O baixo nivel da campanha
    setembro 3, 2010

O baixo nível da campanha

Villas-Bôas Corrêa

O noticiário político nos principais jornais do país está migrando para as páginas de polícia. Nem seria necessário, pois os leitores atentos já arrumaram a cabeça, enquanto cuidam do enjôo que embrulha o estomago. Qual é o tema da troca de setas envenenadas entre a favorita virtualmente eleita candidata Dilma Rousseff – cria do presidente e o seu imbatível puxador de votos? Projetos, itens do programa de governo? São assuntos enfadonhos que não interessam ao respeitável público, já conformado e decidido a levar na troça o desfile dos que mendigam o seu voto na baixaria dos programas de propaganda eleitoral.

Nesta semana, a denúncia da quebra de sigilo fiscal na receita de Verônica Serra, filha do candidato tucano de oposição, José Serra, promoveu a política a manchete da primeira página dos jornais. E, certamente, serão a matéria de capa das revistas. Não ficamos por aí. A Polícia Federal investiga também a violação das contas no Banco do Brasil, do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afinal baixou a terra e determinou que a Polícia Federal acelere as investigações na peneira esburacada da Receita, deixando o secretário Otacílio Cartaxo na situação de quem perdeu o rumo no túnel escuro.

A candidata Dilma Rousseff nas muitas alterações no seu esquema de campanha, passou a evitar debates com os demais candidatos, escondida na torre de marfim do seu favoritismo nas pesquisas. E comemora a decisão do corregedor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) , Aldir Passarinho que arquivou o pedido do PSDB para cassar o registro da candidata governista.

Não é necessário mais para o flagrante do baixo nível desta azarada campanha. Mais grave e desesperante é o nível da absoluta maioria dos candidatos que desfilam no programa de propaganda eleitoral. O voto passou a ser uma obrigação penosa, da qual estou dispensado pela idade. E pela primeira vez não votarei.

O que parecia impossível é mais do que provável, mas inevitável: o próximo Congresso será pior do que o atual, até agora o recordista absoluto.

 
 

A modéstia pede passagem
    setembro 2, 2010

A modéstia pede passagem

Todos contam a sua história, também vou contar a minha. Na abundante cobertura da imprensa sobre a migração do centenário Jornal do Brasil para o JB Digital os repórteres e cronistas que foram de cativante amabilidade nos votos de sucesso ou nos resmungos de mau agouro, na sua quase totalidade, com raríssimas exceções simplesmente desconheciam a historia do JB.


No meu caso especial, a modéstia da minha biografia reclama a correção das omissões. Não fui lembrado nem citado em nenhum jornal. Respirei com a exceção do editorial da Associação Brasileira de Imprensa, a nossa ABI, no texto que dispensa a assinatura do autor, de identificação transparente da segurança do presidente Maurício Azedo.

A começar pelo crédito ao meu saudoso amigo, o escritor e acadêmico Odylo Costa, filho, como o responsável pela reforma do JB, que “a partir da segunda metade dos anos 50, liderou, à frente de brilhantes profissionais, a modernização da antiga folha dos anúncios classificados.” E, linhas adiante: “Desde a reforma comandada por Odylo e aprofundada por seus sucessores no comando da redação – Jânio de Freitas, Omer Mont´Alegre, José Ramos Tinhorão, Nilson Lage, Alberto Dines” - e aqui acrescento Marcos Sá Corrêa – entre outros -, o JB foi o grande paradigma da imprensa diária de todo o país”.

Peço passagem para acrescentar o meu depoimento. O meu amigo Odylo foi decisivo da minha afirmação profissional. Desde que, em março de 1948, subi a escada do prédio na Avenida Rio Branco, levando uma carta do meu saudoso sogro, Bittencourt de Sà para Candido de Campos, o diretor de A Notícia, o vespertino popular com grande tiragem acima de 100 mil exemplares, pedindo uma vaga para o genro, bacharel que nunca advogou. Fui encaminhado ao diretor de fato, Silva Ramos para a mais rápida estréia, em que o Odylo foi o anjo-da-guarda, amigo de freqüentar a casa, que me convidou para trabalhar em todos os jornais e revistas em que foi diretor. Foi assim no Diário de Notícia e no Jornal do Brasil.

