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A decadência da cidade abandonada
    novembro 18, 2008

Se fosse de encomenda poderia esperar mais alguns dias. Mas, a tempestade que castigou a “ex-Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil”, das 16h30 às 19h30, da segunda-feira, dia 17, com minutos para mais ou para menos do jargão das pesquisas de opinião pública, foi o fecho perfeito para o segundo ano da reeleição do presidente Lula e do governador Sergio Cabral e como que o réquiem para o apagar das luzes da controvertida administração do prefeito César Maia.

Toda a cidade, com sobra para os arredores, das praias aos morros favelizados e dominados pelas gangues do tráfico, da zona sul esquecida pelo policiamento, paraíso dos flanelinhas que cobram o que querem para não tomar conta de carro, ao centro em que os moradores de rua armam as barracas para passar a noite, pedir esmola ou “fazer um ganho” nos pequenos furtos, mergulhou no caos, com as ruas entupidas e filas sem fim de carros, ônibus, caminhões, vans, motos, bicicletas e pedestres, com água a mais de um metro de altura, por vezes passando por cima do teto dos automóveis, durante horas de aparvalhado e desmoralizante abandono.

Como no colapso de uma invasão pelo inimigo, nada funcionou durante horas, E em cada esquina, em cada canto de rua, na orla marítima ou nas áreas a ausência do governo denunciava a falência do poder público.

Em plena Cinelândia, antigo coração boêmio do Rio cantada em prosa e verso, a rachadura de um vitral da Gaiola de Ouro, apelido da Câmara Municipal de muitos pecados, inundou o belo saguão batizado com o nome ilustre de José do Patrocínio, respingando no painel pintado por Eliseu Visconti e no busto do ex-prefeito Pedro Ernesto.

A vereadora Andréa Gouveia Vieira implorou ao céu que “a chuva represente uma lavagem na Câmara, uma renovação”. Como se pedisse ao Senhor que se ele não pode limpar a Câmara por dentro, limpe por fora.

Cortes de energia deixaram na escuridão, durante horas de medo, vários bairros, como Jacarepaguá, Santa Cruz, Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Campo Grande, Santa Teresa, Cosme Velho, Ilha do Governador e outros menos citados.

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A imagem da cidade com imensas áreas submersas, como a Avenida Presidente Vargas que virou mar ou o Aterro do Flamengo uma lagoa é o flagrante-denúncia de um modelo falido de administração, incapaz de começar pelo planejamento de obras que ataquem, em pinça, os problemas crônicos que atravessam tempos de promessas e a monótona repetição de fracassos.

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Não é pedir muito aos que foram atendidos quando prometeram milagres para ganhar votos, que se dêem ao respeito, com aquele mínimo de vergonha que colore o rosto diante de denúncias como a da cidade entregue ao saque, aos assaltos e prisioneira das avenidas e ruas intransitáveis com qualquer tempo.

 
 

A última a saber
    

A ministra Dilma Rousseff é uma caixa de surpresas. Na sua biografia de jovem senhora, a cada dia uma nova e forte característica enriquece a singularidade da sua personalidade e surpreende os que se gabam de conhecê-la.

Mas, o melhor desempenho do seu repertório tem os créditos divididos com o presidente Lula, um ator à altura da sua Chefe da Casa Civil.

E tudo é fora do comum no mais rápido flagrante que vale por um longa metragem. No cenário austero do Vaticano, no gabinete do Papa Bento XVI, depois das bênçãos ao casal presidencial, com dona Marisa com a cabeça coberta pelo véu negro do protocolo, o presidente Lula abriu a guarda para rápidas declarações a cinco jornalistas italianos.

E que estavam com a pauta em dia, pois a primeira pergunta foi sobre a escolha da ministra Dilma Rousseff como candidata à sua sucessão e ali, a dois passos do pequeno grupo composto pelo presidente e os repórteres.

Lula não negou fogo nem escorregou na pizza. Mas, não foi além da conveniência. Reconheceu que a ministra Dilma era uma excelente candidata. E avançou um palmo: “E é a minha candidata”. Na batida, engatou a marcha reduzida sem mudar de rumo: “Eu ainda nem falei com ela”.

