tão confiáveis como as do Aerolula do recorde de popularidade em 77.7%. Está com a casa arrumada, dono e senhor do governo e do PT.

Na exemplar competência da entrevista emoldurada na seção Coisas da Política do JB de ontem, o jornalista Tales Faria extraiu do presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), o roteiro óbvio do segundo maior partido do país, que abandonou o muro para cair nos braços do governo. Em acordo aberto, com a participação negociada às claras no toma-lá-dá-cá. E com a exigência sem novidade, além da sua confirmação pelo presidente do partido: o PMDB quer a vice-presidência na chapa da ministra-candidata Dilma Rousseff.

O que depende de Lula e de mais ninguém. O PT queimou os seus quadros no fogaréu dos escândalos do mensalão e do caixa dois. Os demais aspirantes do segundo escalão já se recolheram aos seus lugares.

Não há novidades arranhando a porta. Lula jogará pesado para viabilizar a sua candidata. Antes de conhecidos os resultados da eleição de 5 de outubro para prefeitos e vereadores, qualquer especulação não irá além do palpite.

E palpite, como pode confirmar o ministro Carlos Lupi, às vezes queima a língua.

 
 

Casos da Fazenda do Retiro
    setembro 22, 2008

Neste livro o jornalista Villas-Bôas Corrêa relembra sua infância contando histórias que aconteceram na Fazenda do Retiro, situada na zona da mata mineira, onde o jornalista passou boa parte da infância. É uma narrativa ao estilo daquelas que são contadas na roça, em noites de luar, ao redor de uma fogueira, entre uma moda e outra de viola. O autor teve o esmero de reproduzir o frescor dos maneirismos da fala do homem do campo em 21 relatos curiosos e divertidos.

 
 

Conversa com a Memória
    

O Conversa com a Memória é a tentativa do autor para tentar seguir os seus muitos anos de repórter político, quando o Rio ainda era a capital do Brasil e a Câmara dos Deputados e o Senado viviam a fase mais brilhante da oratória parlamentar, nos debates em que o jogo do poder era decidido nas votações do Congresso.

E é o cenário em que a reportagem política, na cobertura dividida nas três áreas das comissões, do plenário e da articulação política forjou o modelo da crônica independente, voltada para a análise e a interpretação.

A geração de Carlos Castello Branco, Benedito Coutinho, Odylo Costa, filho, Heráclio Salles, Otacílio Lopes, o Cara de Onça, Ozéas Martins, Murilo Mello Filho, Prudente de Morais Neto, o Pedro Dantas, Carlos Lacerda, Doutel de Andrade, Osvaldo Costa e do autor não acompanhou a mudança da capital para Brasília.

Muitos foram, outros tantos ficaram. E o Congresso e a reportagem política nunca mais foram os mesmos.

 
 

Nem é oposição nem o partido do governo
    setembro 17, 2008

É compreensível que os dirigentes e demais abrigados na barraca do PT tentem passar para o eleitor que o sortilégio da legenda que curtiu o calvário da oposição conta com o apoio da imensa maioria da população.

Pena que a esperta versão seja metade verdade e a outra banda uma conversa de esperto para enganar os trouxas. Pois, a evidência que passa pelo raciocínio que não fatiga os neurônios é que na bagunça do quadro partidário, em que se encaixa o flagrante da campanha para prefeitos e vereadores, não há oposição com o mínimo de consistência nem o PT é o grande partido que se apresenta como o favorito na maioria das capitais e municípios.

No caso da tresloucada oposição, o seu martirológio começou antes da posse de Lula para o primeiro mandato, em 2002, quando foi montado no Congresso o balcão para a compra e aluguel de votos para a composição da maioria parlamentar - que é acachapante na Câmara e com os seus riscos no Senado, no pobre Senado dos senadores de garupa, que se “elegem” sem um único voto, como suplentes dos verdadeiros donos dos mandatos.

Com a crise ética que assola o Legislativo e contamina os três poderes, caiu a máscara no descaro dos acertos no toma-lá-dá-cá da cooptação do PMDB e dos avulsos que se bandearam em grupos ou no varejo das unidades.

