A reação ainda que tardia
    agosto 26, 2008

Conheço o senador Garibaldi Alves, presidente do Senado, desde menino, do tempo em que seu tio, o então governador do Rio Grande do Norte, Aluísio Alves, revolucionava os caducos modelos tradicionais de campanha eleitoral, com a criatividade, a garra e talento que pavimentou a caminhada do mais moço deputado federal pela UDN na Constituinte de 46 na ascensão fulminante ao plano federal.

Correligionário do cacique da UDN, senador e governador Dinarte Mariz e seu adversário nas cambalhotas da contradição da política estadual, para a reconciliação ao seu chamado, à véspera da morte, com a nobre justificativa de que não desejava deixar para os filhos a herança dos ódios provincianos, Aluisio Alves também morreu no ostracismo, para a surpreendente consagração popular que há dois anos foi para a rua e acompanhou o cortejo até o cemitério, com as bandeiras verdes catadas do fundo dos baús.

O caminhão do povo da campanha de Carlos Lacerda e Afonso Arinos, que foi a grande novidade que percorreu todos os roteiros da então capital, com a população nas ruas ou nas janelas, parando para os comícios relâmpagos nas praças foi importado do Rio Grande do Norte.

No jovem tímido e discreto do sobrinho de Aluísio - filho do seu irmão Garibaldi que foi deputado estadual - não se antevia a carreira política metódica, degrau por degrau, de deputado estadual, passando pela Prefeitura de Natal, com o brinde da reeleição e o governo do Estado, em administração marcada pelas obras de irrigação das áreas maltratadas pela seca.

O senador pagou a sua cota da estréia federal no Senado. E, na mesma toada sem a aflição da urgência, esperou a hora e a vez da eleição para presidência da Casa num dos períodos de mais baixa estima do Legislativo, esburacado pelos escândalos em cascata das mordomias, das vantagens e mutretas, como a indecorosa verba indenizatória de R$ 15 mil mensais para o ressarcimento das despesas de deputados e senadores nos fins de semanas nas bases eleitorais ou do despudor da verba de R$ 61 mil por mês para contratar assessores para os gabinetes individuais de suas excelências.

O castigo tardou, mas chega em doses duplas. O Congresso que não legisla, imprensado entre a madraçaria da semana de três dias úteis e com a pauta entupida pelas medidas provisórias encaminhadas pelo governo de goela insaciável, está sendo exemplado como menino desobediente, com a ousadia do Supremo Tribunal Federal (STF) que invade a sua área para marcar o gol de placa ao proibir a praga do nepotismo que empesta os três poderes.

Com a cara no chão, a Câmara e o Senado tratam de sair do castigo prometendo não reincidir num dos nossos mais antigos vícios, com raízes na carta de Pero Vaz Caminha.

Na Câmara, o embaraçado presidente, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) sai da reta, transferindo para os deputados o dever de casa de despedir a parentela encarrapitada nos galhos das nomeações sem passar pelos concursos. E, no Senado, o presidente Garibaldi Alves, por enquanto, os senadores serão advertidos para o cumprimento da súmula do STF.

Nos porões do baixo clero, com o constrangido apoio da maioria, germinou a luminosa saída por baixo do pano do circo, da criação de cotas para a contratação de parentes.

Antes de ser coberto pelo entulho, o presidente do Senado reagiu com o giro da metralhadora: qualificou de ridícula a maroteira das cotas para a contratação de parentes; reconheceu que o Legislativo vive “uma situação tensa” e com a sua omissão, o Judiciário “está realmente legislando” e comparou as Medidas Provisórias aos decretos-leis criados pelos militares durante a ditadura dos generais-presidente.

O espírito de Aluísio Alves encarnou no sobrinho presidente de Senado.

Tomara que seja um obesessor que gruda no cangote e não larga o obsedante.

 
 

O gol de placa da toga
    agosto 23, 2008

Um velho conselho do tempo em que se levava a sério a experiência dos mais velhos, recomendava evitar brigas com quem veste saia: mulher, padre e juiz.

O Congresso, um dos piores de todos os tempos, parece que não acreditou na sabedoria dos cabelos brancos e andou cutucando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com as caducas picuinhas da invasão da toga na área da exclusiva competência do Legislativo.

