O extermínio programado dos barnabés - Repórter político do JB
    janeiro 1, 2007

Amigo de muitos anos, colega do curso ginasial no finado Instituto La-Fayette, compadre na seqüência do tempo – cujo nome não revelo para poupá-lo de constrangimento – cumpriu uma carreira exemplar de servidor público.

Conquistou o emprego por concurso, na severidade do sistema do mérito implantado pelo Departamento Administrativo do Serviço Público, o DASP, rebento moralizador da ditadura do Estado Novo, de enrubescer de vergonha a bagunça que alcança o vexame histórico nos últimos dois governos: o do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o do torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva, tão semelhantes que se confundem no que só pode ser uma política programada de extermínio dos barnabés.

Meu amigo subiu na carreira com as promoções por merecimento, até o último degrau, quando o limite de idade impôs a aposentadoria indesejada. Proprietário de apartamento na Tijuca, filhos encaminhados, netos adultos na briga pelo emprego, os bisnetos encantando a década dos oitenta: a velhice garantida nos limites de ambições modestas.

Nos últimos onze anos, de 1995 do reinado de FHC ao populismo demagógico do neolibertalismo de Lula, meu compadre vem engolindo o pão azedo do empobrecimento e só não baixou à miséria da privação do mínimol pela resistência do casal, com o corte de despesas, a começar pela diversão reduzida aos insossos programas de TV à renúncia aos passeios e visitas no veterano Fusca, paralisado na garagem com o tanque seco.

Mostrou-me a conta das despesas mensais, registradas no caderno com a precisão dos centavos: é o retrato de duas vidas condenadas pelo deboche da demagogia e a insensibilidade oficial.

Aos fatos. Nos dois mandatos do presidente FHC, de l 995 a 2 003, os barnabés embolsaram os níqueis do reajuste de 5% , em 2002, por obra e graça de decisão do Supremo Tribunal Federal. E o repique de 4%, previsto no Orçamento do ano seguinte, executado na era Lula.

Portanto, dois reajustes ínfimos em nove anos de gastança e desperdício, da farra das privatizações e do ensaio da compra de votos para a reeleição, depois consagrada na orgia da roubalheira do PT na caçoada lulista.

O pior estava a caminho e chegou na onda de esperanças dos 53 milhões de votos da eleição do candidato que prometeu tudo na campanha. Daí para diante, com as mais descaradas desculpas, mentiras e dribles, Lula empurrou o barnabé para os porões dos cortiços. Dos vencimentos triturados em três anos de maldição, a dignidade do emprego que já inflou peitos ilustres baixou para a espórtula que não enche barriga e mau chega ao fim do mês de panelas raspadas.

Além da avareza, as desculpas da hipocrisia. E as promessas da chacota.. Em 2 004, no meio do mandato, fingiu que cumpriu a Constituição e atirou o óbolo de 1% (sim senhores: um por cento!) na cara dos barnabés. Gostou da troça, bisou em 2 005, com a piada de mais um zero: 1,01 % - um centésimo por cento de reajuste, que nem pagou para agravar o castigo.

Este ano de eleição, com Lula em campanha, não se sabe o que vem na rolagem dos comícios e dos improvisos.

Para um acerto sério de contas, em cima da inflação no período de onze anos,, o reajuste de 132% seria o lance para o começo de conversa. Mas, não adianta cultivar ilusão. O relator do Orçamento deste ano, deputado Carlito Merss (PT-SC), anuncia a previsão de um reajuste que alcance a 29% até o fim do governo do seu partido.

Pode ser, só vendo para acreditar. O governo não pode apelar para a sovada desculpa da falta de dinheiro em caixa. Dinheiro é o que não faltou até agora no fandango dos ricos, E desde a mais cara e corrupta campanha de todos os tempos à prodigalidade no atendimento das exigências do Judiciário, regado pelos dois reajustes em cascata da mágica da dupla formada pelo ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e o então presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti, de portentosa biografia.

As Forças Armadas, depois de anos de escanteio, foram atendidas. No Congresso das mordomias, das vantagens e espertezas, os mais de trinta mil funcionários ativos e aposentados, com o aumento de 15% e os atrasados, batem no céu da média salarial ao redor de R$ 10 mil mensais.

Entre os servidores, as categorias beneficiadas com reajustes especiais, como a Polícia Federal, os fiscais da Receita Federal e ilustres especialistas considerados indispensáveis botam a boca no mundo, fazem greve e acabam com o acordo que silencia os protestos.

Os barnabés são os órfãos da creche oficial. Só têm a seu favor a lei, que não vale nada. O Art. 37, item X da Constituição, determina com solene gravidade: “a remuneração dos servidores públicos e o subsídio de que trata o § 4° do art 39 somente poderão ser fixados por lei especifica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices.”

Assegurada a revisão geral anual, sempre na mesma data?
A Constituição também, cultiva a ficção. E Lula sabe curtir uma piada…

 
 

Os degraus da escada da memória
    

A mais longínqua imagem de Cataguases que a memória conserva por um dos seus inexplicáveis caprichos é de uma veneranda escada de madeira, encaixada em sobrado de dois andares que o progresso derrubou, na praça Santa Rita, quase em frente à Matriz, ali, no lado esquerdo de quem caminha ou passa no rumo da outra praça, que já foi o centro, o coração da cidade ainda com jeito provinciano.

Pois nesse segundo andar morei algum tempo impreciso, há setenta e tantos anos, quando ensaiava os passos trôpegos no espaço alugado pelo meu pai. Merolino Raymundo de Lima Corrêa, jovem promotor público da comarca, nos primeiros degraus da carreira que alcançaria o piso mais alto, de desembargador, e com minha mãe, Marita Villas-Bôas de Lima Corrêa, ceifada por doença misteriosa, aos 33 anos.

Nenhuma outra lembrança resistiu à lima do tempo – lá se vão quase oitenta dos meus 82 anos: o portão de entrada de ferro retorcido, a sucessão dos degraus, com o patamar para tomar fôlego e a casa que sumiu sem deixar vestígio. Sei, por informações posteriores, que no térreo morava a família amiga da mais fraterna vizinhança, do Seu Prata e suas filhas, que reencontrei nos esbarros da vida. A mais presente no fabulário doméstico é a Graziela, acordada pelos gritos do pai aos primeiros clarões da madrugada:

-Alevanta-te pra cima, Graziela!