A fragilidade da oposição pode ser conferida no flagrante das rachaduras e contradições da campanha municipal. Minoritária e dividida na sopa de letras das siglas que não se entendem nos estados e batem cabeça nos municípios, os líderes dos partidos desistiram da elementar providência de fechar em torno de um candidato para evitar os atritos internos. Nem em Minas foi possível carimbar a popularidade do governador Aécio Neves, como a solução natural, enquanto em São Paulo o governador José Serra não se entende com o antecessor Geraldo Alckmin que, por sua vez, mirou no prefeito Gilberto Kassab (DEM) um aliado que virou alvo.

Na largada da campanha para a sucessão de Lula, o instinto de sobrevivência deverá tanger a oposição para o apoio ao candidato único, com os lanhos das brigas internas.

O governo é o presidente Lula, com a popularidade disparando com a velocidade das sondas espaciais para o recorde de 62% de aprovação e a liderança inquestionável sobre o PT e os demais 15 partidos ou filhotes de siglas que desfilam na parada do apoio ao governo. Uma aliança amarrada com todas as embiras dos interesses atendidos e do empenho de senadores e deputados federais em renovar o mandato, um dos melhores empregos do mundo, que rende mais de R$ 100 mensais com os subsídios, vantagens, benefícios do balaio generoso que escancara o saque ao cofre da viúva.

As especulações de sempre sobre os resultados das eleições de prefeitos em 5.562 municípios e de cerca de 400 mil vereadores (que desperdício!) ajudam a passar o tempo e a aquecer o debate no Congresso.

Desde a restauração do regime democrático, com a derrubada do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945, com a interrupção dos quase 21 anos da ditadura militar do rodízio dos generais-presidente, e a nova temporada de eleições para valer, a partir da eleição indireta de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985 - o presidente que não tomou posse - de José Sarney a Lula em seus dois mandatos, raras eleições não tiveram os seus resultados antecipados pela nítida preferência das ruas.

Mas, nunca com a certeza de que o presidente elegeria quem ele quisesse. E Lula quer a ministra-candidata Dilma Rousseff. O PT vai a reboque.

 
 

O contraste entre governo e oposição
    setembro 12, 2008

À medida que as pesquisas e a evidencia expõem o contraste entre a euforia confiante do governo e as angustias de uma oposição perdida nas brumas de um futuro incerto, mais nítido é o flagrante da urgência da reforma política, inevitável, mas de uma gritante inviabilidade na pasmaceira do Congresso e no desinteresse da maioria que nada em águas mansas e generosas.A cada dia o simples passar de olhos pelo noticiário político, com o tempero azedo do abominável programa de propaganda eleitoral, confirma o que está à vista com a nitidez de uma foto.

Do lado festivo e festeiro do reino de Lula, a casa arrumada, com a mobília à espera da troca da faixa, com a certeza cega da vitória. Claro, são cenários contrastantes. O presidente Lula vive um dos seus mais eufóricos momentos, com os êxitos setoriais na Área econômica, dinheiro sobrando na caixa da viúva para a gastança milionária de programas que acertam uma no cravo e outra na ferradura confirmam e consolidam a popularidade recordista do maior presidente et cetera, et cetera e robustecem a sua liderança para fazer o que bem entende, sem dar confiança aos palpites da turma, cada vez mais murcha e cabisbaixa na apertura do beco sem saída.

Claro, que a política e as nuvens mudam de uma hora para a outra. Mas, o que se enxerga no momento, com nitidez ofuscante é que o virtual lançamento da candidatura da ministra Dilma Rousseff à sucessão presidencial de 2010, matou no nascedouro ambições que se assanhavam, ameaçando a liderança de Lula e a coesão do bloco aliado.

No PT, as fumaças de candidaturas não resistiram a um sopro do presidente, que é o dono indiscutível da legenda e seu único chefe. A debandada do rebanho de candidatos teve seus instantes cômicos, com ministros a jurar fidelidade no enterro de suas ambições. Não sobrou ninguém no gramado. E a ministra-candidata Dilma Rousseff, cada vez mais desembaraçada, desfila de queixo empinado e forçando o sorriso que abrande a sisudez do seu natural.