O JB ocupava amplo espaço no prédio da Avenida Rio Branco, próximo da rua do Ouvidor. Eu já deixara o Diário de Notícia e trabalhava na Sucursal de O Estado de S. Paulo, como repórter político e depois diretor. Odylo não demorou com o convite para trabalhar no JB, na fase da reforma do jornal. Não tinha nenhum motivo para deixar o Estadão. Afinal, chegamos a um acordo: eu faria um artigo diário.

No JB dos anúncios, a coluna política – Coisas da Política - limitava-se a publicar as notas oficiais dos partidos. Fui o primeiro redator político do JB, assinando Coisas da Política, a coluna diária que depois alçaria ao cume da Coluna do Castelo, o Castelinho, o maior repórter político do país.

A minha via-crúcis, nos 60 anos de ininterrupta militância, inclui anos como comentarista político do jornal da TV - Manchete, do Jornal de Vanguarda de Fernando Barbosa Lima, de O Dia de Chagas Freitas e agora deste JB Digital. E 30 anos de colaboração em A Voz da Serra, de Nova Friburgo.

 
 

Quem é o destinatário do recado de Lula?
    agosto 31, 2010

Villas-Bôas Corrêa

O presidente Lula tem todos os motivos para estar rindo à toa com a campanha eleitoral e os índices das pesquisas do Ibope. A candidata Dilma Rousseff, da sua exclusiva escolha, sem consultar a ninguém, com o PT mais abandonado do que craque na decadência de fim de carreira, está não apenas virtualmente eleita com sobra de milhões de votos, como passa a impressão que já assumiu a Presidência, quando anuncia os seus projetos para o primeiro mandato de quatro anos.
Mas, é aí que o calhambeque patina como em estrada de terra enlameada pelas chuvas. E são muitas neste país dos milagres governamentais. `As vezes, na euforia que ilumina o rosto da sucessora, ela não mede as palavras e passa do risco da prudência.
Lula olha no espelho e analisa as rugas de alguns contratempos. E, quem é o destinatário de um dos seus últimos pronunciamentos, num tom amargo de quem cobra a gratidão da candidata que escolheu e que inchou com o seu apoio.
Vamos a transcrição, palavra por palavra: “Tem gente que fica falando aqui como se eu já tivesse ido embora, mas ainda tenho quatro meses e alguns dias de governo. Alguns falam como se eu já tivesse ido. Tem gente que se mata para ser presidente por um dia e eu ainda tenho quatro meses e alguns dias. Ainda tenho caneta para fazer muita miséria neste país.”
Certamente que o presidente Lula não está mirando no candidato da oposição, o ex-governador tucano José Serra. Despencando nas pesquisas, entre outras razões pela campanha equivocada, sem nenhuma mensagem de repercussão popular ou de denúncias devidamente apuradas sobre as falhas dos quase oito anos do mandato bisado do presidente Lula. Mas, se não é com José Serra, em quem Lula espeta a alfinetada?
Dilma tem escorregado na euforia. Tomou posse antes da hora, fala como a presidenta em exercício. E desobedece aos sinais de advertência quando estende as mãos à oposição: “A gente desarma o palanque e estende a mão para quem for pessoa de boa vontade e quiser partilhar desse processo de transformação do Brasil.” E, a uma pergunta dos repórteres se o candidato José Serra estaria entre os que ela estende a mão, respondeu raspando a trave: “Você pergunta a ele. Se ele quiser compartilhar, perfeitamente.”
Claro, que nada que não se acerte numa boa conversa. Mas, a candidata escolhida e apoiada por Lula, necessita tomar cuidado. Em fim de mandato, as suscetibilidades se exacerbam. Qualquer palavra mal colada parece deboche ou ingratidão. E pode entornar o caldo.

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Dilma no barco de Lula
    agosto 30, 2010

Dilma despacha em casa

Villas-Bôas Corrêa

Sejamos justos: a candidata Dilma Rousseff não assumiu virtualmente a Presidência da República, numa estranha dobradinha com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por um açodamento da vaidade, que não suportava a espera diante do que considera um fato consumado.

Na reta final dos dois últimos meses, as pesquisas expuseram o quadro de uma evidência que entrava pelos bugalhos: enquanto ela galgava os degraus em disparada, o candidato José Serra despencava como jaca madura.