A ministra ou muito mais a candidata estava a dois passos do presidente. E não mexeu um músculo do rosto engessado e semicoberto pelo véu negro. Distanciou-se do grupo e ficou longe dos jornalistas estrangeiros e da turma da casa.

Não é fantástico? A candidatura Wilma está exposta ao sereno há meses, em açodamento que preocupa a sua ainda reduzida torcida palaciana.

Nas duas últimas reuniões do Diretório Nacional do esbagaçado PT, o amplo debate sobre a sua candidatura bailou da discrição da primeira abordagem com a sucessão dos apoios e do encolhimento dos candidatos para a saliência das ambições na duplicidade do apoio à candidata de Lula a sonsa ressalva que é “sagrado o direito de qualquer companheiro apresentar a sua candidatura”.

Não é por aí a canoa pode virar. Nos próximos dias Lula definirá a sua tática: ou mantém a candidata na caravana das visitas às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), confiada à gerência da candidata como sua plataforma eleitoral ou reduz a marcha para repassar a prioridade à mobilização do governo da gastança enfrentar a crise financeira que enlouquece o mundo.

A ministra Dilma está em todas. E não sabe de nada sobre a sua candidatura.
Lula não lhe disse uma palavra. E o presidente não mente jamais.

 
 

Lula deve reassumir já a Presidência
    novembro 14, 2008

Coisas da Política

Com a alma de católico praticante reconfortada pela benção do Papa Bento XVI, que o recebeu em audiência especial na biblioteca particular do pontífice, no Vaticano, para a conversa com a solenidade da agenda previamente aprovada e que incluiu tema de evidente interesse, como a paz mundial, direitos humanos, meio-ambiente e igualdade de direitos e de aplaudido pelo seu desempenho como líder do grupo de paises emergentes, na reunião do G-20, em Washington o presidente Lula está de volta à Brasília para reassumir o seu lugar no Palácio do Planalto e enfrentar o desafio de uma ameaça de crise interna que pipoca por todos os lados.

Não há prioridades num quadro de emergência. Mas, pela sua delicadeza, o desconforto evidente da ministra Dilma Rousseff reclama cuidados imediatos. Se o presidente não obedece à hierarquia e, nas ausência prefere deixar em sossego o vice-presidente José de Alencar, desta vez o peso foi demais para a ministra-candidata. A partir da evidência que entra pelos bugalhos e que passará pela prova de fogo nas próximas pesquisas, que se repetirão todas as semanas até as urnas, em 2010, a candidata lançada pelo presidente e que ensaia a campanha nas viagens domésticas para conferir as obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC que pouco se vê longe dos canteiros do Norte e Nordeste ainda não emplacou.

O clima de desconfiança é corrosivo no clima de futricas de ambições que quebram o gelo do constrangimento e se oferecem ao sacrifício de servir ao país. Nada mais sintomático do que a última reunião do Diretório Nacional do PT, realizada em Brasília, com o cínico pretexto de discutir a conveniência da antecipação do lançamento da candidatura da ministra Dilma Rousseff. Ora, a candidatura da Chefe da Casa Civil já foi lançada há mais de três por quem pode e manda, que é o presidente Lula. Confirmada em vários pronunciamentos públicos. E levada na comitiva presidencial nas viagens pelo país como candidata e a responsável pelas obras do PAC.

Portanto, basta enxugar os pingos do chuvisco petista para que se exponha a ansiedade represada dos pretendentes ao lugar da ministra. O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP) quebrou a vidraça com a advertência de estudada ambigüidade: “O nome mais óbvio é o da ministra Dilma, que é o nome do presidente Lula” além de outras qualidades que desfilaram arrastando os pés: tem postura, bom relacionamento com o PT e disponibilidade para o debate.

Limpou a garganta, pigarreou para estimular a ousadia: “Ninguém é contra a candidatura da ministra, mas não podemos democraticamente excluir outra candidatura”.

Estamos, pois, oficialmente informados de que o PT ainda não tem candidato nem candidata à sucessão de Lula.

Ocorre que o presidente não terá vagares para desperdiçar o seu tempo com o ensaio de rebeldia, que não vai além de uma pirraça de menino birrento.

Pois encontrará o país atolado até o gogó na bagunça da mistura da crise da economia mundial, cada vez mais preocupante e com a baderna que envolve os três poderes. O Senado, com a maioria em cacos pela disputa da presidência, aprovou projeto criando um índice de reajuste para aposentadorias e pensões que, se passar na Câmara, escancarará um rombo de R$ 9 bilhões nos cofres da Previdência.