Os candidatos petistas ou de partidos aliados às prefeituras das capitais e das grandes cidades, com as naturais diferenças percentuais, galgam pontos nas pesquisas fecham com a ministra-candidata e a esperam nos palanques da reta final.

E todo o santo dia Lula dá o seu recado ao eleitor e ao partido. Promete este mundo e o outro para o ano e três meses do seu segundo mandato. A ultima, na inauguração do campus local da Universidade Federal do Amazonas, em Coari o discurso presidencial é uma cantiga para embalar voto: “precisamos ter consciência de que aquele jovem que mora à beira do rio, que nasce às margens do rio tem tanto direito de cursar uma escola técnica, uma universidade quanto àquele que nasce em berço de ouro na principal rua de São Paulo ou de Manaus.”

Ora, são obviedades acacianas que Lula só descobriu no apagar da vela do seu mandato. Mas, que dão voto.

No outro lado, as oposições não conseguem identificar o candidato natural e vão queimando no fogareiro das ambições os seus melhores quadros para enfrentar a avalanche da candidatura da ministra Dilma.

A crise crônica, com febre intermitente na campanha de Geraldo Alckmin à prefeitura de São Paulo contamina a caça ao voto dos candidatos tucanos às prefeituras em todo o estado.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi convocado a dar uma ajuda na arrumação no PSDB paulista. Sem jeito, o governador José Serra, um dos três nomes tucanos para candidato à sucessão de Lula participou pela primeira de um ato publico de declarou seu apoio à candidatura de Geraldo Alckmin à prefeitura da capital.

Chuviscando no molhado do obvio, FHC advertiu: “Não temos que ter essa eleição com vistas para 2010, junto com nossos aliados.”

Com algum atraso.

 
 

O grande renovador da televisão
    setembro 10, 2008

O isolamento no fim de semana em Nova Friburgo justifica, mas não consola o atraso com que chego com a flor murcha da gratidão para a homenagem dorida da saudade ao amigo impecável, a quem devo tudo o que aprendi em técnica e esperteza em televisão: Fernando Barbosa Lima foi um exemplo de ética, criatividade e competência. Não conheço outra biografia que se compare à do criador do Jornal de Vanguarda, que revolucionou o noticiário na telinha, e de mais uma centena de programas, todos com sucesso e com a sua marca identificadora.

Não foi o único a ensinar o caminho ao iniciante na casa dos 23 anos e que tem lugar cativo na minha gratidão. Odylo Costa, filho patrocinou a minha promoção ao bloco da meia dúzia dos grandes jornais na década incomparável dos anos 60, quando o Rio se despedia do crachá de capital do Brasil com a inauguração de Brasília inacabada, um canteiro de obras no desterro do cerrado. Levou-me para o Diário de Notícia e mais tarde para o Jornal do Brasil. E para a sua curta passagem pela direção da Rádio Nacional, então a maior emissora do país.

Aqui e acolá, a troco de cachês que nem sempre eram pagos, participei de programas de debates políticos e de mesas de inflamadas discussões sobre futebol.

Mas, com o Jornal de Vanguarda foi diferente. O convite foi feito por Tarcísio Holanda, excelente repórter político, com lugar cativo no imortal Jornal de Vanguarda.

No livro Nossas câmeras são os seus olhos, lançado em 2007 pela Ediouro e em que tive o privilegio de assinar o breve e despretensioso prefacio, Fernando dá a receita do jornal revolucionário que assinala a mais profunda mudança no modelo de então da notícia lida pelos locutores.

Conta Fernando Barbosa Lima: “Com a inauguração da TV-Excelsior do Rio, em setembro de 1962, o Jornal de Vanguarda entrava no ar”. E adiante: “O Jornal de Vanguarda, quando assumi a direção do jornalismo da Rede Excelsior, trouxe uma revolução na linguagem e no espírito do telejornalismo “um verdadeiro “Show de Notícias” - como foi chamado em São Paulo”.