Pois, o troco custou, mas, valeu a pena esperar. Em decisão histórica, que equivale a uma varredura na praga do nepotismo que contamina os três poderes, o STF aprovou por unanimidade, a redação definitiva da súmula vinculante, a do número 13 – que é o do azar e o da sorte – que estende a proibição da prática desavergonhada da nomeação de parentes, sem o aborrecimento do concurso público, em todos os poderes da União e não apenas no Judiciário.

Na longa caminhada do despudor, desde a derrubada do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 45 até os nossos dias, com interrupção dos quase 21 anos da ditadura militar do rodízio dos cinco generais-presidente, a nomeação da parentela até os primos consangüíneos de casamento atravessou as pausas da austeridade. E caiu no deboche da interinidade de presidente do STF, ministro José Linhares que durou pouco - de 29 de outubro de 45 a 31 de janeiro de 1946, com a posse do presidente Eurico Gaspar Dutra – da gaiata convocação por edital dos parentes para a distribuição das últimas vagas, sob pena da nomeação à revelia.

Não se pode descuidar da vigilância da imprensa e do Congresso. Mas, se o Legislativo em todos os níveis entra na libertinagem, com o passo na cadência do governo e com o Judiciário fechando o desfile, sobra a imprensa para as denúncias que geram as CPIs que nunca chegam ao fim da linha.

Ainda agora, a irretocável resposta do STF atende às denuncias de jornais, revistas e redes de TV, como a recente reportagem do JB sobre a prática do tráfico de influência no Tribunal de Justiça do nosso maltratado Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ).

O STF cimentou a sua unanimidade ao acolher, no mérito, a ação declaratória de constitucionalidade proposta pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) para obrigar o cumprimento por tribunais regionais recalcitrantes e que nadavam nas águas da distribuição de cargos públicos para os parentes, desobedecendo a resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que proíbe a nomeação de parentes até o terceiro grau, cônjuges, companheiros e familiares e por afinidade para cargos em confiança e de comissão em todos os tribunais federais ou estaduais.

O nepotismo tem sete fôlegos e não desiste da briga pelas mordomias e mutretas que encontram no Congresso o canteiro perfeito para proliferar. Um bom exemplo de defesa dos seus privilégios foi pinçado de uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, que considerou que não era aplicável ao Executivo e ao Legislativo do município de Água Nova - que assim estréia na história - a proibição de nomear parentes até o terceiro grau na rifa dos cargos públicos.

Com a pisadela no calo de estimação, o STF aproveitou a deixa do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte para estabelecer a sua competência para, na falta de lei específica, aplicar a interpretação do Art. 37 da Constituição, que é de clareza meridiana ao definir que “a administração pública, direta ou indireta de quaisquer dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios obedecerá aos princípios da legalidade, da impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.

Da lei à realidade, o pântano das trampas dos espertos, que sempre encontram o atalho para atravessar o atoleiro.

Se desta vez, a ofensiva moralizadora do Supremo for mesmo para valer vamos assistir ao espetáculo inédito de um regime drástico de emagrecimento da burocracia, com buracos em ministérios, autarquias e seus derivados, abrindo vagas para a urgente realização de concursos para a nomeação dos substitutos.

Confesso meu ceticismo na rendição do Congresso, com a boca torta por tantos anos e décadas de viciado no uso e abuso do nepotismo. E que gera filhotes espúrios de cabos eleitorais, os amigos de fé e os que são úteis na caça ao voto que garante a reeleição para o emprego milionário da semana útil de três dias.

Quem viver, verá. Com os acolchoados para a amortecer a queda na buraqueira da decepção.

 
 

Lições olí­mpicas
    agosto 20, 2008

Para um veterano apaixonado pelo futebol, com cadeira cativa no Maracanã desde a Copa de 50 e obscura experiência de cronista nas páginas de A Notícia é impossível resistir à tentação de dar o meu palpite sobre o infortúnio da seleção de Dunga e dos cartolas de sempre.

Não é das recomendações éticas jogar pedras no vencido, ainda candidato a disputar a medalha de bronze. Mas, o fracasso que se acrescenta à coleção respeitável, desta vez aciona o alarme para a decadência do futebol brasileiro, que não se disfarça na mediocridade dos campeonatos domésticos. Aqui e acolá com as exceções e o milagre de times razoáveis, com o adorno de promessas de craques, logo vendidos por milhões de euros para o milionário mercado da Europa, com apetite insaciável para encher os estádios para a sucessão de torneios e taças que rendem fortunas com os ingressos e a venda do direito de transmissão para o mundo.