O clima tenso nas relações entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) subiu um tom com a decisão da mais alta corte do Judiciário, que aprovou por unanimidade a norma que assegura aos partidos o direito de pedir a cassação dos mandatos dos políticos infiéis.

São flagrantes de uma degringolada que ameaça explodir numa crise do regime.
E as contas dos erros chegam em fila: o gigantismo doentio do maior ministério de todos os tempos estoura as verbas orçamentárias; se as obras do PAC não podem parar, sem dúvida o seu ritmo será reduzido; os mais de 100 mil cargos públicos, muitos de livre nomeação, para o rateio político que garanta o apoio da maioria no Congresso, bate de frente com as dificuldades do Tesouro.

E a desordem urbana nas capitais e grandes cidades ocupa as favelas que dominam todos os morros e áreas sem lei, enfrentam a polícia e mantém abertos os pontos do tráfico de drogas.
Não há como fechar os olhos para não enxergar a evidência. A série de erros do governo expôs a agravante da acefalia com as ausências do presidente que mais viajou pelo país e pelo mundo na nossa história republicana.

 
 

Lula bateu bola com os craques do Milan
    novembro 13, 2008

Tal como na letra do Chico Buarque de Holanda, o primeiro-ministro da Itália, Sílvio Berlusconi, ao convidar cinco craques do Milan para o almoço com o presidente Lula na elegante Villa Madama, em Roma, “acertou na cabeça” ou na mosca.

Só não foi sem querer, mas em jogada de craque, com o requinte do drible da surpresa e a ginga que encantou o antigo peladeiro dos tempos de torneiro-mecânico e que ainda castiga o corpo nos rachas de fim de semana no campinho da Granja do Torto.

Os cinco craques brasileiros que atuam no Milan – Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Alexandre Pato, Emerson e o veterano goleiro Dida, além do ex-jogador Leonardo, hoje dirigente do clube italiano de propriedade de Berlusconi, capricharam no terno e gravata.

Lula ficou à vontade na conversa que girou sobre um assunto que entende, a ponto de surpreender o anfitrião, que não regatou elogios ao convidado ilustre que “sabe muito de futebol”.

É improvável que o presidente tenha repetido para a platéia de craques e do primeiro-ministro da Itália a sua crônica de peladeiro, quando torneiro mecânico, tantas vezes relembrada em entrevistas e depoimentos. Com o grosso macacão de trabalho e as pesadas botinas, a turma disparava ao apito da fábrica anunciando a hora livre para o almoço. Corria para o botequim, onde guardava a garrafa de cachaça. Sorvia dois a três cálices e seguia direto para a modesta casa de pasto para engolir, quase sem mastigar, a farta gororoba que cobria o prato até a borda.

Em dispara até o campo de pelada, o hábil meia armador de chute respeitável, emendava partidas até o soar do apito convocando a turma para o segundo expediente. E era suado, com o macacão colado no corpo que enfrentava o turno que, às vezes, espichava nas horas-extras que melhoravam o salário que entregava à sua mãe, a brava Dona Lindu, para as despesas doméstica.

Este filme deve ter desfilado pela memória do presidente, no embalo da euforia com que retribuiu o presente de Berlusconi. E que não economizou nos elogios ao convidado: “Quis fazer uma surpresa para o presidente Lula, que gostou muito”. E foi ao exagero; “Ele sabe tudo de futebol e entende este esporte como uma metáfora da vida”. Não precisava ir tão longe.

O primeiro-ministro aceitou o convite de Lula para visitar o Brasil, marcando a data para fevereiro de 2009, quando deverá inaugurar um hospital infantil que está construindo no Amazonas.

Não há muitas lições a extrair de um episódio que, se não é o único, certamente não costuma aliviar as agendas do presidente recordista em viagens por todos os cantos do mundo.

E que talvez inspirem os próximos anfitriões coroados ou com a faixa do poder, a aliviar a tensão e o tédio das longas reuniões solenes com a folga para assistir a um jogo de futebol nos campeonatos europeus que reúnem os melhores jogadores do planeta.

