Nada mais surpreende no ineditismo do comportamento do presidente Lula na sua obsessão para eleger a ministra Dilma Rousseff para sua sucessora. Mas, esta última, francamente é de derrubar o queixo:Lula vai se licenciar da presidência por dois meses para a arrancada final da campanha da candidata da sua exclusiva escolha e empurrada de goela abaixo do PT e aliados. E como o senador José Sarney, presidente do Senado é o único na linha sucessória que já anunciou que não será candidato, Lula passará o governo ao ex-presidente da República por dois meses críticos, na fase decisiva da campanha.
Nada mais espanta uma população desatenta ás futricas de Brasília e enojada com a série de escândalos que baixaram à pandega da distribuição de pacotes de notas pelo ex-governador de Brasília, José Inácio Arruda e escondidas nas meias, nas cuecas, nas calças dobradas dos aquinhoados com as fortunas desviadas dos cofres públicos.
Tancredo Neves
Ontem no fim da tarde, fui convocado pela editoria política do JB para escrever um artigo para a edição de hoje, sobre o presidente Tancredo Neves, na comemoração do seu centenário. Teria no máximo uma hora para batucar no computador uma matéria que, com as fotos, encheriam uma página. Fiz o que pude puxando pela memória. Os cortes de praxe não chegaram a deformar o texto. E que aqui reproduzo, com as saudades não apenas de um amigo de meio século, mas do mais completo homem público que conheci.
O mais completo homem publico que conheci
Villas-Bôas Corrêa
Poucos dias antes do dia da posse de Tancredo Neves na presidência da República, passei uma manhã conversando, na ampla varanda do edifício na Avenida Atlântica, como mais completo homem público que conheci em 60 anos na militância como repórter político.
À vontade, como se estivesse levantado da cama, Tancredo ainda de pijama, com o robe desbotado, chinelos nos pés descalços, deu ao foca uma aula que nunca esqueci. Propus o tema em que embatucara: durante a campanha, numa dos achados perfeitos, como setas no coração do povo, Tancredo lançou o apelo de “não vamos nos dispersar”, complementado pelo “é proibido gastar”, como o brado de convocação contra a espiral inflacionária que disparava rumo ao infinito. O que me parecia contraditório era o apelo à poupança com o inchaço do ministério que estava quase concluído com generosa distribuição de pastas aos aliados recolhidos em dias e madrugadas de articulações.
A resposta estava na ponta da língua: o ministério da posse que não houve era para garantir sólida maioria na Assembléia Constituinte que 1987, que elaborou a Constituição promulgada pelo presidente José Sarney em 5 de outubro de 1988.
Mas as nossas relações cultivadas na Câmara e no Senado eram mais antigas. E passaram pelas muitas etapas de uma vida dedicada ao interesse do país. Cutuco a memória para selecionar alguns flagrantes. No lançamento do matutino O Dia de Chagas Freitas fui o número um da lista dos contratados para a dobradinha como repórter de A Notícia. E para atender ao jornal popular do editor, Santa Cruz Lima, criei os Comandos Parlamentares de A Noticia e O Dia. Às quartas-feiras, os comandos saiam em camionete da empresa com dois a quatro deputados e senadores para a visita de surpresa onde quer que haja a promessa de um bom assunto.
Tancredo Neves era ministro da Justiça no Governo do presidente Getúlio Vargas, quando recebi, por telefone, em voz abafada, a denúncia das violências, de surras com porretes e outras torturas de um recolhimento de menores do Serviço de Assistência aos Menores – o SAM de amaldiçoada memória - numa rua no Méier. Não hesitei em telefonar para o ministro da Justiça e convidá-lo a visita à noite de surpresa no covil do SAM. Tancredo não hesitou um segundo. Marcamos para o dia seguinte a visita que saiu do Ministério da Justiça, com cobertura dos militares lotados no gabinete.
Chegamos por volta da meia-noite. No velho casarão do SAM com o portão trancado por cadeado. O ministro mandou arrombar e entramos. A impressão era deprimente. Camas sujas, algumas sem lençol, com meninas empilhadas como sacos. Um ar de desmazelo, de bagunça e falta de asseio. Mas, nenhum sinal aparente de violência. Enquanto o ministro conversava com a diretora despertada por telefone, aproximei-se de um grupo de internas e, em sussurro, confessei o meu desapontamento: nenhuma evidência de pancadas. Falando baixinho, a interna deu a dica: disfarce e levante o colchão da cama da inspetora Eva ali no canto. Avisei ao fotografo Achilles Camacho e levei o ministro até a cama. Quando levantei o colchão dezenas de porretes, com as marcas de sangue, de cabelos, de pedaços de roupas era a confirmação documentada das surras e maus tratos.
O ministro Tancredo Neves mandou fechar a arapuca no dia seguinte para reforma, abriu sindicância para punir as culpadas.
Não foi a única vez. Em outro Comando com o ministro da Justiça, Tancredo Neves, no Manicômio Judiciário, na rua Frei Caneca, no flagrante de loucos perigosos enjaulados no porão de paredes cegas com grades no teto, um preso se ensaboava com excrementos. Tancredo fechou a cafua no dia seguinte.
Alonguei estas lembranças pessoais para tentar revelar episódios esquecidos.
Muito mais teria para contar. Na campanha para governador de Minas, acompanhei o candidato Tancredo Neves num giro pelo Triângulo Mineiro e em três matérias de primeira página ousei antecipar a sua vitória. E recebi do candidato a reprimenda amistosa pelo risco de uma reviravolta em campanha que dividia o eleitorado.
E nunca me cheguei a entender a série de erros no martírio das operações antes da posse que não houve. Eleito presidente, com um problema intestinal crônico. Na véspera, em Brasília, almocei com os amigos e compadre José Aparecido de Oliveira, Carlos Castello Branco e dona Antonia, secretária de absoluta confiança de Tancredo. Castello surpreendeu-nos com a informação de que o diretor do Jornal do Brasil, Nascimento Pinto, passara a informação por telefone de que Tancredo Neves teria que ser operado de uma diverticulite. Dona Antonia despistou: o presidente teria que fazer uma pequena intervenção cirúrgica, nada grave ou urgente.
Depois de cinco operações em meio à bagunça da sala de operações invadida por deputados, senadores, ministros, curiosos, repórteres, o presidente Tancredo Neves morreu ante de tomar posse em 21 de abril de 1985.
E mudou o curso da história.
.