Só voltaria a Cataguases como magricela mudando a voz na virada dos 15, 16 anos, para o tranco da descoberta e da paixão instantânea pela vida de fazenda - que cultivo como posso nas transformações do mundo e nas cambalhotas birutas do nosso país, enlouquecido migração de milhões de famintos do campo para a miséria e a violência das favelas urbanas.

De pancada, ganhei uma família, a família Costa Cruz; a segunda mãe, Carlota Cruz de Lima Corrêa, a Tatá, viva e firme nos seus 93 anos, uma irmã muito querida, a Maria Guiomar, o marido e dois filhos; uma penca de tios e tias, primos e primas, amigos para a eternidade, e mais a fazenda do Retiro, nos altos da Serra da Onça, paraíso na altura dos 600 metros do clima inesquecível, gelado nas manhãs e noites das férias de junho; arejado e fresco à sombra no calorão dos dois meses de liberdade das férias de fim de ano – modelo, com os exageros sabidos, do recesso parlamentar e com os subsídios de uma época que jamais se recupera, pois o que é bom, dura pouco.

Procurei amortizar os juros da gratidão pela cidade e a família Costa Cruz, no livrinho “Casos da Fazenda do Retiro”, lançado com festa, comes e bebes na terra, no rito de passagem para a velhice do aniversário dos conspícuos 60 anos. Nele fixei lembranças, contei histórias acontecidas com os temperos da saudade e procurei esboçar, em rápidos traços, algumas das figuras legendárias da fase encantada da juventude. E que pode ser sintetizado no patriarca, Coronel Arthur Martins da Costa Cruz, diplomado pela universidade da vida como catedrático que sabia tudo, rigorosamente tudo da roça e seus encantamentos e o melhor companheiro que conheci para as quatro léguas a cavalo da Fazenda do Retiro à chácara, na Avenida Astolfo Dutra. Na cadência batida da marcha da Serenata, sua mula de confiança, enrolando os cigarros de palha para espantar os mosquitos, Arthur Cruz respondia à curiosidade bisbilhoteira do rapazola citadino e emendava casos vistos e vividos na lida do campo.

Sempre que posso e que a buraqueira das estradas permite, tenho voltado a esta cidade para lavar a miopia na emoção recuperada pelas estocadas na memória.

Do meu tempo, restam marcos, rostos repetidos nas novas gerações e os sobreviventes de outra era, que parece atolada em séculos.

O veterano repórter, com sessenta anos de militância ininterrupta na cobertura política, que tanto viu e hoje tanto se indigna com a crise institucional que envolve os três poderes na sucessão de escândalos da corrupção do caixa dois, do mensalão e da roubalheira endêmica, atende ao convite para participar das comemorações pelo centenário de Cataguases, o jornal da cidade, que é o companheiro de sempre, da Fazenda do Retiro, da chácara na Avenida Astolfo Dutra, das casas do meu pai Merolino e da minha mãe Tatá, quando residiram em Cataguases, depois de aposentado, da minha irmã e meu cunhado Roberto, dos tios e parentes onde pernoitei e continua a pousar quando das minhas espaçadas viagens para matar saudades. Nas casas de amigos e conhecidos.

Cataguases é uma outra cidade. Moderna nos seus bairros elegantes, populosa, empreendedora, com o justo orgulho pelo seu desenvolvimento e com a tradição de pioneirismos culturais, cravados pelo movimento Verde e com marcos poderosos de edifícios, prédios, quadros, a igreja, o hospital, residências assinados pelos mestres do modernismo.

Nos tempos da antiga capital no Rio, conheci e convivi com dois deputados federais, Pedro Dutra e Manuel Peixoto, que se apresentavam orgulhosamente como representantes de Minas, da Zona da Mata ou, mais exatamente de Cataguases.

Há muito a cidade não consegue ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados ou do Senado no Congresso de Brasília. Imaginei fechar essas reminiscências cutucando nos brios cívicos do órgão centenário, porta-voz da cidade, para sugerir um movimento acima dos partidos para a eleição de um parlamentar federal.

Mas, cá para nós: ter um representante no Congresso de Brasília é motivo para orgulho ou justíssima razão para esconder o rosto, esfogueado de vergonha? Dispenso a resposta.

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Quando pela primeira vez pisei numa redação à cata de um emprego e descobri o que queria fazer para o resto da vida, o Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, enfim as capitais e grandes cidades, orgulhavam-se da sua imprensa poderosa, dirigida em geral por jornalistas e ocupadas por profissionais do ofício, com severos padrões éticos.

Mas, desde que reencontrei o interior, seja nas férias ou nas coberturas de campanhas eleitorais, descobri e encantei-me com a imprensa da província, na modéstia de suas instalações, na luta áspera pela sobrevivência e na sua dedicação aos problemas, às reivindicações, aos assuntos da comunidade.

De lá para cá, as águas das novidades e das crises, alteraram o quadro que parecia imutável. A televisão chegou como ameaça, contornada com o ajuste do bom senso. Agora são as teclas dos computadores que anunciam a era da informação em tempo real, com espaço infinito para acolher tudo que seja gravado na sua memória mágica.

A grande imprensa, pelas previsões dos magos que enxergam o amanhã está com os anos contados. Trinta, quarenta anos, a última pá de cal ainda neste século.

Noves fora os exageros, os sinais são de alarme. Gigantes nas metrópoles do mundo revêem planos e projeta ajustes, alguns em execução, como a transferência de seções fixas - obituários, programas de cinema, teatro, televisão - para sites de consulta instantânea.

Se o futuro arranha a porta, antes de arrombá-la um consolo enxuga as lágrimas do leitor dos modestos jornais do interior. Simplesmente porque o jornal de província ou da cidade média que escapou do abraço da morte do gigantismo é insubstituível.

Na cambalhota do século, este jornal estará comemorando o segundo centenário. E com fôlego e saúde para enfrentar muitas maratonas.

 
 

Conselhos éticos de Vavá ao mano Lula - Repórter político do JB
    

O presidente Lula anda tão atormentado com a urucubaca que grudou no governo como praga de feiticeiro, que não sabe até onde será empurrado pela tática do despistamento, fingindo que não enxerga o que passa diante dos seus olhos.

Por alguns momentos passa a impressão de que realmente acredita no que afirma no alinhavo contraditório dos improvisos de candidato em fase azarada de campanha. Convenhamos, não é para menos: o governo vinha mal, capengando na paralisia administrativa, na acefalia do absoluto desinteresse do presidente pelo desempenho medíocre da equipe que juntou e que não se entende, saltou dos trilhos com o estouro do escândalo da corrupção, as investigações das CPIs dos Correios, do Bingo e do mensalão que implodiram o Partido dos Trabalhadores, rachado ao meio na briga de foice pela sigla despedaçada e salpicaram lama no Palácio do Planalto, até o gabinete presidencial.