.Não há no horizonte um piscar de esperança para o tucano José Serra, excelente administrador como demonstrou no governo de São Paulo, mas que ficou sem tema e sem discurso, sem ter a quem atacar.

Na aflição do afogamento, tentou acelerar o ritmo das braçadas, mas já estava com água pela canela. Dilma voa acima da maioria absoluta, vai despachar o segundo turno.

E não tem mais nada a esconder. Só falta o decreto: o secretário da Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, foi convidado e trabalha a pleno vapor na montagem de uma proposta de reforma da Previdência, a ser apresentada ao Congresso assim que a candidata Dilma assumir a presidência
. No mesmo lance, salta aos olhos que o autor da reforma da Previdência será incumbido de executá-la como ministro da Fazenda.

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A presidenta Dilma no treinamento para o exercício do cargo, retoca a sua imagem

 
 

As emoções do horário eleitoral
    agosto 21, 2010

O mais criativo desafeto da democracia não inventaria um veneno mais poderoso do que o horário eleitoral gratuito. A campanha já se arrastava no terreno enlameado dos debates entre os presidenciáveis. Cada qual com o seu ponto fraco, excluindo-se o Plínio de Arruda Sampaio, que é um show à parte, com o seu bom humor e a irreverência. E, por outras razões a candidata Marina Silva do Partido Verde (PV), que defende a preservação do meio ambiente.


A favorita nas pesquisas, em disparada para ser a primeira presidenta da história deste, Dilma Rousseff, estréia um vestido a cada dia, como em desfile de modas, está mais comedida, embora não perca a oportunidade de criticar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pela herança maldita das rodovias intransitáveis, os portos em cacarecos e as enchentes que vêm castigando o país, e que parece mandinga das que acendem velas nas encruzilhadas ou as filas que varam as madrugadas nos postos de saúde ou nos atrasos dos trens. Claro, da favelização das grandes e médias cidades e do consumo de drogas, vendidas em todas as favelas ou entregues em domicílio.


Os programas da candidata Dilma são bem editados, pois a turma competente. Mas, dá voltas para não tocar no tema proibido da desmoralização do Congresso, com estragos no Executivo, entalado em denúncias como a dos cartões corporativos para a farra das compras e os gastos do primeiro escalão.
Não é ainda o mais preocupante, embora uma coisa puxe as outras. O que atordoa como uma pancada na cabeça é que não há nenhuma esperança de uma faxina até onde se consegue enxergar em meio ao nevoeiro da mediocridade. Por respeito à compostura, o horário eleitoral gratuito deveria ser submetido à censura prévia que respeitasse as criticas, mas excluísse as baboseiras. Pouco sobraria, mas é melhor do que o show que somos obrigados a suportar.


O Congresso não tem cura por muito tempo. Os candidatos à Presidência não podem criticar os senadores e deputados, dos quais dependem como aliados na campanha eleitoral e que o eleito terá que ser entender no exercício do mandato. Ou nos dois mandatos da praga da reeleição. E desde já acertando os ponteiros com os candidatos.


A reforma política que o presidente não cuidou por falta de tempo nas suas passagens por Brasília e por desinteresse: para que mudar se o povo está satisfeito. Com 80% de aprovação nas pesquisas, o sonho da volta daqui a quatro ou a oito anos embala as suas noites nos giros pelo mundo.

 
 

O pião entrou na roda pião, bambeia pião
    agosto 20, 2010

Nem os debates entre candidatos nas redes de televisão ou o esforço dos repórteres político para arrancar uma declaração crítica de candidato contra o adversário que o ameaça nas pesquisas conseguir animar uma das mais insossas campanhas da história deste país. Alguns até procuram aquecer a água morna, mas, debalde. Além das picuinhas tão doloridas como picada de agulha, o realejo repete à exaustão a mesma toada de viola de uma corda.


O candidato José Serra, ex-governador de São Paulo e oposicionista repetente, é um militante com longa militância política. Seja no Legislativo, como no Executivo. E, como é lógico, dirige a sua criticas ao presidente Lula e à candidata Dilma Rousseff. Mas, não vai além do limite. Nem contra a adversária governista, uma senhora que dispara na liderança das pesquisas, como franca favorita ou contra o presidente Lula e os quase 80% de aprovação em todas as pesquisas.