E já que estamos alimentando a expectativa de sediar as Olimpíadas de 2016 e na fila para disputar uma vaga na próxima Copa do Mundo, o presidente Lula pode aproveitar a lição de quem sabe para cobrar da cartolagem nacional o resgate dos vexames das nossas seleções montadas às carreiras, com jogadores espalhados pelos clubes de todos os continentes. E que desperdiçam milhões nas inúteis concentrações de duas, três semanas para o milagre que não acontece da montagem de uma seleção com peças que não se encaixam.

Nunca é tarde para corrigir erros. Basta querer e a humildade para esmurrar o peito com as pancadas do arrependimento pela sucessão de fracassos que mancham a nossa auto-estima.

 
 

Nunca um presidente voou mais do que Lula
    novembro 12, 2008

Nunca a modesta sentença do presidente Lula, ao se autocondecorar com a afirmação categórica de que “agora eu conheço o mundo e o mundo me conhece” foi mais facilmente comprovada do que com impressionante estatística do seu recorde de horas de vôo e, isto quando ainda faltam dois anos e 48 dias para o fim do seu segundo mandato.

É um fantástico devorador de quilômetros nas asas c do Aerolula e que promete inflar até a passagem da faixa presidencial para o seu sucessor ou a sucessora da sua atual preferência.

Até sábado próximo, quando deverá estar nos Estados Unidos, nosso presidente-voador estará completando a 21ª viagem por 25 paises. Para se saber ao certo por que terras e ares anda o presidente é necessário consultar a sua agenda.

Neste ano, Lula passou 62 dias no exterior. De volta dos Estados Unidos, dedicará alguns dias às viagens domésticas, antes do pulo a Venezuela, prevista para 28 de novembro.

O recorde de 2007 de meio milhar de horas de vôo em visitas a 29 paises durante 132 dias em que não foi visto no Palácio do Planalto pode ser batido neste tormentoso ano de crise internacional, a reclamar a sua atenção e os seus conselhos.

Com a média de duas viagens domésticas por semana e a popularidade nas alturas de mais de 60% de aprovação na média das pesquisas, o presidente não apenas pode continuar a cumprir a sua agenda de viagens, deixando a administração entregue à confiável ministra Dilma Rousseff, chefe do Gabinete Civil - a sua candidata na fase delicada do teste da viabilidade política.

A reunião de 20 ministros das Finanças e representantes de bancos centrais no último fim de semana, em São Paulo, para acertar os ponteiros para o decisivo encontro dos líderes mundiais a partir de sábado próximo, em Washington, quando se espera o debate sobre a crise financeira global alimenta expectativas de esperança com as nuvens de apreensão.

Analistas econômicos de todo o mundo enfatizam a óbvia importância de um esforço das lideranças mundiais para a busca de saídas que aliviem as angústias, que são partilhadas pela população de todos os países.

Os emergentes, mais diretamente castigados com os cortes nos planos de desenvolvimento, anteciparam o recado que será a tônica das reivindicações na reunião na capital dos Estados Unidos.

A expectativa no nosso país é aquecida pela tensão crescente com a sucessão de Lula, que arranha a porta pedindo passagem. A crise chega com características diversas, no governo e na oposição.

Para o presidente, o desafio em doses duplas, coloca a candidatura da ministra Dilma Rousseff no centro da fogueira. O clima mudou da noite para o dia. O que parecia resolvido de véspera, com grande antecedência, abre passagem para reclamar, com pressa, ainda sem a aflição da urgência, a firme liderança de Lula.

Nem o Partido dos Trabalhadores tenta tampar o sol com a peneira do despistamento. O PT submisso e acomodado dá mostra de impaciência, com a volta ao palco de candidaturas que renascem das cinzas.
A ministra Dilma terá a sua sorte decidida até meados do próximo ano. E é para já. Nenhuma pesquisa, do chorrilho que inundará este fim de ano para o dilúvio de 2009, deixará de incluir a candidata do presidente na lista dos presidenciáveis. E se ela não tiver fôlego para subir a escada e chegar aos dois dígitos, Lula e o PT enfrentarão o desafio de inventar outro candidato.

No caso, trata-se mesmo de inventar: o PT não tem outro nome para tapar o rombo. E a fragilidade do governo atiçará as ambições do outro lado oposicionista, que são muitas, com límpida vantagem, no momento, do governador de São Paulo, José Serra.