Se Pequim vai nos ensinar alguma coisa, o primeiro passo terá que ser dado pela cartolagem, depois de uma peneirada para expelir os suspeitos de cumplicidade na venda de meninos e rapazes que, antes dos primeiros fios de barba são rateados para os mercados europeus ou os emergentes asiáticos em alucinante ascensão.

Ora, sem campeonatos estaduais e nacionais que balancem o coração da torcida não se articulam os elos da corrente que fecha nas seleções pentacampeões do mundo, agora humilhada pelos 3 a zero da derrota para a Argentina, jogando um futebol de desqualificante categoria.

A alma do torcedor é sempre a do clube da sua paixão. Mas, a camisa precisa compor o uniforme do craque ou dos craques do torcedor que entra na fila para comprar o chorado ingresso para a geral ou o luxo da arquibancada. Para ficar em alguns exemplos óbvios: a camisa botafoguense de Nilton Santos, de Garrincha, de Didi, ou, no recuo do relógio da saudade, de Heleno de Freitas, de Carvalho Leite, de Martim, de Perácio, de Nariz como as vascaínas de Ademir, Barbosa, Lelé, Zizinho, Jair ou mais recente de Pelé, Zito, Gilmar do Santos são os elos da engrenagem que aquece o coração do torcedor.

A Seleção do Dunga é uma vitrine de camisas de todas as bibocas do mundo. E a popularidade de Ronaldinho Gaúcho uma sombra da sua fase de ouro do craque duas vezes eleito como o melhor do mundo. A esta hora os dirigentes do Milan devem estar roendo as unhas com a desconfiança de fizeram um péssimo negócio ao abrir o cofre para comprar o passe do craque sem clube no mercado da Espanha.

Se for este o panorama do nosso esporte mais popular, o futebol feminino na outra face da medalha é a denúncia da nossa incompetência. Marta e Cristiane são as maiores jogadoras do mundo e não podem jogar no Brasil porque o futebol feminino literalmente não existe além de peladas ou do amadorismo de recreação.

È de irritar a paciência de um santo de altar. Mas, o contrate entre o esforço no corre-corre de última hora de Carlos Nuzman, presidente do Comitê Olímpico, para levar a Pequim uma delegação de mais de duas centenas de atletas e a modéstia dos resultados, com as exceções que ainda não podem ser contadas comprova a lição nunca aprendida de que a improvisação tampa buracos, mas não ergue catedrais.

Em declaração de luminosa objetividade, Oscar Smith, o maior craque brasileiro de todos os tempos e considerado um fenômeno nos Estados Unidos, onde jogou várias temporadas, exortou o governo do decepcionado presidente Lula a começar a pensar nas Olimpíadas de 2012, em Londres, com a massificação do esporte nas escolas, clubes, centros de esporte por todo o Brasil.

E depressa, que o tempo é curto. A China com a população de 1 bilhão e 300 mil habitantes levou oito anos para montar o show de Pequim.

 
 

A campanha começou mal
    agosto 19, 2008

O que já se sabia de véspera foi apenas confirmado na estréia do milionário programa de propaganda eleitoral, com a gratuidade à nossa custa mais uma vez reprovada no teste da sua inutilidade.

Para começo de conversa, com a experiência de várias campanhas a caduca legislação eleitoral já deveria ter sido reformada para os ajustes difíceis, mas não impossíveis, à sua serventia. Não há como levar a sério a bagunça de fim de feira de um flagrante, com provável baixíssimo nível de audiência que as pesquisas devem quantificar, mas que os números conhecidos antecipam: são 1.244 os candidatos que se apresentam para pedir o nosso voto para o sacrifício de servir o povo no m nobre exercício da vereança na Câmara Municipal.

Com tal inflação de borbulhante fervor cívico, depois de passar pelo triturador a distribuição das migalhas chega ao ridículo de quatro segundos para a apresentação do programa de alguns candidatos e que certamente arrastaria multidões se pudesse ser exposto com o mesmo enfeite gongórico dos discursos nas tribunas da antiga gaiola de ouro.