Lista alguns dos principais apresentadores, “cerca de oito ou nove pessoas dentro do estádio”. Em vez de buscar pessoas de rádio, sua base era formada por jornalistas que vinham da imprensa escrita. Um marco, como se vê. A lista é incompleta: desenhistas como Borjalo, Appe e Millor Fernandes, humoristas como Sergio Porto (Stanislaw Ponte Preta), comentaristas políticos como Tarcísio Hollanda e o comentarista internacional Newton Carlos, Gilda Muller fazia a parte feminina, e havia cronistas como Ricardo Amaral, Maneco Muller, Ibrahim Sued, José© Lewgoy e Reinaldo Jardim, além da equipe de grandes locutores, como Cid Moreira, Luiz Jatobá¡, Célio Moreira, Fernando Garcia, Jorge Sampaio e Moacir Lopes.

Mas, é impossível ressuscitar no texto batucado na cadência da saudade, o impacto da novidade que quebrava todos os padrões na explosão da ousadia. No palco, com fundo neutro para não desviar a atenção, meia dúzia de banquinhos de três ou quatro pés: truque para obrigar a postura correta, de busto empinado, sem o derreado relaxamento das poltronas.

O rodízio disparava, com os dois, três minutos de cada um. E a câmera acompanhava a velocidade alucinante da passagem dos comentaristas anunciados pelos locutores.

Não podia durar muito. O Jornal de Vanguarda foi assassinado pelo Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, no governo do general-presidente Arthur da Costa e Silva, que oficializou a ditadura e instituiu a censura à imprensa.

Fernando Barbosa Lima resume o fim: “toda a equipe se reuniu convicta de que um programa como o Jornal de Vanguarda não poderia ser submetido à censura total imposta pelo AI-5. Decidimos então tirar o jornal do ar. A última frase da última edição foi: um cavalo de raça mata-se com um tiro na cabeça”.

 
 

Os candidatos espantam os votos
    setembro 7, 2008

Nos meus quase 60 anos de exercício do oficio de repórter político, alternando o negrume do 21 anos da ditadura militar do rodízio dos cinco generais-presidente com censura à imprensa e a tortura à solta nos Doi-Codi dos especialistas do ramo, esta é a primeira vez em que, nos embaraços do constrangimento, necessito expor aos meus eventuais leitores a dúvida em que purgo o conselho de espichar o prazo da espera ou abrir o jogo e aliviar a alma.

Na cadência da mais objetiva segurança de quem navega nas águas do óbvio não erra nunca, sempre defendi o dever do eleitor não desperdiçar o seu voto com o protesto inútil do escapismo pela porta dos fundos do voto em branco. Mas brigar até o fim e catar no balaio de centenas de candidatos a salvar a pátria com as mais puras intenções o que mereça o seu voto, o que pode ser sua única oportunidade, a cada dois anos, de participar de decisões que orientam os caminhos do futuro.

Voltei à pregação com excessiva antecedência, advertido pelos percentuais de intenções de votos em branco das pesquisas confiáveis e coincidentes com irrelevantes diferenças.

Quando mais grave a ameaça de turbulências na rotina democrática, mais indispensável o recado do voto de milhões de eleitores, com a confiabilidade à prova de fraude das urnas eletrônicas.

E a seqüência da participação do eleitor, que representa a população, começa pela escolha de prefeitos e vereadores, que compõem a base dos poderes executivo e legislativo nos mais de cinco mil municípios da nossa presença continental neste mundo contraditório.

Confesso que - como milhões de viciados nos noticiários das redes de TV e de raras exceções, como nas Olimpíadas de Pequim ou de transmissões ao vivo de jogos de futebol que amenizam as saudades dos tempos de presença infalível na cadeira cativa comprada para a Copa de 50 e, em muitos anos na tribuna de imprensa, privilégio de cronista semanal na A Notícia em que comecei a contar o tempo para a aposentadoria - fugia como capeta do rosário dos xaroposos programas de propaganda eleitoral. Aqui e acolá, acompanhava o debate quando esperava novidades no bate-boca entre os favoritos.

Agora, na repetição intervalada de estações democráticas com os tsunames das ditaduras, a crise moral e ética que assola os três poderes conclama o eleitor a se manifestar, seja por um ou outro lado, pois há gosto para tudo.