O caiporismo poupou a família nos dois anos de mandato, quando a primeira fisgada arrancou gotas de sangue com a denúncia da esperteza de Fábio, o filho abençoado pela generosidade às custas da Viúva com o financiamento de R$ 5 milhões à empresa de que é sócio e opera no ramo da montagem de jogos eletrônicos.

Resmungos da oposição, o clássico desmentido oficial que Lula de nada sabia e a declaração do próprio, sumária e ligeira como gato em telhado de zinco no pico do verão, safando o filhote taludo, com o atestado da sua inocência.

Agora. as coisas ficaram mais complicadas com o repique doméstico da proeza do mano Vavá, apelido de Genival Inácio da Silva, acusado de ter aberto um escritório em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, com a explicita finalidade de intermediar acertos entre empresas privadas e órgãos públicos federais. Entrando em campo com a desenvoltura de quem sabe o peso do sobrenome, estreou marcando gol de placa, conseguindo uma audiência no Palácio do Planalto.

A denúncia da revista “Veja” derramou água no chope, alvoroçou a oposição, impôs o desmentido palaciano e promete render muitas dores de cabeça ao presidente candidato.

Seis anos mais velho que Lula, Vavá é o seu irmão mais próximo. A história da família é contada por todos os sobreviventes em depoimentos pessoais de horas de gravação, reunidos nas quinhentas e tantas páginas de Lula, o filho do Brasil,  da competente e confiável escritora Denise Paraná, lançamento da Gráfica e Editora Perseu Abramo.

No final do longo e emocionado testemunho de Vavá, o sensato, oportuno e surpreendente conselho, no tom de prédica ungida pela premonição, que ocupa 13 linhas da pág. 233 e que transcrevo na íntegra: “Espero que se o Lula ganhar para presidente da República ele ajude o povo em geral. E não tem esse negócio de ajudar parente, não. Ele vai cuidar do povo. O resto, os parentes, cada um tem que viver por si. Do Lula eu só quero só amizade e o carinho que ele tem pela gente. Eu quero que o Lula faça bem é para o Brasil todo. Não é para mim, para minhas irmãs, para os meus irmãos, para a turma, não. Se ele ganhar e fizer um bom governo já está bom demais, não precisa ajudar ninguém da família.

Ninguém admite o cara ser do agreste, do sertão do Norte. Sair do sertão do Norte do jeito que nós saímos e chegar à posição que o Lula chegou hoje… Eles têm inveja, é tudo inveja, Porque dinheiro não compra nada, não compra dignidade, não compra moral, não compra honestidade, não compra nada de ninguém. Tem muita ignorância nessa gente que não admite que um peão, um operário, tenha chegado onde chegou. E no Congresso tem pouca gente que pensa no povo.”

O que levou o amadurecido Vavá - na maturidade dos 66 anos de vida em que conheceu a miséria extrema da infância no Nordeste castigado pela seca, a fuga para São Paulo na viagem de 13 dias no “pau-de-arara”, o desafio do recomeço em Santos e depois na capital, até a estabilidade na ascensão à classe média – a renegar os princípios morais dos seus irretocáveis conselhos ao irmão que chegou mais alto do que o sonho da família?

A mais simplista das explicações aponta para o desencanto, a frustração que pouco a pouco corroeu anos de esperança. E que se rendeu, embarafustando para o descaminho do descarado tráfico de influência.

Com família não se brinca. Há tempo, pouquíssimo tempo para a arrumação da casa. Na agenda de Lula, entre viagens internacionais e giros de campanha, a aflitiva urgência aconselha uma reunião dos Silva no fim de semana, na privacidade da Granja do Torto, para a revisão dos erros e a flagelação dos pecados.

Na abertura da penitência, a leitura das 13 linhas da oração do Vavá, Pelo próprio, de joelhos e com lágrimas escorrendo pelas rugas do rosto.

Pois se a moda pega na família o ano não acaba sem mais uma CPI.

 
 

Um dos grandes da fase de ouro - Repórter político do JB
    

Em todas as muitas listas dos destaques parlamentares da época de ouro da eloqüência, do prestígio e da popularidade do Congresso, que se inicia com a Assembléia Nacional Constituinte de 1946, suporta o tranco da mudança da capital para Brasília em obras e exala o último suspiro com o golpe militar de 1° de abril de l964, o deputado Adauto Lúcio Cardoso é presença obrigatória, ao lado de Afonso Arinos, Carlos Lacerda, Aliomar Baleeiro, Bilac Pinto, Milton Campos, Gustavo Capanema, Vieira de Melo, Nereu Ramos, Antônio Balbino, Nestor Duarte, Odilon Braga, Leonel Brizola e mais algumas dezenas que driblam a memória.

No provável silêncio da Câmara de Deputados, da imprensa, do Supremo Tribunal Federal (STF) e das muitas instituições por onde passou, a família e amigos de Adauto Lúcio Cardoso comemoram hoje o seu centenário de nascimento e recordam a sua trajetória nos 69 anos de vida. Faleceu em 20 de julho de l974.

A sua trajetória política  no cenário nacional começa no Estado Novo de Vargas como um dos articuladores do Manifesto dos Mineiros, com Afonso Arinos, Virgilio de Melo Franco, Pedro Aleixo, Magalhães Pinto, entre outros. Na reação clássica da ditadura decadente, todos os signatários que exerciam cargos públicos foram demitidos.

Curtiu as primeiras cadeias e, em 1947, no medíocre governo do presidente Dutra elegeu-se, pela UDN, vereador à Câmara Municipal do Rio, juntamente com Carlos Lacerda. Ambos não esquentaram a cadeira, renunciando aos mandatos no mesmo ano em protesto contra a decisão do Senado que restringiu os poderes da Câmara, avocando a si o exame dos vetos do prefeito da capital, nomeado pelo presidente da República.

No tenso clima de crise, agravado com o suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 1954, Adauto conquistou seu primeiro mandato federal, chegando a Câmara de Deputados, nas eleições de outubro.

Datam daí as minhas recordações do deputado combativo, com a bravura demonstrada em vários episódios e a noção da lealdade, responsável pelos trancos da incoerência no período negro de quase 21 anos da ditadura fardada.

A UDN não soube morrer, quando atingida pelo AI-2, de 27 de outubro de l955, no governo udenista do marechal-presidente Humberto Castelo Branco. Sobreviveu, dissolvida na Arena, gerada pela ditadura, na trapaça dos casuísmos.