O candidato estreante Adelson Alípio, do PCdoB, que ainda não tive o prazer conhecer, em confessada ignorância que se estende ao programa do partido, queixa-se que está se submetendo a um treinamento diário para conseguir anunciar ainda não conhecido eleitorado o seu nome, número e a síntese tão espremida como bagaço de laranja: pela saúde e educação. Um recado que, pelo ineditismo, certamente levará multidões ao delírio e a marcha batida para as urnas.

Se o programa de ontem foi de encher as medidas além de outros espaços da nossa paciência, certamente que, por todo Brasil, a mesma ansiedade aguarda a entrada em cena, na meia hora matinal e na fatia mais cobiçada no horário nobre, das 20h30m às 21h em rede de emissoras de TV, hoje e às segundas, quartas e sextas-feiras durante 45 dias, um mês e meio. Nas emissoras de rádio, o horário eleitoral invade o ar das 7h às 7h30m e do meio-dia às 12h30m. Como se vê, o que não vai faltar é emoção em pacotes distribuídos ao longo do dia. Ufa!

Dos 14 candidatos a recuperar a ex-cidade maravilhosa, quatro terão menos de um minuto para a abordagem crítica e as propostas de soluções da crise dos setores de segurança, saúde, educação, a favelização e o tráfico de drogas, limpeza, lixo e outras encrencas.

O tom jocoso de um assunto da mais preocupante seriedade é intencional, mas não leviano. Mas, que adjetivos, mesmo baixando ao calão, podem exprimir a vergonha, o asco e a indignação do eleitor diante de denúncias com a da manchete de primeira página do JB de ontem, que expõe as vísceras da Câmara Municipal do Rio: a maioria dos 48 vereadores que sobem ao palco para pedir o voto da reeleição dobrou o seu patrimônio nos quatros anos do mandato.

A honrada vereadora Liliam Sà (PR) é a campeã olímpica de enriquecimento, com a disparada do seu patrimônio, descontada a inflação, chegando à altura de 809%.

Já não pedimos tanto, mas a nobre vereadora poderia ensinar aos beneficiados pelos magos da equipe do presidente Lula, que arrombaram as cancelas da pobreza para a ascensão ao patamar da classe média como aplicar as sobras do milagre da multiplicação do real com o mesmo êxito das mordomias de um parlamentar a serviço do povo.

Dona Liliam não é a única habilitada a ensinar ao povão a ficar rico jogando na bolsa.

E se a campanha para a eleição de prefeitos e vereadores colocou na berlinda os galgam os primeiros degraus de uma escada que leva ao infinito, dentro de mais dois anos, em 2010, com a eleição para presidente, governadores, senadores e deputados federais vamos ter o espetáculo de gala e que promete levar o respeitável público à fossa propriamente dita.

 
 

A Câmara finge que trabalha
    agosto 14, 2008

A Câmara dos Deputados, pela imaginosa esperteza do seu presidente, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) e sob a pressão das críticas e cobranças pela crise ética tenebrosa que corrói o que resta do seu conceito resolveu sair pela tangente com o drible tático de fingir que trabalha.

O truque mereceu o tratamento maroto de começar pela caiação da aparência de seriedade: o presidente Chinaglia comunicou à Casa que desistiu de fechar o cronograma de votações para a última semana deste mês de agosto de campanha eleitoral. E para não deixar pela metade, adiou a definição do período de recesso branco, da tradicional gazeta sob a pressão da luta de vida e morte do mandato, na base de apoio que garante mais quatro anos de fruição de um dos melhores empregos do mundo, com ganhos diretos e dissimulados, acima dos R$ 100 mil mensais.

Ainda era pouco. Decidir apenas a festança das faltas abonadas não seria bem recebido pelos donos do seu voto e a influência sobre os da família e agregados.

Para tapar o buraco, os líderes partidários decidiram pelo mágico consenso aprovar a escolha dos 20 itens da pauta das frivolidades e que não oferecem dificuldades de aprovação, pois não fedem nem cheiram. Até que um pouco de atenção e uma boa vontade, pode-se reconhecer na relação das duas dezenas de matérias sorteadas, algumas que justificam o esforço da presença em Brasília para o sagrado exercício do voto. Para dar alguns exemplos: a complementação da enguiçada Lei Kandir, a mudança na cobrança do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), a lei geral do turismo e a polêmica proposta de emenda constitucional que muda o rito de tramitação de medidas provisórias para evitar o trancamento da pauta pela fúria das PECs encaminhadas pelo governo.