Mas, estes não são as razões principais. É só ir mais fundo para encontrar as explicações: os candidatos estão amordaçados pelas singularidades desta campanha de formato inédito. Para a oposição, denunciar as muitas maracutaias governistas seria a larga saída decorosa. Mas, como baixar o porrete no governo se são farinha do mesmo saco. E, se a oposição fechar os olhos à prudência e tentar denunciar os escândalos dos parlamentares das mordomias, dos jabaculês, da semana de dois a três dias úteis, das passagens aéreas semanais para o fim de semana nas suas bases eleitorais, do cacho de regalias dos gabinetes individuais com assessores de coisa nenhuma, verbas para revistas, jornais, telefone e selo, assessores, apartamentos ou a verba para qualquer coisa,


O outro desafio é ainda mais cabeludo. Além da desmoralização do Congresso e dos políticos, a recuperação de Brasília só seria possível com a convocação de uma Assembléia Constituinte Extraordinária para a faxina dos três poderes e a, no mesmo embalo, de Brasília, a capital no Planalto Central do sonho do retorno do JK e que a demagogia, a irresponsabilidade, a coleção de governadores especialistas em esconder pacotes de notas nas, nas calças transformou favelização de mais de três milhões de habitantes. (

Vamos esquecer por mais quatro anos e quebrados. Quando o pião entra na roda a cantiga ensina que o melhor e bambear o pião.
E quem souber como se bambeia um pião do tamanho do Brasil não deve guardar a receita.

 
 

O batuque das contradições
    agosto 18, 2010

A nostalgia que tolda o fim do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provoca as mais extravagantes, curiosas e imprevistas reações. E no embalo do saudosismo apressado, fura a barreira do senso comum para pairar nas alturas para a autojustificação nos monólogos com o espelho.

Agora, por exemplo Lula resolveu explicar as razões de suas muitas
viagens pelo país, muitas, mas nem todas coincidindo com as agendas da sua candidata, a ex-ministra Dilma Rousseff. No programa de rádio “Café com o presidente”, Lula soltou-se no improviso e jogou no ar um ditado da esperteza da roça: “Quem engorda porco é o olho do novo”. Ditado que aprendeu muito cedo, ainda criança. Depois das visitas às obras das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau, em Rondônia. Insistiu: “se a gente é governo, contrata uma obra e não acompanha essa obra, fica à mercê de coisas que independem da vontade do governo.”

O presidente e a candidata já foram a Pernambuco e visitaram,em Salgueiro, a fábrica de dormentes e a usina de britagem no canteiro de obras da Transnordestina. E amanhã, em Sorocaba (P) inaugura o campus da Universidade Federal de São Carlos.

E, como é claro, Lula aproveita as viagens para fazer a campanha eleitoral da candidata Dilma.

Lula cutucou o candidato José Serra, do PSDB, o principal adversário da oposição, apelando para sua experiência: “Quanto tinha que fazer campanha contra o Plano Real, o povo votou no Real e eu me lasquei” – referência à campanha de 1994.

E realmente numa informação nova, que não deve sobreviver por muito tempo, Lula anunciou seu plano de vida para depois terminar o segundo mandato: “Eu vou deixar o governo, mas vou continuar andando pelo Brasil. Não vou para Paris, para Harvard, para não sei onde. Eu vou para o sertão, viajar para o Brasil inteiro para ver o que eu fiz e o que não fiz.”. E, modesto: “Se tiver alguma coisa errada vou ligar para a minha Presidenta para dizer: olha tem umas coisas erradas, que eu não consegui fazer. Pode fazer, minha filha.”

Creio que o presidente Lula tiraria melhor proveito deste surto patriótico, de surpreendente bom senso, ampliando a faxina para corrigir erros e suspeições que salpicam o segundo mandato como nódoas em pano branco, E relegando a contradição do projeto das viagens pelo país de quem consumiu metade do mandato viajando pelo mundo para construir a fama do maior líder do planeta. E só depois de saciada a justa vaidade, se deu conta das ausências, da impaciência para a leitura de documentos, o horror a despachar processos com a simples assinatura na linha indicada pelo assessor ou o ministro. Muitos contam pelos dos de uma das mãos às vezes em que estiveram no gabinete presidencial.

A denúncia da farra de gastança com os cartões corporativos, um segredo de estado, não foi apurada nem desmentida. Dispararam em gastos sigilosos da mixaria de R$ 18,4 mil, em 2007 para o esbanjamento escandaloso de R$ 3,254 milhões em 2010, um salto acrobático de 98,2%.