Manchou a tradição da legenda liberal, que reuniu os adversários do Estado Novo e sustentou a chama libertária durante os governos de Dutra, no retorno de Vargas nos braços do voto e de Juscelino Kubitschek. No desespero das três derrotas nas sucessões presidenciais, apoiou a candidatura de Jânio Quadros nas eleições de 60 para os sete meses e dias do governo embirutado e que termina na frustração da jogada da renúncia -que não deu certo.

Adauto defendeu a posse do vice Jango Goulart e combateu o seu tumultuado governo, interrompido pelo golpe militar de 64.

Na presidência da Câmara, em 66, reagiu à cassação de seis deputados, entre os quais o líder do MDB, Doutel de Andrade, recusando-se a aceitar a quebra do compromisso presidencial, que prometera que nenhum mandato parlamentar seria cassado. Em represália, Castelo editou o Ato Complementar n° 23, fechou o Congresso, que foi cercado pela tropa do Exército, comandada pelo coronel Meira Matos.

Ministro do Supremo Tribunal Federal, nomeado por Castelo em 67, aposentou-se em 71, em protesto contra a decisão do STF, contra seu único voto, de não acolher o recurso do MDB, argüindo a inconstitucionalidade da censura prévia à imprensa e aos livros.

Amiga e vizinha da família, Helena Godoy lembra, em e-mail de leitora atenta, o centenário de Adauto e traça o seu perfil no parágrafo irretocável: “Jamais me esquecerei de sua bela figura, altiva e solitária, aguardando  como presidente da Câmara, a chegada das tropas militares, que naquele triste momento, fecharam o Congresso Nacional. Ao conforto de sua casa, preferiu honrar o cargo, resistindo bravamente, sem poupar os invasores de cena tão constrangedora. Ficar em cima do muro, tão em voga hoje, decididamente não fazia seu gênero”.

 
 

O Sapo engole o Príncipe - Repórter político do JB
    

Surfando com a competência de veterano na onda da primeira eleição, na modéstia municipal da escolha de prefeitos e vereadores, o jornalista e escritor Paulo Markun foi ao fundo nas pesquisas e acaba de lançar, com 357 páginas de texto de leitura fascinante, O Sapo e o Príncipe, Editora Objetiva.O título, tratando de tema político, anuncia o paralelismo na trajetória das biografias dos dois presidentes, nos últimos em nove anos e 10 meses, com a transferência do poder de um canto para o oposto, na simplificação com fumaça ideológica do confronto entre o centro e a esquerda. Claro, o Príncipe é o sociólogo Fernando Henrique Cardoso que emendou dois mandatos o Sapo que vira príncipe, inspirado em velha história infantil alemã, o seu sucessor, presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Mas, ao final das três centenas de páginas e quebrados, além dos anexos, descobre-se que o Sapo Lula engole o Príncipe FHC. Se o tratamento não privilegia nenhum dos dois personagens dominantes na trama que envolve muita gente, o implacável descorante do tempo empalidece o interesse pela vitoriosa carreira, mais do que conhecida do ex e concentra a atenção no feitiço das muitas informações inéditas, com a interpretação e a análise pertinente, que ilumina a personalidade intrigante do torneiro mecânico que virou pelo avesso a crônica republicana, que entremeia ditaduras com períodos de governos paisanos conservadores.

O retirante nordestino que, aos sete anos, viajando em pau-de-arara, com Dona Lindu, a mãe heróica, abandonada pelo marido e sete filhos menores, para passar por grandes dificuldades em São Paulo, orgulha-se quando recebe o primeiro salário como aprendiz em pequena fábrica de parafuso e sente-se como “o dono da cocada preta”.

Primeiro passo na vertiginosa ascensão do maior líder sindical do Brasil e dos maiores do mundo. E se o encanto pela luta sindical custou a fisga-lo, a disparada foi fulminante.

No golpe militar de 1° de abril de 1964, como torneiro mecânico de uma metalúrgica, Lula depõe: “nesse tempo eu não queria saber de política”.

Só em 1968, à insistência do seu irmão Frei Chico, comunista e militante no movimento sindical, assiste a uma reunião no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Ainda relutante, acabou assinando a proposta e entrando para sócio do sindicato. Logo na primeira eleição seria eleito presidente.

O foguete parte em velocidade alucinante. O autor explica a mágica: “Lula não tinha base teórica nem experiência anterior, mas no dia-a dia do sindicato revelava talento incomum para o jogo político”. Na campanha para a reposição salarial, a mídia descobre Lula, que ganha a capa da revista Veja em setembro de 1977.

Desligado do jogo político partidário, não se interessou pela campanha da anistia, dedicado em tempo integral a debater temas da pauta das reivindicações trabalhistas.
Firma a liderança, que se amplia em âmbito nacional, comandando greves que paralisam as montadoras do ABC, em 1980, enfrentam a repressão policial, com Lula discursando para milhares de metalúrgicos. Preso em 19 de abril, liberado para visitar sua mãe, gravemente doente e para o enterro de Dona Lindu, no dia 12 de maio.

Das greves vitoriosas ou de resultados frustrante, parte para a fundação do Partido dos Trabalhadores, “um partido sem patrões”. Da base petista lança-se à carreira política. Deputado federal mais votado em todo o país, com 651.763 votos, teve atuação apagada na Câmara e na Constituinte, sentindo-se um estranho no ninho. Queixou-se, em declarações amargas, da tediosa rotina parlamentar, afirmando que não queria jamais voltar a ser deputado.

A dupla face do governo do presidente Lula começa a esboçar-se na afirmação do seu temperamento, de suas contradições, qualidades e deficiências. E que podem ser rastreada nos muitos dados conferidos por Paulo Markun. Lula não cultiva o prazer da leitura. Na sua estante de líder sindical, meia dúzia de volumes: o Arquipélago de Gulag, de Alexander Solzinitsyn; o Diário da CIA, de Philip Agee; Os Dez Dias que Abalaram, o Mundo, de John Reed: uma biografia de Gandhi e alguns exemplares da coleção Obras Primas da Literatura.

Lula leu pouco, muito pouco, pouquíssimo. Nos 12 anos em que seu emprego remunerado foi o de candidato a Presidente da República, não achou vagares para a leitura ou para cursos de aperfeiçoamento cultural.

Talvez não sinta falta. Pois com aguçada intuição, privilegiada inteligência e acuidade política chegou onde está. E dorme e acorda sonhando com a reeleição.