O melhor ficou fora da lista e foi anunciada pelo presidente Arlindo Chinaglia, que tomou a iniciativa de alertar o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro (como tem ministros este governo!) que não há como votar a patusca Medida Provisória que promove a Ministério a até aqui desconhecida Secretária da Pesca - da qual não se tem notícia que tenha pescado um bagre.

E além da mudança de nome, através de Medida Provisória ainda tentou criar mais de duas centenas de cargos de livre nomeação, portanto sem passar pela exigência constitucional do democrático concurso público.

Não há mais pressa. O governo dispõe do tempo que quiser para transformar o monstrengo em projeto de emenda constitucional.

Se tiver mesmo juízo, desistindo do disparate da metamorfose da Secretária da Pesca em Ministério, agravando o entupimento ministerial de Brasília.

E bem podia arranjar alguma coisa útil para ocupar o buraco do tempo ocioso.

 
 

As fantásticas proezas do professor Malta
    agosto 13, 2008

Dos meus venerandos tempos de aluno do curso secundário do falecido Instituto La-Fayette –lá se vão mais de seis décadas – a memória guarda no acolchoado da saudade, entre muitas lembranças a figura singular do professor de inglês, o incomparável professor Malta, absolutamente único.

Era então um senhor dos seus sessenta janeiros, silhueta cuidada e enxuta de magro que controla o apetite, rosto com o vermelho das bochechas destacado pela brancura da pele. Sempre impecável nos ternos de linho, chapéu de palha, cabeleira branca domada, o andar rápido e a fantástica facilidade em inventar histórias que contava com a seriedade da sua estampa. Da sala dos professores, com as portas cerradas, tentávamos ouvir as suas mirabolantes aventuras nos quatro cantos do mundo dignas de um discípulo do celebre barão das potocas. Porque o professor Malta, além de excelente conversador, de prosa animado, era um mitômano de língua solta e imaginação delirante.

Para uma turma de rapazes na faixa dos 15 anos, contava casos como do exemplo que parece que estou vendo e ouvindo, com o fundo sonoro das gargalhadas.

Encarrapitado no alto de um camelo, o professor Malta acompanhava uma caravana na travessia do Saara. Viagem sem aventura e risco não tinha graça. Portanto, logo vento do deserto dispersou a caravana com as nuvens de poeira que tapava a visão. Serenado o simum, o professor Malta constatou que teria a mais problemática das companhias na tentativa de encontrar o rumo para escapar da morte por inanição e sede nas areias sem fim: além dele, deparou com outro camelo, com a carga de uma jovem mãe com o filho de meses no colo.

Cavalheiro sem medo e sem mácula, o professor Malta assumiu o comando da operação de salvamento. Os cantis cheios garantiam a dose controlada de água por alguns dias. Escassa era a comida, ração para um, dois dias. Quando a fome roncou nos estômagos vazios, o professor Malta encontrou a mágica fórmula salvadora no improvisado moto-contínuo da sobrevivência: com o canivete abriu a veia do antebraço e dirigiu o esguicho de sangue para a boca da mãe garantindo o leito para a amamentação dele e do bebê.

E assim, com o sangue do professor alimentando a mãe que amamentava o filho e o salvador, em uma semana, seguindo a bússola chegaram ao oásis abençoado.

O professor Malta, encostado na mesa da sala de aula ou andando à frente da urna é toda uma época dourada que passa na tela da memória. E, como uma coisa puxa a outra ou por associação embirutada, dei comigo pensando no presidente Lula, nas promessas do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC enrascado em obras paralisadas, outras que nem começaram; nas afirmações categóricas que a saúde do povão está recebendo cuidados jamais vistos na impecável rede de hospitais públicos e postos de saúde; que o povo está com dinheiro sobrando e ascendo em massa para a classe média e que o governo respeita religiosamente a independência dos poderes e não mete o bedelho no Congresso e muito menos na toga.

Agora, até o fim do mandato ajudará o Rio a voltar a ser a Cidade Maravilhosa para sediar as Olimpíadas de 2016, que botarão a de Pequim no chinelo.