Claro que o meu fraco trombone tentava despertar os distraídos para os riscos que se anunciam nas nuvens cinzentas que mancham o céu do chamado regime do povo e para o povo.

E, para não perder o trem, o eleitor deveria escolher com cuidado para não cair na conversa de vigaristas, selecionando candidatos com as credenciais do passado ou estreantes com posições nítidas para começar a reforma do prédio com tantas manchas de mau uso, como no obeso ministério de 38 ministros e secretários, muito que não fazem nada porque não tem nada para fazer.

Entrego os pontos, confesso as minhas duvidas e não insisto nos apelos aos eleitores que antecipam a decisão de comparecer às urnas eletrônicas de cinco de outubro para registrar o protesto do voto desperdiçado, que é o voto perdido.

Diante do quadro de bagunça e falência dos partidos, o voto em branco ganhou a seriedade do recado aos dirigentes e lideres, tanto do governo inflado pelas adesões negociadas por favores, cargos e demais mercancias, como da oposição que se perdeu no desanimo e na incompetência e não foi capaz de controlar a formação das chapas para as câmaras municipais e, salvo as exceções, dos candidatos a prefeito.

Não sei como andam as coisas nos outros estados. No nosso maltratado estado, francamente, o que a propaganda eleitoral mostra é um desfile de apavorar o eleitor e estimulá-lo a engrossar a campanha a favor do voto em branco.

Na falta de informações e análises sobre as campanhas nos mais de cinco mil municípios, a prudência aconselha a reduzir a lista de endereços do recado aos eleitores do nosso estado. Com a suspeita de que o quadro não deve ser muito diferente na folgada maioria dos municípios nacionais, com as exceções que carimbam o otimismo.

Afinal, as tradicionais rixas municipais estão salvando as oposições do massacre com a crescente popularidade do presidente Lula e a consolidação da sua escolha da ministra Dilma Rousseff para candidata do bloco oficial nas eleições para a escolha do seu sucessor em 2010

Pelo que se enxerga por entre as nuvens da dúvida, outra campanha insossa, sem emoção nem surpresa.

 
 

A crise contaminou a oposição
    setembro 3, 2008

A foto que ganhou o merecido destaque na primeira página da edição, de ontem, do JB, com a ministra Dilma Rousseff envergando o macacão oficial da equipe do oba-oba na primeira extração simbólica de petróleo no campo de Jubarte (ES) e o presidente Lula carimbando as suas costas com as mãos enluvadas é o perfeito flagrante que registra para a posteridade a oficialização da sua candidatura à Presidência da República, nas eleições de 2010.

Não há propriamente novidade no desembaraço com que o presidente, com a popularidade em disparada nas pesquisas e os prováveis saltos nas próximas consultas ao distinto público.

Nunca na história dos dois mandatos de Lula foi tão confortável a sua posição no panorama político pela evidência do contraste entre a sua euforia exibida nas redes de TV, nas fotos na mídia, nas suas aparições públicas e na linguagem solta de quem diz o quer, sem dar a mínima importância aos intencionais desequilíbrios no piso escorregadiço da verdade e o encolhimento da oposição perdida nas suas quizílias internas e na fragilidade dos seus candidatos a prefeito nas principais capitais e cidades do país.

Sem gaguejar ou perder o embalo, o presidente abusa nos exageros da sua eloqüência. E pelo que se viu, lubrificado pelo petróleo do pré-sal no campo de Jubarte, a apenas 77 quilômetros da costa do Espírito Santo, anuncia e dá como favas contadas a extração das reservas de tamanho ainda desconhecido, a mais de 4 mil metros de profundidade na bacia de Santos, um desafio à extraordinária equipe técnica da Petrobrás, sem rival no mundo.

A campanha, o desafogo depois das horas de horror com a denúncia de grampeamento pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) da conversa do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) que esvaziou com as dúvidas quanto à autoria da trampa, liberou o presidente, que se soltou no mergulho na campanha eleitoral com a cega certeza da vitória e desprezando o risco de uma nova reviravolta.