 

 
 

O voto também canta
    

Mestre Haroldo Costa é um, erudito, apaixonado pela cultura popular. Sabe tudo de carnaval, música, escolas de samba. Escritor de texto enxuto, correto, bem-humorado, elegante. E.tem os seus truques. Com, por exemplo, o de espremer em uma centena e quebrados de páginas, um pequeno para médio grande livro que fica em pé na estante da cada vez mais numerosa coleção de obras sobre o carnaval, um tema inesgotável.Aconselho o leitor que cometer o equívoco de desperdiçar tempo passando os olhos sobre este dispensabílissimo prefácio, no jeito do antigo nariz de cera da imprensa da monarquia, a pousar na mais confortável poltrona da sala ou, conforme a preferência nordestina, a espichar-se na rede antes de iniciar a leitura do volume que carrega debaixo do braço.

Cautela testada na experiência: este é livro para ser lido de uma assentada, que agarra o leitor pelo gasganete e só o libera na última linha. Uma história do carnaval, que recua para a rápida e educativa pesquisa da sua origem e desenvolvimento ao longo dos séculos e desfila nas praças, avenidas, ruas, vilas, caminhos, estradas, pula e canta nos bondes, ônibus e nos automóveis de capota arriada dos saudosos corsos do Rio amorável, feliz, moleque, galhofeiro, de alma leve, dos suspiros dos saudosistas. Bem entendido, do veterano que batuca no computador esta conversa tediosa.

Pois, o Haroldo Costa é um jovial espírito que desdenha o rodopio dos anos e das décadas. Não é à-toa que conta aqui o carnaval acompanhando as suas marchas, os seus sambas, as suas canções.

Laçado de surpresa pelo convite virado pelo avesso de fazer a apresentação de autor famoso, dei tratos à bola e escarafunchei minhas lembranças do chamado tríduo momesco (eta! nomezinho pernóstico). Resultado mofino: apertado na fantasia desconfortável para o giro tijucano ou o baile infantil de infernal barulheira. Corso, só visto da calçada da Avenida Rio Branco. Anos mais tarde, já taludo, tomei gosto pelos bailes do interior, das cidades mineiras em que meu pai foi juiz: Cataguases, Araguari, Palma. Depois chegou a minha vez de levar os filhos para a tortura dos bailes no Fluminense.

Lavei a miopia nos desfiles das escolas de samba, desde os tempos da Avenida Rio Branco, em pé, debaixo de chuva torrencial, na arquibancada montada em frente à Biblioteca Nacional ou no balcão do antigo Banco Nacional, na Avenida Presidente Vargas.

Ao Sambódromo fui três vezes, duas a convite do Governador Leonel Brizola. De lá para cá, escarrapachado na poltrona mato as saudades pela televisão.

É pouco, reconheço. Mas, com tais rodeios cheguei aonde devia ter começado.

Repórter político com quase 60 anos na cacunda de atividade ininterrupta, cobri várias campanhas eleitorais de candidatos à Presidência da República e a governador de diversos estados. Haroldo Costa tangencia a abordagem na pesquisa de letras e músicas de sambas e marchas feitas de encomenda para as campanhas de Juscelino Kubitschek, de João Goulart, de Fernando Collor de Mello. Ou nas homenagens nem sempre espontâneas dos desfiles das escolas de samba.

Nas minhas lembranças, poucas vezes vi o povo cantando em comícios. Nas campanhas presidenciais, nunca. A mais perfeita letra tem a assinatura de Miguel Gustavo para a campanha de Jango Goulart a Vice-Presidente na chapa de JK, em 1955:

Na hora de votar
Eu vou jangar
È Jango, é Jango
É o Jango Goulart.

Por alguma falha da cuca, puxem-me as orelhas. O nome do candidato popular transformado em verbo foi um achado que rendeu votos e a derrota do impecável Milton Campos, da UDN, traído por Jânio Quadros na trapaça do Jan-Jan. O povo conjugava.em coro, nos comícios o verbo jangar.

Sucesso igual ou parecido, nenhum. O embirutado Jânio Quadros da renúncia com menos de sete meses de mandato, não gostava de música, detestava cantoria e desprezava discursos. Ele era o astro do palanque com o discurso repetido que levava multidões ao delírio.

Jânio renuncia, Jango Goulart assume a Presidência no regime parlamentarista alinhavado na urgência da saída do risco iminente de uma revolução que racharia as Forças Armadas. Jango derrubou o parlamentarismo que o protegia e, sem escudo, esticou a corda até arrebentar nos quase 21 anos da ditadura militar com o rodízio de cinco generais-presidente: Castelo Branco, Costa e Silva, Emilio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e os intermináveis seis anos do inesquecível presidente, general João Baptista Figueiredo.

Na ditadura o povo não canta. O que canta é o cacete no lombo dos presos políticos nos antros de tortura do Doi-Codi.

Depois de Jânio, a multidão voltar a cantar nos comícios das Diretas-Já.

Em eleição indireta, a campanha não empina. Tancredo Neves, o presidente que não chegou a tomar posse, foi eleito na virada do Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, derrotando Paulo Maluf, candidato oficial ou oficioso.

Dos cinco anos do governo do presidente José Sarney passamos por cinco campanhas, com dois bis, para as eleições de Fernando Collor de Mello e do vice Itamar Franco, que assumiu a presidência com a deposição de Collor; de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva, na quarta tentativa, em 1998, reeleito em 2002.

Na era da televisão, dos programas eleitorais em rede nacional obrigatória, as campanhas foram dominadas pelos marqueteiros e engessadas como múmias na tumba de produções profissionais. Slogans encomendados e pagos à vista não podem ser levados a sério.

A campanha de rua, espontânea, arrastando multidões ficaram nas lembranças dos que viram e que têm o que contar. Acompanhei várias em muitos estados. E em todos, a polarização esquentava na reta final com intensa mobilização popular.

Faço a minha eleição com voto único e elejo o Rio Grande do Norte da rivalidade dos antigos aliados na UDN – senador Dinarte Mariz e deputado Aluísio Alves - como o estado de campanhas mais alegres, inteligentes, criativas, de mais intensa e participante mobilização popular dos tempos dourados das ilusões e sonhos das promessas da democracia.

Na campanha de 1960, o deputado Aluísio Alves rompeu com o cacique da UDN, senador Dinarte Mariz e se lançou candidato. Dinarte sustentou a candidatura do exemplar deputado Djalma Marinho.