Os gastos abertos fizeram o roteiro inverso, com o sopro dos cartões secretos: baixarem de R$ .493 milhões em 2007 para R$ 5,7 mil em 2010. Um caso de migração do pântano para a terra molhada.

 
 

O mestre e o discípulo
    agosto 13, 2010

Pançudo, língua solta, com grande consumo de palavrões, o ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, candidato crônico à Presidência da República, foi dos tipos mais contrastantes do modelo clássico nos seus muitos anos de militância.
Nas suas constantes viagens ao Rio, então capital do Brasil, era a garantia de manchete nos vespertinos espalhafatosos, com as entrevistas sem papas na língua. Hóspede dos apartamentos do anexo do Copacabana Palace Hotel, nos últimos anos de militância trocou o mais luxuoso hotel da então capital por um apartamento na Glória, modestamente mobiliado, onde recebia os visitantes nu em pêlo. Assim o encontrei várias vezes, uma em subi que no mesmo elevador com o então vice-presidente Café Filho, no governo do presidente Getulio Vargas.

Tocamos a campainha e fomos anunciados ao ilustre governador paulista e presidente do PSP, o Partido Social Progressista. Ademar não estava nu. Mas, sentado numa cadeira de balanço, com uma calça de pijama amarfanhada com sinais de muito uso e uma jovem gorducha e seminua montada nas suas pernas. Percebendo o constrangimento do vice-presidente Café Filho, empurrou a amante com um pé nas nádegas e o comentário: “O nosso vice é muito envergonhado para ver certas coisas”. Com a calça de pijama, o peito desnudo e descalço atendeu a vice-presidente, por ele indicado ao candidato Getúlio Vargas na sua volta à Presidência da República, na sucessão do presidente Dutra, em 31 de janeiro de 1951.
Na calçada do Copacabana, recebeu alguns repórteres para uma rápida entrevista. E lá pelas tantas, explicou como exercitava a sua liderança: “O líder é o que aponta o caminho”. Apontou para um ponto com o dedo e com a voz de comando: “É por aqui, macacada”.

Não foi obedecido pelo eleitor, apesar da grande votação. E morreu praticamente esquecido, depois de percorrer o áspero caminho da decadência.
Não seria justo comparar o governador Adhemar de Barros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Exceto em alguns cacoetes de líder no relacionamento com o seu desprezado Partido dos Trabalhadores, ao mesmo tempo mimado com empregos, sinecuras e outras benesses e, agora, na imposição da candidatura de Dilma Rousseff para a sua sucessão, com o toque de ineditismo da estréia sem nunca ter disputado nenhum cargos eletivo, nem de suplente de vereadora. Os notórios aspirantes do PT não foram ouvidos nem comunicados. A pílula amarga teve que ser engolida em seco, sem fazer careta, o riso forçado de quem engole café sem açúcar.

Nos solavancos da campanha, as denúncias da orgia de gastança com os cartões corporativos, dispensados da prestação de contas, um novo cacoete de discutível moralidade, mais um pouco e será um carbono do estilo do Adhemar de Barros, que o sucessor Jânio Quadros explorava nos comícios da campanha, apontando para uma gaiola com um rato.

E a molecagem da cantada em prosa e verso:

Adão foi fTeito de barro
De um barro bom e batuta
Adhemar também é de barro
Mas, que barro filho da rima

 
 

Lula enquadra os ministros
    agosto 11, 2010

O presidente Lula acaba de bater todos os seus recordes de caradurismo nas duas últimas semanas, quando decidiu passar um pito nos ministros que descuidam das suas obrigações e exigiu que reajam com dobrada veemência aos ao ataques da oposição ao governo na campanha, com especial atenção nos debates e entrevistas na propaganda eleitoral gratuita em rede nacional de rádio e televisão.

Ora, não há registro na história deste país de um presidente mais relapso nos seus deveres. Para começo de conversa, não lê nem despacha processos, com o horror pelos livros e por qualquer rabisco. Quando lê algum discurso, escrito pelos assessores, o texto em letras garrafais obriga a troca de páginas a cada parágrafo. No gabinete, em Brasília, recebe visitas e assina papeis sem ler, confiando na ex-ministra Chefe do Gabinete Civil, Dilma Rousseff, sua candidata. E, como adora um bom papo e é um conversador desembaraçado e de bom humor, não faltam ouvintes do cordão que cada vez aumenta mais.