 
 

Jânio engana os militares no golpe da renúncia
    novembro 2, 2008

Coisas da Política

Brasília tem pouco ou nada a ver com a renúncia de Jânio Quadros que abriu o caminho para os 21 anos da mais longa ditadura da nossa tumultuada crônica republicana.

Nem mesmo o isolamento na amplidão do cerrado, quando a nova capital inaugurada antes de ficar pronta, mexeu com os nervos da complexa personalidade do presidente que empolgou o país para depois decepcioná-lo - com o gesto que vai para lá e para cá aos empurrões das mais contraditórias versões e dos relatos de suspeita confiabilidade.

Como aqui não tenho a pretensão de fazer História, mas de seguir uma vertente especulativa, guio-me pelos passos das pernas curta e rápida do meu saudoso amigo Carlos Castello Branco, titular desta coluna no JB até seu último dia de vida e que foi assessor de imprensa de Jânio e o maior repórter político da minha e de todas as gerações.

Nas 132 páginas do grande e insubstituível livro A Renúncia de Jânio, na edição de 1996 da Editora Revan, o Castelinho disseca a renúncia com a isenção do repórter, a sagacidade do analista e o texto do escritor e acadêmico.

Começa depondo, da manhã do dia 25 de agosto de 1961. Depois da noite insone e do cochilo matinal, um funcionário do Palácio do Planalto sussurrou-lhe que algo ocorria: José Aparecido de Oliveira, secretário particular do presidente ordenara-lhe retirar documentos importantes e arrumar toda a papelada.

Pouco depois, chegou Aparecido e deu a notícia: o presidente renunciou. Já está voando para São Paulo.

Não vou seguir todo o roteiro, nas muitas voltas. Mas, pretendo chegar onde quero. O presidente telefonara às cinco da manhã a Quintanilha Ribeiro, chefe da Casa Civil e anuncia que tomara uma decisão. Pediu que seguisse para o Palácio e convocasse o general Pedro Geraldo, Chefe da Casa Militar. Ambos foram comunicados da renúncia. O general tentou discuti-la, Jânio cortou-lhe a palavra: a decisão era definitiva.

Não pretendia ir à solenidade militar do Dia do Soldado. Foi convencido a comparecer, como se nada estivesse acontecendo.

De volta ao gabinete do Planalto, reuniu os cinco para as sumárias explicações. “Renunciarei agora à Presidência. Não sei assim exercê-la”. E no mesmo estilo empolado: ”Não exercerei a Presidência com a autoridade alcançada perante o mundo, nem ficarei no governo discutido na confiança, no respeito, na dignidade, indispensáveis ao primeiro mandatário”. E adiante: “Não nasci Presidente. Nasci sim, com a minha consciência” E finaliza, caprichando na ênfase: “Ela me diz que a melhor fórmula que tenho, agora, para servir ao povo e à Pátria, é a renúncia”.

Um palavrório para enganar os basbaques.

Jânio convocou os ministros militares para a comunicação oficial. Pouco depois chegam ao gabinete os ministros da Guerra, general Odílio Denys; da Marinha, almirante Sílvio Heck e da Aeronáutica, brigadeiro Grum Moss.

Jânio repetiu em poucas palavras o relato aos secretários e ao ministro da Justiça.

O brigadeiro Moss tentou o apelo ao bom senso: - Presidente, não faça isso. No que foi secundado pelo almirante Heck: -Este é o maior golpe que sofro na minha vida.

O general Denis foi mais longe: não faltava ao presidente o apoio das forças armadas, que ali estavam na pessoa dos seus chefes para prestigiá-lo e obedecer a suas ordens. Entendia as dificuldades, mas o presidente devia saber que esse moço (clara referência a Carlos Lacerda) é assim mesmo. O marechal Denys pediu que o presidente ordenasse as providências que elas seriam tomadas: intervenção na Guanabara, fechamento do Congresso…” E entrou direto no ponto crucial que desencadearia a crise militar: o governo da República não poderia passar às mãos de João Goulart”. Acontece o inacreditável. Jânio intervêm e cala os ministros: “Poupemo-nos esses constrangimentos, quando nada em homenagem ao meu gesto. Minha decisão é definitiva”.