Solto no espaço, sem a sustentação de uma grande legenda, Aluisio foi para a rua e deu asas à criatividade. Com incrível resistência para a magreza sertaneja do corpo descarnado, começou a correr a pé, visitando casa por casa, todos os bairros de Natal. Daí para o interior. E arrastou multidões que se renovavam nas marchas que emendavam dias e noites. Na sofisticação da reta de chegada, o caminhão com equipamento de som alternava com as caminhadas em roteiros de dias seguidos. Aluisio fazia 20, 30 discursos por dia nas paradas em que o povo esperava, durante horas, para os minutos de eloqüência da voz rouca.

Natal e o Rio Grande do Norte partiram ao meio. O candidato udenista, Djalma Marinho, escolheu o vermelho para tingir a sua campanha. Em centenas, milhares de casas, dos bairros ricos às vilas pobres, tremulavam as bandeirolas vermelhas fincadas pelos eleitores do candidato da UDN.

Aluísio Alves marcou a candidatura com o verde da esperança. E facilitou a vida para os caminhantes e os fanatizados pelo estilo popular da campanha: bastava um ramo verde colhido à beira da estrada para a improvisação do estandarte.

Nas marchas, nas caravanas, nos comícios o povo cantava. A veia poética de afamados autores de letras de marchinhas saborosas, com o toque de malícia, a picada da maldade, improvisou letras que mereciam ser guardada em arquivo.

Muitas ainda foram relembradas no enterro de Aluísio Alves, em maio de 2006, quando a cidade retirou dos baús os desbotados retratos da campanha para a despedida emocionante na capital moderna, com quase um milhão de habitantes e que nunca mais verá uma campanha como as de 1960, 1964, antes da noite da ditadura.

Nem cantará as marchinhas que brotavam do povo e alegravam a áspera briga pelo voto.

Naquele tempo, no Rio Grande do Norte, o voto cantava.

 
 

De Alcântara aos pecados da gula - Repórter político do JB
    

Da última vez em que estive em São Luís, trouxe na bagagem dois livros do mesmo autor, o escritor, historiador, pesquisador que conhece, com paixão de erudito, tudo sobre as coisas, lugares, fatos com nomes e data do Maranhão. A modéstia de Carlos de Lima só concebe o exagero nas dedicatórias.

No vôo de volta comecei a folhear as duas dezenas de páginas de texto, mapas, desenhos do elegante volume Caminhos de São Luís,, da Editora Siciliano. Mergulhei na prosa de um mestre, o contador de histórias que cultiva o bom humor e curti o deslumbramento de uma caminhada pelas ruas e logradouros da bela capital, parando diante dos prédios históricos de um roteiro de sonho, a ruminar o remorso, temperado pela esperança de um dia refazer em etapas, a pé, o que conheci aos pedaços, na correria da pressa estúpida dos automóveis.

No prefácio curto que revela a qualidade literária do autor, a enganosa advertência que o que se vai ler “não é um estudo que propriamente interesse a historiadores, nem um roteiro para uso de turistas”. Precisa: “Situando-se entre o Tempo e o Homem, será breve e superficial para os primeiros e longo demais para os últimos”.

Na verdade, nem uma coisa nem outra. A história contada resgata o mistério das pedras das ruas, ladeiras, becos, praças ou que é “guardado por trás destas fechadas, aderindo aos muros, casas, fastos e pessoas” muito ou “tudo que faz tão encantadora e apaixonante São Luís do Maranhão”.

O outro livro, Vida, Paixão e Morte da Cidade de Alcântara-Maranhão, exigiu o fôlego de anos, uma vida de pesquisa para a montagem do monumento a uma relíquia que vem sendo criminosamente depredada ao longo dos anos da decadência, depois da fase de riqueza, dos imponentes sobrados, do luxo importado da Europa pelos fazendeiros que esbanjavam fortunas. A agonia, analisada em suas minúcias, fecha com o curto capítulo sobre o desastre ecológico provocado pela instalação do Centro de Lançamento de Foguetes do Ministério da Aeronáutica. E que parecia prever o acidente com a explosão do foguete na experiência de lançamento, no último período, em tom de lamento: “País de curta memória, com o tempo os problemas de Alcântara caíram no esquecimento”.

Não se esgotara o pacote das surpresas. Acabamos de receber, no luxo de dois volumes de encadernação caprichada, com o apuro da caixa que junta Os Pecados da Gula, gêmeos que se completam para contar os segredos dos “comeres e beberes da gente do Maranhão”. A autora assina o nome completo de Zelinda Machado de Castro e Lima. Esposa de Carlos Lima, que em duas páginas realiza o prodígio de apresentar um dos mais atraentes e abrangentes tratados sobre a fabulosa culinária maranhense.

Personagem imprescindível da história recente da cultura do Maranhão, como qualifica o registro da orelha, Dona Zelinda completa o casal de exceção, na deslumbrante revelação de uma escritora com pleno domínio do seu ofício, além da pesquisadora que dedicou décadas para, como confessa, “coligir os dados que aqui figuram sobre agricultura, peixes, árvores, animais, culinária, pesca, expressões e ditados” e que foram “respigados aqui e ali, neste e naquele livro, colhidos de informações de viva voz, de caçadores, pescadores, curandeiros, quituteiras, etc. entendidos no assunto. E de velhos cadernos de receita”.

É de encher os olhos de espanto e de dar água na boca. Trabalho de competência e de sensibilidade, com a exigência da aplicação que esgota o assunto, ultrapassando os limites previsíveis. Com belíssimas ilustrações a cores, mapas, como define José Sarney, “não é um volume de receitas, é um livro de antropologia alimentar”. A edição de 1998 está praticamente esgotada, a exigir reedição urgente e inadiável.

Acrescente-se, são dois livros que se integram. E que compõem com a história de Alcântara e dos caminhos de São Luís, amplo e variado painel do Maranhão, de leitura obrigatória para quem a vida concedeu o privilégio de gostar de ler e de não resistir aos pecados veniais da gula.

 
 

Um país pintado de branco - Repórter político do JB
    

Aproveito a brecha do dia tenso, que é mais de notícia do que de comentário, para encaixar as impressões ligeiras, no tom de conversa sem pose, confessadamente superficial, sobre os vinte dias do giro de mais de dois mil quilômetros pelas impecáveis rodovias de Portugal, matando as saudades de quatro anos da última e mais demorada visita e lavando a miopia com a forte imagem de um país que se modernizou, aproveitando a maré das facilidades de financiamentos do euro e escorrega pelo tobogã da crise na hora de pagar as dívidas.