Nenhum presidente viajou tanto, seja nos vôos domésticos para as visitas demagógicas às obras PAC ou nos giros internacionais da sua prioridade como aspirante à liderança mundial. É dos líderes mais populares nos cinco continentes. Na maioria das suas viagens com todos os requintes de conforto, sejam como hóspede dos visitados ou nos apartamentos de luxo dos melhores hotéis de cinco estrelas do mundo.

Na toada marota do faça o que eu digo e esqueçam o que faço, o presidente Lula na terceira reunião ministerial do ano, recomendou aos ministros que arregaçem as mangas e se empenhem nas tarefas das suas áreas. O conselheiro bissexto advertiu os ministros e secretários para a ofensiva da oposição que tentará “e crise aérea, com aeroportos superlotados e a bagunça dos cancelamentos e atrasos de vôos.


Enfatizou que uma falha que facilite um ataque da oposição que atinja à campanha da sua candidata. O pito atingiu em cheio o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que se omitiu na recente crise dos vôos cancelados.

O governo reonder a todos os ataques que atinjam a candidata Dilma. A candidata tem que cuidar da sua campanha. E foi enfático: “nunca perguntei a algum ministro se tinha candidato. E vocês sabem que eu tenho candidata. Quero é que os ministros defendam o governo”.

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O caso da gstança com os cartões corporativos? Pelo visto, não se fala mais num assunto delicado e inexplicável.

 
 

O escândalo dos cartões mágicos
    agosto 9, 2010

A campanha eleitoral que entrou na reta de chegada, com a rodada das urnas eletrônicas para o primeiro turno em 3 de outubro, parece que subiu à cabeça do governo e da oposição, que perderam a vergonha no caminho e demonstram total indiferença pelas mais escabrosas maracutaias.

Nenhum mais didático, depois do pífio debate na TV Bandeirantes, do que a denúncia, devidamente documentada na edição de O Globo de domingo, dia 8, sobre “Os gastos ocultos da Presidência da República” . Neste ano eleitoral, como explica a matéria da terceira página do primeiro caderno, a Presidência fechou a sete chaves a caixa mais negra do que a asa da graúna, onde são guardados e escondidos os misteriosos gastos e desperdícios do gabinete presidencial com o mágico cartão corporativo, que paga todas as despesas sem dar confiança a ninguém, muito menos à desprezada opinião pública.

Para facilitar o livre acesso ao cofre da Viúva, as regras da contabilização dos gastos da Presidência da República foram rasgadas para com a mágica da redução para apenas 1,8% da gastança do presidente Lula, de sua família e de assessores próximos, serem detalhados para a bisbilhotice da mídia e da opinião pública no acanalhado Sistema Integrado de Administração Financeira – SIAF – com o nome, sobrenome, dispensando-se o apelido. Do total modesto de R$ 3.259 milhões que se evaporam com os gastos do governo neste primeiro semestre, apenas R$ 5,7 milhões são registrados .

Quanto aos restantes R$ 3,254 milhões, ou 98,2% do total, o SIAF nos faz o favor de comunicar que registra a forma de pagamento, em saque ou fatura. E mostra o rosto aberto no sorriso que as demais informações são protegidas pelo sigilo, “nos termos da legislação, para a segurança da sociedade e do Estado”.

De nossa parte, a sociedade agradece, com lágrimas rolando pela face, os maternais cuidados do Siaf com os gastos de sovina do dinheiro público. Cuidado permanente, no dia e a noite da vigília cívica.

Nos idos esquecidos de 2008, a denúncia maldosa do excesso de gastos com os cartões corporativos por autoridades do topo do governo provocou a convocação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso que deu em nada, na forma do louvável costume. Só a então ministra especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro foi demitida porque passou do limite ao pagar o seu cartão corporativo despesas pessoais no free-shop.

A Casa Civil da Presidência tem explicação para tudo. E faz as contas: de janeiro a julho de 2010 foram gastos pelos cartões corporativos R$ 3.259 milhões. Em igual período de 2009, R$ 4,684 milhões.

Uma redução e tanto!