Ora, se os três ministros militares tinha a plena convicção de que a renúncia, sem explicação minimamente verossímil, lançaria o país no torvelinho de uma gravíssima crise, com risco de uma guerra civil e eles ali estavam com a responsabilidade de preservar a ordem pública e o regime democrático, era transparente a prioridade de a qualquer preço, evitá-la até as últimas conseqüências para cortar pela raiz a manobra golpista.

Desde o crescente apelo até a virtual detenção do presidente desmiolado. Ou do apelo ao Congresso para não conhecer o documento presidencial antes de um exame de sanidade mental. Se o constrangimento dos ministros, não refeitos da turvação da surpresa é compreensível, a clara percepção da crise militar e política que a fuga de Jânio deixaria como herança, exigia e justificada e crescente reação que impedisse a jogada tantas vezes executada como governador de São Paulo. Desde a clara recusa à renúncia, por decisão dos três ministros ao cerco militar do Palácio para evitar a fuga pela porta dos fundos.

Nunca a passividade, a rendição, o aturdimento da surpresa.

Mais tarde, o bravo senador João Agripino, da UDN paraibana, de coragem tantas vezes demonstrada, confessou que procurou encontrar o ministro da Justiça, Pedroso Horta, para tentar pegar o papelucho da renúncia e sumir com ele.

E teria mudado o curso da história.

Mas, a nossa conversa não termina aqui.

 
 

Lula cuida do seu futuro
    novembro 1, 2008

Nem a campanha municipal para a eleição de prefeitos e vereadores provocou incêndios que não se apaguem com baldes de água e, na mesma toada estamos assistindo a uma civilizada arrumação dos cômodos da casa.

Os grandes vencedores com repercussão nacional consagram o governador José Serra, de São Paulo, como o candidato natural das oposições para a sucessão do presidente Lula. Com o governador de Minas, de tocaia, pronto para disputar a vaga em caso de turbulência entre os aliados nas suas muitas contradições e interesses.

O Rio pode comemorar uma campanha com características próprias e únicas. E que deixa duas trilhas a serem exploradas. A primeira segue os passos do derrotado, o deputado Fernando Gabeira, que encantou o país com o estilo não apenas civilizado de conquistar votos, respeitando-se, respeitando o adversário e principalmente a população. O candidato começou assumindo o compromisso que respeitou de não emporcalhar a cidade com galhardetes pendurados em árvores e postes; de centrar a atenção nos problemas da cidade abandonada e na rota da decadência; de não atacar os adversários nem apelar para a baixaria de trampas eleitorais e, afinal, de divulgar diariamente pela Internet as doações recebidas e os gastos com a campanha.

Esta linha ética fielmente obedecida, a simpatia e simplicidade do candidato fixaram a imagem com os toques de ineditismo de um derrotado que continua sendo assunto em todo o país.

O vencedor por escassa diferença de 51 mil votos, o prefeito Eduardo Paes, do valoroso PMDB que é pau para toda a obra, cumpre o roteiro de praxe com desembaraço. Já saltou a barreira do constrangimento com a visita e os acertos da transição do cargo com o prefeito César Maia e, com o governador Sérgio Cabral abrindo portas, foi ao beija-mão no Palácio do Catete, posou para fotos ao lado de Lula e recolheu promessas explícitas de ajuda.

Não é sem tempo: a população começa a conscientizar-se da real situação da antiga Cidade Maravilhosa. Mais de 500 favelas e suas subdivisões ocupam literalmente todos os morros e espaços urbanos nas invasões consentidas e até estimuladas. Um secretário de governo deixou gravada com as letras da mais crassa ignorância a sentença que justificava a venda de senhas para a invasão de espaços na Barra da Tijuca: “Favela não é problema, é solução”.

Na capital construída no cerrado para fugir das seduções e do cerco dos interesses da nossa atormentada cidade partida, o presidente Lula mexe-se para curar as arranhaduras e as feridas abertas no seu esquema político, traçado com a precisão de quem se habituou a ser obedecido em 6 anos de dois mandatos emendados.

O presidente não mais perde tempo em corrigir os seus equívocos. A crise que seria quase imperceptível se chegasse até aqui, encorpou na marola da segunda fase e agora é expelida do governo e passa para a responsabilidade dos empresários que especularam com o dólar na jogatina das bolsas.