No giro de comícios pelo ABC paulista, o presidente colou a sua versão na história do escândalo do mensalão, transferindo o PT da cadeira de réu para a poltrona de vítima. Eis um assunto que o presidente deveria evitar. Pois o mensalão é uma jóia petista, que rendeu milhões transferidos do exterior para o financiamento da campanha de candidatos dos Partido dos Trabalhadores e seus aliados, denunciado pelo então deputado Roberto Jefferson, presidente do PT e aliado de Lula, em entrevista ao JB, apurado em rumorosa CPI que confirmou as denúncias e os culpados, quase todos inocentados pela maioria esmagadora da Câmara dos Deputados. Pois, esta mancha negra e indelével na bandeira petista mereceu do presidente a versão rósea da troca de lado: “Em 2005 veio à guerra contra o PT. Vocês sabem o que nós passamos. Sabem as infâmias, as leviandades, até acusaram o PT de ter matado o Celso Daniel. Vocês sabem quantos companheiros nossos foram sacrificados”.

Um presidente capaz de tais proezas não se intimida com o desafio de enfrentar a etapa decisiva da perfuração dos poços no pré-sal da Bacia de Santos, com poços a 6 mil e 7 mil metros de profundidade.

Nem com o investimento previsto da bagatela de R$ 2 trilhões até 2017, portanto no último mês do segundo mandato da candidata Dilma Rousseff.

E se a presidente Dilma não quiser disputar a reeleição, o presidente Lula, revigorado com quatro meses de boa vida com aos amigos de São Bernardo do Campo, fará o sacrifício de disputar o terceiro mandato.

 
 

O fantasma da crise institucional
    setembro 2, 2008

Veio mesmo a calhar, como se fosse encomenda com data marcada para a entrega, a festança cívica que acaricia os nossos maltratados brios patrióticos, da abertura pelo presidente Lula da produção do pré-sal na área do campo do Jubarte, em Vitória, com a promessa de miraculosa reserva de petróleo nas profundezas do oceano.

As dúvidas dos técnicos forradas de cautelas quanto às dificuldades a serem vencidas em prazo calculado em anos, não empanam o feito da Petrobrás nem tisnam a euforia presidencial.

Mas, na retaguarda, fermenta a crise inédita da denúncia confirmada do grampeamento clandestino do telefone do gabinete do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, com a publicação da sua conversa com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

A esperada reação do presidente do STF, com o apoio unânime dos ministros envolveu os três poderes, em graus diferentes de suspeição, com todos os riscos de evoluir para uma crise institucional. Ao Congresso chegou com a imediata reação do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN) e o apoio do plenário. E transbordou para a Câmara dos Deputados.

Sob pressão e com o senso político da sua esperteza, o presidente Lula cedeu às indignadas exigências do STF e do Congresso, com a demissão da cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) acusada de responsável pelos grampos, demitindo toda a sua diretoria, a começar pelo diretor-geral, Paulo Lacerda.

Muita água suja vai correr pelos vazamentos das suspeições que já se ampliam no jogo de desmentidos e na troca de farpas entre os suspeitos.

Mas, no fundo da cisterna, ainda intocada, pousa a crise institucional que lavra nos três poderes, em níveis variados de culpas.

O Supremo foi surpreendido quando desfrutava o merecido reconhecimento pela ousada decisão de derrubar a farra do nepotismo que, desde sempre, campeia à larga em todo o mastodôntico monstrengo burocrático, a começar pela intumescência do patusco ministério de 37 titulares com tão pífios resultados setoriais.

E como o desequilíbrio do tropeço quase sempre provoca novo escorregão, a toga não resistiu à tentação de entrar no forró da criação de milhares de cargos, muito de livre nomeação, sem o democrático concurso público.

O Legislativo está sendo exposto ao ridículo do horário de propaganda eleitoral para a eleição de prefeitos e vereadores. Dos programas que tenho assistido por penoso dever profissional, o desfile dos pretendentes ao sacrifício da administração dos municípios, com as devidas ressalvas, não chega a espantar o voto e envergonhar o eleitor. Mas, o que os partidos oferecem à escolha do eleitorado para as câmaras municipais, francamente, parece deboche. Há exceções, poucas que não chegam para compor o plenário do Legislativo de um município médio. Ora, a base dos partidos finca a sua estaca nos municípios, como é de veneranda evidência.