Vamos começar, como convém, pelas boas surpresas; de ruins bastam as nossas: Portugal está lindo nestes dias ensolarados e quentes da explosão de cores da primavera, sem um pingo de chuva, dispensando as capas, os casacos e suéteres esquecidos na mala.

Um país arrumado, com sinais de advertência de inchaço nos engarrafamentos freqüentes no lento trânsito das ruas de Lisboa, do Porto e de cidades médias. E os avisos, que soam exagerados aos nossos ouvidos, de assaltos na confusão das áreas movimentadas ou nos ermos das horas mortas. Não cheguei a testemunhar um único flagrante, o que não desmente o registro dos jornais, das TVs e as recomendações dos policiais.

O tempo era pouco para curtir o amargo contraste entre a nossa incúria de buracos em 75 mil km intransitáveis e a impecável rede de estradas portuguesas, das autovias largas, com duas pistas, de asfaltamento perfeito, em que se desliza sem o ressalto de um único buraco, com sinalização exata de todas as alternativas nas rotundas que facilitam a correção de enganos sem a necessidade de longos retornos, a facilidade no pagamento de pedágios, calculados pelos quilômetros percorridos às estradas estreitas, que serpenteiam pelas grimpas da Serra da Estrela ou da Serra do Mamede e levam a Marvão e ao que restou do seu castelo conservado com capricho.

Por todos os caminhos e paradas, em todos os lugares, de Lisboa a Faro, no extremo do Algarve, subindo pelo oeste até Covilhã, cortando para leste, no rumo do Porto, com paradas em Canas de Senhorim, Marão e volta à Lisboa para os chorados cinco dias de despedida, a gentileza prestante, a amabilidade invariável, a cortesia natural, espontânea do povo português, um dos mais educados do mundo. Não apenas com os brasileiros, mas com um toque especial para o irmão mais moço e estouvado, que fala a mesma língua.

É só pedir uma informação para provocar as reservas inesgotáveis de amabilidade. O motorista de caminhão desce da boléia para apontar o melhor roteiro. Pára um segundo, não parece satisfeito e pede-nos que o sigamos. Dispara em alta velocidade para estacionar na rotunda onde nos espera para indicar, sem risco de engano, a direção certa e seus atalhos.

Uma sábia e inspirada determinação oficial estimula os moradores a pintar as casas de branco, fornecendo a tinta de graça. Quem teimar em escolher outra a cor, paga pela excentricidade. E são poucos, raríssimos. Saindo da capital e das grandes cidades, Portugal é um país caiado de branco, a imagem da limpeza das ruas, das paredes das casas e edifícios, das estradas.

Nem tudo são flores. O tranco de acomodação da comunidade européia aquece as reações ao euro e suas contradições. O cenário de crise chegou quente em Portugal, provocando a reviravolta parlamentarista e a ascensão do polêmico José Sócrates a Primeiro Ministro, com o clássico receituário restritivo, tão nosso conhecido, cortando nas gorduras e nas carnes magras dos servidores públicos, aposentados e pensionistas, aumentando impostos, pedindo compreensão para os sacrifícios.

O custo de vida dispara e perfura a bolsa do turista com os seus esquálidos reais. Na mágica do câmbio, pagamos R$ 3,50 por euro. Confiram: a diária de hotel de três a quatro estrelas rodopia entre 75 e 125 euros ou R$ 260 a R$ 437. Uma refeição, no mesmo nível, com o vinho indispensável, baila entre 30 e 50 euros, ou seja, R$ 105 a R$ 175. Em restaurante popular escolhido, uma refeição que nada fica a dever aos afamados, fica entre 15 a 20 euros, um terço, R$ 45 a R$ 70,

Convém aproveitar, pois as perspectivas, lá como cá, não são otimistas. Inteligente, estudioso e atento amigo, Antônio D`Aguiar, matemático com o gosto pelas análises econômicas, resume a crise que balança a união européia na letal mistura da incompetência arrogante de governos dissipadores, que gastam e roubam o dinheiro público com o endividamento aloucado. Manifesta a esperança no futuro com a visão do presente da crescente e fraterna estima dos povos da Europa sem fronteiras. E no correspondente desapreço pela classe política.

As longas conversas em sua casa no Restelo, em restaurantes, no hotel sempre me provocavam a impressão de que já vi este filme. Mais de uma vez. Sem tirar nem pôr na sua novíssima reprise.

 
 

Prece ao velho Chico - Repórter político do JB
    

O Presidente Lula, na dupla investida para salvar o seu primeiro mandato do fiasco que se desenha em nítidos contornos e fortalecer as possibilidades da sonhada reeleição em 2006, resolveu apostar as fichas que sobraram do seu cacife na transposição das águas do degradado Rio São Francisco para irrigar o Nordeste, com a perenização da rede fluvial que seca nas cíclicas estiagens.

Nos programas de propaganda do PT, em sucessivas abordagens na enxurrada de seus improvisos, Lula repisou o juramento de resgatar o compromisso de campanha e costuma desfiar a sua história de menino nascido na aridez do interior de Pernambuco, com a lembrança das provações em mais de um ano de seca.

Trata-se, de palavra empenhada e que não volta atrás. Mas, da centenária polêmica sobre a viabilidade da obra monumental e da segurança dos seus resultados práticos salta a evidência de que o alvo em que o presidente mira é o de safar-se e ao seu governo das muitas trapalhadas e crises com uma obra de repercussão nacional e que arrastaria milhões de votos da gratidão de nordestinos, maltratados pela praga cíclica de meses de sol inclemente com os poços secos e as longas caminhadas de léguas até a fonte que anuncia o seu esgotamento.

No meu distante aprendizado, jamais concluído em 57 anos de militância como repórter político, percorri milhares de quilômetros, na companhia dos então jovens deputados Armando Falcão e o saudoso Breno Silveira, de três colegas e um fotografo, o roteiro da dramática seca de 1951. A memória retém os flagrantes e os testemunhos, registrados em dezenas de reportagens, com as fotos irretocáveis de Achilles Camacho, uma saudade entre tantas de uma longa vida.

Não tenho razões para duvidar da sinceridade do presidente, sem desconhecer as motivações políticas e a súbita urgência depois de dois anos e três meses de mandato, quando pouco se falou e nada se fez para tocar o projeto que rolou pelo descaso da burocracia.

Nem posso omitir a desconfiança quanto ao êxito do mutirão, no corre-corre de um ano e nove meses de um governo sem consistência, a arrastar as banhas de obeso dos seus 35 ministros e secretários e sem um único exemplo de incontestável sucesso. Pois se não conseguiu tapar os buracos e remendar as pontes da malha rodoviária em petição de miséria, quais são as suas credenciais para surpreender o distinto público, com a mágica repetida no desfile de ditaduras e governos democráticos?