Que saudades dos casos do professor Malta!

 
 

A cambalhota dos recordes
    agosto 12, 2008

Está ficando cada vez mais difícil para o presidente Lula – e para o cordão que o segue e que cada vez aumenta mais – manter o clima de delirante euforia com a seqüência sem fim dos recordes que consagram o êxito do maior governo de todos os tempos.

Se a ventania não mudou de rumo, passou a jogar rosas e ciscos no terreiro do Palácio do Planalto. O presidente não deve estar sentindo a ardência nas orelhas porque pouco tem ficado em Brasília. Repetindo tática manjada, quando as coisas se complicam ou o impertinente teima em cobrar promessas e apoio, Lula enche a agenda com viagens internacionais da sua paixão de pretendente ao seu reconhecimento como um dos líderes do mundo que, segundo a sua frase lapidar “agora me conhece e eu conheço o mundo”.

Na mais recente e espalhatosa performance, desembarcou no aeroporto de Pequim com numerosa comitiva e o plano na cachola de aproveitar a vez e a hora para consolidar a sua oferta já anunciada de abrigar no Rio os Jogos Olímpicos de 2016, depois do próximo, de 2012, em Londres.

Desenvolto em tais piruetas, o presidente não se poupou nem mediu esforços para vender o seu peixe graúdo. Desta vez com mofinos resultados.

Com um dedal de objetividade e bom senso teria recuado e guardado a viola na mala, diante do espetáculo jamais igualado da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim. E que custou uma soma fantástica e oito anos de montagem, peça por peça, com o recrutamento de milhares que compuseram o elenco, treinado ao perfeccionismo da sincronização de batidas nos tambores.

Lula foi à luta. Cabalou, percorreu gabinetes, conversou os graúdos, vestiu todas as camisas que lhe foram presenteadas e enfiou na cabeça bonés de todas as cores e feitios.

E mal se viu diante do microfone para gravar o seu programa semanal passou um sermão nos descrentes no prestígio do país que ele governa: “chega de achar que somos coitadinhos”.

Antes de continuar a sua cabala, o presidente deveria aproveitar a primeira vinda ao Rio para, incógnito, em automóvel com vidros escuros e a segurança à paisana, dar uma longa volta à noite, depois das 20 horas, no Centro da ex-cidade de encantos mil. Ao longo de toda a Avenida Rio Branco, passando pela Praça Paris, a Lapa em suas noites de samba e multidão. A Praça 15 de Novembro até a Praça Mauá. Sem esquecer das ruas que fizeram a fama e a magia da cidade destruída em poucas décadas, desde a catástrofe da criação do Estado do Rio de Janeiro. Das ruas do Ouvidor, Gonçalves Dias, Sete de Setembro, Carioca. A Praça Tiradentes e sua má fama. E as favelas de relancina.

Depois, lá com os seus botões, reflita se é possível recuperar em oito anos uma cidade abandonada durante vários governos e que chegou ao estado de decadência que amargura os que conheceram o Rio de Janeiro das velhas saudades. Quando Copacabana era a Princesinha do Mar, Ipanema curtia a Bossa Nova e o Leblon jactava-se do metro quadrado mais caro do Brasil.

É intrigante a fixação em 2016, quando termina o primeiro mandato do sucessor de Lula. E que certamente será candidato à reeleição, como todos os governadores e prefeitos.

Ou a ministra-candidata Dilma Rousseff também é parceira nesta roda de pôquer entre amigos?

 
 

Quicando no fundo do poço
    agosto 11, 2008

A que ponto chegamos: com a absoluta indiferença da população na quase totalidade das capitais e das cidades grandes e médias pela insossa campanha para a eleição de prefeitos e vereadores, líderes e candidatos estão apostando as últimas fichas no programa eleitoral gratuito para sacudir a vexaminosa apatia do eleitor.

Ora, no cardápio dos truques e trampas para pescar o voto esquivo do eleitor cada vez mais desligado, o tal de horário obrigatório nas redes de TV e emissoras de rádio, sempre foi considerado um desafio insolúvel para a maioria dos candidatos com meia dúzia de minutos ou o deboche de segundos para dar o seu recado no tatibitate do nervosismo ou porque não tem mesmo nada para dizer.