O Governo é o que estamos enxergando a olho nu no emaranhado da sua bagunça com altos índices da popularidade de Lula. Êxitos setoriais importantes são por ele valorizados - seu melhor e mais aplicado divulgador. Com os delirantes exageros que atropelam a forçada euforia da badalação de cada dia.

A gravidade da escuta clandestina dos telefones dos presidentes do Supremo e do Senado, de senadores e, provavelmente de deputados, dependendo da sua evolução pode incendiar a crise institucional que chamusca a autoridade do presidente da República.

Alguém precisa atirar a primeira pedra.

 
 

Reforma sob medida
    setembro 1, 2008

A suspeição é inevitável: quando o governo preguiçoso deixa para os dois últimos anos e quebrados do segundo mandato - com a candidatura da ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff assumida em declarações explicitas do presidente Lula - para encaminhar ao Congresso o primeiro pacote de proposta de reforma política é de uma evidência cristalina que está ajeitando as coisas para facilitar a eleição da sucessora favorita.

O projeto reformista que o governo chocou durante quase seis anos de profundas meditações e entre dúvidas de tirar o sono é radical e novidadeiro. E, ao mesmo tempo, uma tentativa de buscar o consenso em torno de obviedades.

Levada ao presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) pelos ministros Tarso Genro, da Justiça e José Múcio Monteiro, das Relações Institucionais sofreu o primeiro contratempo com a advertência do escaldado político paulista de que a aprovação das propostas neste final de ano, com a campanha eleitoral para a eleição de prefeitos e vereadores esvaziando o Congresso é praticamente impossível. E, se o governo quer mesmo corrigir alguns dos muitos defeitos de uma legislação deformada por remendos do oportunismo terá que se dedicar em tempo integral à articulação da sua dispersa maioria e consertar as muitas rupturas deixadas pela luta eleitoral.

Para o presidente da Casa, as prioridades consensuais que dificultam a tramitação da reforma proposta pelo governo são a reforma tributária, a mudança radical na tramitação das medidas provisórias que trancam pauta para a votação nos três dias úteis da semana parlamentar e o fundo soberano.

Mas, reconheça-se que o governo chegou pisando macio. Na verdade não está propondo um pacote fechado de reforma política, mas um embrulho com os presentes em saquinhos. E como não há segredo a preservar, os emissários deram o serviço completo. A proposta inclui, em projetos separados, um para cada tema, o voto em lista fechada que seduz as lideranças e parlamentares de prestígio, com vaga cativa na cabeça da relação de candidatos, garantia da reeleição para mais quatro anos de fruição de um dos melhores empregos do mundo.

Só esta proposta tem potencial explosivo para rachar a maioria parlamentar. A lista fechada é uma burla legalizada do voto. E que só é admissível em países com sólida tradição partidária, nos quais o eleitor não se sente constrangido nem enganado quando vota na legenda e não no candidato. Os quocientes eleitorais que a legenda atingir elegerão os candidatos de acordo com a relação decrescente da lista partidária.

A ampla maioria do baixo clero, que só deve crescer, não cairá na ratoeira armada pela elite que mingua a cada eleição.

No mais, não há novidade. É o menu de sempre: financiamento público de campanha para evitar novo escândalo do caixa dois, com o distinto público pagando a despesa; a quimera da fidelidade partidária quando se conta pelos dedos de uma das mãos os partidos que podem ser levados a sério, mais o molho da fidelidade partidária e a oportuna proposta da inelegibilidade de candidatos com a ficha suja que tenham sido condenados em decisão colegiada e não em última instância.

O governo da gastança atirou o cascalho de projetos de reforma política de morro abaixo para recolher, entre os que passarem no teste da viabilidade, os que se encaixem no painel da ministra-candidata.

Ou de quem a substitua se ela não tiver fôlego para completar a maratona.