A lógica aconselha ao presidente Lula a tentar arrumar o governo que virou uma bagunça. O Congresso à matroca, ensaia tímida reação para estancar a sua desmoralização a níveis jamais igualados, prenúncio de crise institucional. A eleição do deputado Severino Cavalcanti à presidente da Câmara não é a causa, mas a conseqüência de anos de mordomias, vantagens e a oficialização da indolência com a semana de dois a três dias útil.

Na tática do desespero de espalhar o pó ligando o ventilador, o guru do baixo-clero cutucou os procuradores, advertindo-os que deveriam começar por olhar para a própria cauda, E agora, anuncia que está concluindo a relação da parentalha dos coleguinhas credenciados para a cobertura da Câmara e do Senado e que constam da folha de pagamento em que abriga os seus agraciados. Pois que venha à público a esperada lista para a imediata reação dos órgãos de classe, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) aos emudecidos sindicatos e dos que se destacam pela defesa da censura à imprensa. A faxina deve começar com a varredura da casa.

O amuo do ex-todo poderoso José Dirceu, que se sentiu desconsiderado com o recuo de Lula na reforma ministerial, a seu pedido por ele articulada durante cinco meses, é um prego a mais na coleção de sapatos presidenciais.

Não há um minuto a perder: preces, velas e despachos reforçam o apelo ao velho Chico para que realize o milagre de irrigar o Nordeste.

 
 

O universitário Zé Luiz
    

Fomos colegas de turma nos cinco anos do curso na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, de 1943 a 1947, no venerando prédio do velho Senado, na rua Moncorvo Filho, em frente ao Campo de Sant`Ana.

Chegamos por roteiros diferentes. Órfão de mãe aos oito anos, com pai viúvo, juiz de Direito em comarcas do interior de Minas Gerais, fui morar com os avós maternos, tijucanos de poucas mudanças sempre no mesmo bairro. Por dez anos freqüentei o finado Instituto La-Fayette, na rua Haddock Lobo, do segundo ano do primário, cinco do secundário aos dois do complementar.

Não sei onde o José Luiz Bulhões Pedreira fez o seu currículo. Suponho que na zona sul. Do período de adaptação dos primeiros meses, horas nas aulas na mesma sala e nas conversas dos intervalos, não guardo lembranças precisas. Não era fácil nem difícil simpatizar com o Zé Luiz e vencer a barreira da sua timidez ou da discrição, da compostura, do horror ao exibicionismo, à grosseria e a chulice.

Por ser o oposto do expansivo acabava chamando a atenção aos mais atentos. Sempre corretamente vestido nos ternos completos dos costumes da época, de cores sóbrias, do cinza ao azul-marinho. Camisa impecável, gravatas combinando com o terno. Não se escondia, mas não tomava a iniciativa para quebrar o gelo da aproximação. Não guardei na memória de octogenário os nossos contactos iniciais. Entre outras razões pelos nossos caminhos opostos nas encruzilhadas do destino. Era evidente que o aluno brilhante, com as notas máximas em quase todas as matérias antecipava o excepcional advogado do mais destacado da turma, com renome internacional.

Para mim, a FND foi antes de tudo o choque com a realidade nacional, o aprendizado do horror à ditadura, ao Estado Novo de Getúlio Vargas e o mergulho na política estudantil. Daí a ligação com os líderes do segundo e do terceiro ano, com atuação destacada nas freqüentes manifestações, a propósito de tudo ou de coisa nenhuma, contra o regime.

Fui um estudante razoável, com razoável desempenho nas matérias do meu interesse, como o Direito Penal e o Direito Civil. No segundo ano, fui eleito para a Secretária Geral do Centro Acadêmico Candido de Oliveira – o Caco que é o nome do largo em frente à Faculdade.

E no terceiro ano, que pela tradição sempre obedecida de indicar o candidato, disputei a presidência do Caco. Meu adversário foi o José Luiz Bulhões Pedreira. Enquanto os cabos eleitorais dos dois lados se engalfinhavam na disputa do voto, percorrendo as turmas para os comícios-relâmpagos, eu e o Zé Luiz conseguimos manter a mais irrepreensível cordialidade. Afinal, consagrada na cena que guardo intacta na memória. Na apuração dos votos, com a sala repleta, os corredores entupidos, encontramo-nos por acaso e abrimos passagem até a urna juntos, em animada conversa. Fomos aplaudidos de pé pela súbita unanimidade que soterrou ressentimentos e selou a tranqüilidade da posse.

E, por toda a vida, nos distanciamentos de caminhos que raramente se cruzavam, acompanhei com emoção e orgulho a fulgurante carreira do jurista eminente, de irrepreensível compostura ética, com o mesmo temperamento discreto, avesso ao exibicionismo dos parvos, cultivado com tal intransigência que dificultava os nossos espaçados encontros.

No terceiro ano, quando presidente do Caco, fui convocado como reservista para servir ao Exército. Durante um ano e nove meses servi na Fortaleza de São João, na Urca e depois no Ministério do Exército.Pouco freqüentei as aulas. Passei de ano numa virada que emendou dias, noites e madrugadas para enfrentar a banca dos exames orais. No quinto ano, casado e pai de dois filhos, apelei para o curso noturno. E cai no jornalismo político há quase 60 anos.

Todos os anos, pela incansável dedicação do nosso colega Joaquim Simões de Faria, a turma se reúne em almoços em restaurantes ou clubes para os encontros da saudade. Advogados sem cliente vou sempre que posso para rever amigos e lamentar as baixas que abrem claros nas cadeiras vazias. No último, do 59º aniversário, comparecemos seis sobreviventes.

O José Luiz Bulhões Pedreira foi à missa na Igreja da Candelária na comemoração do meio século.de formatura. E as muitas ausências eram em parte justificadas pelo temperamento e, também pelos compromissos profissionais nos quatro cantos do mundo.

Antes de batucar este texto no computador, procurei no quadro de formatura, o retrato do bacharelando José Luiz para cutucar lembranças e saudades.Na onda de emoção que embaciou os olhos míopes no repassar de flagrantes de uma convivência de longas interrupções, não tive dúvida que o meu prezado adversário de um dia é uma das mais singulares personalidades da minha galeria de notáveis. Um homem de bem, discreto, tímido, generoso e bravo.

Para ficar no chavão, um tipo inesquecível.