Para os candidatos a prefeito o quadro é menos constrangedor. Não só o tempo incha, mas não vai além de minutos, como é bem mais simples catar temas na obesa oferta de problemas e angústias da maioria de cidades maltratadas pelas pragas das últimas décadas, com o inchaço da desordenada migração do interior largado às traças, que sem espaço na área urbanizada, subiu os morros para a improvisação de favelas, que crescem e se multiplicam como insetos.

Engasgos parecidos castigam candidatos do governo e da oposição. Com a esperta omissão do presidente Lula, que já mandou todos os avisos que só subirá em palanques em que o PT e seus aliados apoiarem um único candidato, a penca de voluntários para o sacrifício de administrar um município ou de exercer o mandato de vereador, hoje transformado em emprego, e dos melhores, mas que precisa ser confirmado a cada quatro anos, está penando os seus pecados no purgatório.

Como as encrencas chegam em bando, o incorrigível pior Congresso em muitos anos, empenha-se em superar os seus recordes com sinal trocado. Na Câmara, os cabelos brancos do presidente, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) não confirmam a sabedoria da experiência. Com as duas casas do Legislativo irmanadas na crise ética e moral que corrói os três poderes, o presidente Arlindo Chinaglia insiste em realizar sessões para desafogar a pauta afogada na prioridade das medidas provisórias encaminhadas pelo governo, com apelos aos parlamentares para que reservem esta semana para a aprovação do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que muda as regras para restringir as prerrogativas do Executivo. Uma providência óbvia, mas que não resiste à pergunta: por que o Congresso não aprovou há mais tempo, na rotina das suas estafantes semanas de dois a três dias úteis e o fim de semana, com passagens pagas e um balaio de mordomias nas suas bases eleitorais?

A PEC da alforria, que acaba com o trancamento da pauta, foi aprovada em abril pela Comissão Especial e empacou, não deu mais um passo.

Nem tudo está perdido. Na ex-cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, degradada pelo abandono de sucessivos governos, invadida em todos os bairros pelas favelas que sobem os morros ou ocupam áreas de mangues, o grande debate neste início de campanha e a definição dos limites de tolerância pelo comando assumido pelos chefes do tráfico nas suas áreas, para garantir a eleição dos candidatos por eles escolhidos e impostos à comunidade.

Com os protestos dos excluídos, a reação da polícia, por enquanto, coleciona fracassos e sucessos de curta duração.

Os novos líderes das favelas devem engordar as suas bancadas nas câmaras municipais. E não será surpresa se, apuradas as urnas de 5 de outubro, comemorem a eleição de maioria de vereadores nas câmaras de vários municípios e de algumas capitais.

Em uma só, já seria um êxito comparável ao ouro olímpico.

 
 

A conta do Lula não fecha
    agosto 9, 2008

A presença do presidente Lula na insuperável cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim, como de hábito distingue-se pelas peculiaridades dos seus cacoetes, manias e a carga pesada de auto-estima.

Passando praticamente desapercebido na inflação das mais importantes personalidades e lideranças do mundo, Lula espertamente deitou e rolou na cobertura doméstica das TVs e pegou carona na boa vontade dos repórteres de revistas e jornais que, às dúzias, buscam os assuntos do interesse ou da curiosidade da população, de olho no desempenho da numerosa delegação nacional.

O presidente adora enfiar na cabeça os mais variados tipos de bonés, chapelões, tocas, especialmente com escudos seja lá do que for. Enriqueceu a coleção não só dos enfeites da cuca como de camisas e camisetas, trocadas a cada aparição diante das câmeras.

Um pouco de vaidade e de contido exibicionismo não faz mal a ninguém. O diabo é que, com freqüência, o presidente exagera.

Mas, se tivesse ficado só nos bonés e camisetas, seria desculpável. Acontece que Lula embarcou no Aerolula com a idéia fixa de convencer a cúpula do Comitê Olímpico a aprovar a realização dos próximos jogos olímpicos no Brasil. Daqui a quatro anos, em 2012.

Antes da fantástica, absolutamente insuperável, a mais bela cerimônia de abertura das olimpíadas de todos os tempos, ainda seria razoável insistir na pretensão do governo.

Depois, francamente, é não ter noção do ridículo. Pois a dura, a chocante, a deprimente evidência é que o país não está em condições de se expor a um vexame internacional.

Ou será que o presidente Lula acredita mesmo que está realizando maior governo de todos os tempos, com índices civilizados de segurança nas cidades - de Brasília e das grandes capitais às mais humildes comunidades do interior? Ou que em quatro anos, emendando os dois anos e menos de cinco meses restantes do seu segundo mandato com o ano e meio do seu sucessor – a ministra-candidata Dilma Rousseff ou alguma surpresa escondida nos medíocres quadros do PT? – teríamos condições de arrumar a casa para receber visitas?

Não se trata de ser mais ou menos patriota. Mas, do bom senso para evitar o pior. Pois, as próximas olimpíadas terão como parâmetro para comparação esta que deslumbra o mundo.

Daria até para desconfiar, se não fosse tão inverossímil, que na cachola presidencial a semente do terceiro mandato continua na geladeira.

Claro, é contra toda lógica e todas as evidências. Mas, ela se encaixa no pesadelo da realização da próxima Olimpíada no pais sem estradas, com as favelas dominadas pelas gangues de traficantes, com trânsito caótico nas capitais e nas grandes e médias cidades e todos os problemas de saúde, de pobreza, de educação e tantos outros longe de serem resolvidos.

O esquema governista, além de dona Dilma, não tem alternativa viável. Entregar o poder ao inimigo é pior do que engolir pregos.

Quem sabe lá? Diante do risco da catástrofe, a única brecha pode ser o Lula-lá.

 
 

A lição esquecida do João
    agosto 8, 2008

Nos saudosos tempos em que além de gostar de futebol, desde ginasiano, dedicava religiosamente as tardes ou as noites do fim de semana para assistir ao vivo, em todos os estádios do Rio, as partidas mais importantes da rodada, conheci e fiquei amigo de João Saldanha, o João Sem Medo sem papas na língua e um extraordinário comentarista da grande paixão nacional.

Além dos papos semanais nos estádios, fomos companheiros na redação do Jornal do Brasil, no belo prédio da Avenida Brasil que está sendo restaurado e na TV-Manchete.

Do Armando Nogueira ouvi a arguta observação, que nunca esqueci, que a Maracanã formava a sua opinião sobre cada jogo pelos comentários do João. E o teste era simples: bastava dar a volta ao estádio, no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo, para acompanhar, sem perder uma palavra, a análise do João que saltava de um a outro rádio de pilha sem um único buraco.

João foi técnico do Botafogo, clube da sua paixão por toda a vida, do timaço de Nilton Santos, Didi, Garrincha e um elenco de craques.

E realizou o sonho, que acabou em pesadelo, de ser convocado - em manobra da cartolagem para conquistar a imprensa esportiva, que ainda carpia a decepção com a vexaminosa bagunça dos dirigentes na Copa de 66, na Inglaterra – para técnico da Seleção na Copa do tri-campeonato de 70, no México.

Os nervos tensos de João não resistiram além das eliminatórias. Na temporada de treinamento no paradisíaco Retiro dos Padres, na Barra da Tijuca, entre intrigas e fuxicos, João jogou o boné e voltou ao microfone de comentarista.

Todo este rodeio é para voltar ao começo. Convidado para técnico da Seleção, aceito o convite, João Saldanha convocou a imprensa e anunciou, de um jato, a escalação de o time titular e dos reservas, do goleiro ao ponta esquerda.

E a sua justificativa é um modelo até hoje insuperável e pouco seguido de sabedoria e bom senso: o craque não é convocado, ele se escala pelas suas atuação ao longo do campeonato ou dos últimos campeonatos.

O fecho perfeito: não se pode treinar um time que não existe. O troca-troca das experiências do técnico perdido nas suas hesitações ou paralisado pelo medo de errar desperdiça o tempo que deveria ser aproveitado para entrosar o time, ensaiar jogadas, definir o esquema tático.

João Saldanha não voltou a treinar time ou seleção. E ainda hoje, a sua lição de 70, que teve óbvia influência na escalação e no brilho da maior seleção brasileira de todos os tempos, continua a ser desconsiderada por treinadores de cabeça dura ou incompetentes que nunca chegam a definir um time ou uma seleção. Trocam jogadores com a facilidade que mudam de cueca. E nos campeonatos mundiais, olímpicos ou nas Copas levam a torcida ao desespero.

Carapuças às ordens dos cabeças duras.