Ao mesmo e com esperto cuidado cuida de empurrar a ministra-candidata Dilma Rousseff para o centro do palco, comando as obras do Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC, talismã para atrair votos na eleição de 2010 para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. O primeiro a ser atendido pela ministra-candidata é o prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes.

A ministra é a candidata de Lula, confirmada e aceita pelo PT, que lembra famosa definição do finado PSD: silencioso, obediente e cabisbaixo. E em campanha atrás do biombo do PAC.

 
 

Lula bota a barba no molho da prudência
    outubro 22, 2008

“Bobo não senta nesta cadeira de presidente da República”, ensinou o presidente Itamar Franco a dois assessores ansiosos e afoitos que o aconselhavam a assumiu a articulação para a escolha do seu sucessor.

E de bobo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem nada, apesar dos muitos escorregões da língua solta na diluvial maratona diária de três, quatro, cinco improvisos.

Agora, por exemplo, Lula não está inventando a roda, mas aplicando as regras do bom senso e da experiência para pular a fogueira da campanha justamente na semana decisiva da eleição, com o quadro enrolado em indefinições em muitas capitais e grandes cidades e os institutos de pesquisa batendo cabeça na contradição embirutada dos índices que mais confundem do que ajudam a entender as chances dos favoritos.

Lula usa bem a sua facilidade de comunicação, com a invejável popularidade batendo na lua. Joga o seu xadrez político movendo as pedras com a experiência das suas muitas campanhas, com três derrotas na briga pela presidência e as duas vitórias sucessivas que lavam a alma e só não apagam a nódoa da implicância com o seu antecessor e alvo predileto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Embalado pela aprovação popular e com o afago de importantes êxitos administrativos, o presidente esperou a hora para entrar na campanha e com meia dúzia de discursos, decidir a parada nas capitais duvidosas, nas quais os seus candidatos necessitavam da sua palavra para apontar o rumo ao voto.

No primeiro turno, pagou o preço da arrogância e da mesquinharia quando ameaçou expelir do Congresso o senador José Agripino Maia, líder da bancada dos Democratas, na eleição para a prefeitura de Natal. Caiu do pangaré com a eleição de Micarla de Sousa, lançada pelo Partido Verde para promover a legenda.

O castigo foi bem aproveitado. Na reta do segundo turno com os institutos de pesquisa enlouquecidos pelas súbitas correções do rumo do eleitorado, o presidente consultou o espelho, acariciou as barbas grisalhas antes de mergulhá-las no caldo da prudência.

E entre três ou quatro lances, liquidou a fatura com os candidatos que não podem perder e anunciou que se retirava da campanha do segundo turno, recolhendo-se ao seu gabinete para “trabalhar, trabalhar e trabalhar”. A tríplice repetição é uma tática para dissipar a névoa da incredulidade com o impacto de uma mudança da água para o encorpado vinho de castas nobres.

Não precisava tanto. Mas, nunca é demais exagerar na ênfase. Motivos é o que não faltam para o presidente assumir o comando das articulações da equipe econômica enquanto a crise vai e vêm, na ressaca dos grandes do mundo ensandecido.

E o eleitorado, ou parte dele, parece que resolveu escolher o seu candidato dispensado os feitores que se consideravam insubstituíveis. Ninguém pode estar certo da vitória. Talvez, com a ressalva do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM) candidato à reeleição, muito ajudado pela desastrada adversária, Marta Suplicy, que se envenenou ao mordeu a língua.

No Rio, a crescente violência dos ataques do Eduardo Paes (PMDB) é um golpe de faca de dois gumes.

È melhor esperar pela palavra final das urnas eletrônicas de domingo.

E saborear a sagacidade da lição do presidente Lula do seu retiro no Palácio do Planalto: ”Pode ser que não tenha muita diferença ideológica entre democratas e republicanos. Mas, do ponto de vista simbólico, este mundo eleger um torneiro mecânico pela segunda vez, eleger um índio na Bolívia e um negro nos Estados Unidos é demais”.

Como se vê, uma panacéia que serve para tudo.

 
 

O tricô das contradições do Lula
    outubro 18, 2008

Por uma esperta e oportuníssima coincidência, o presidente Lula estava no outro lado do mundo, em Maputo, capital de Moçambique, trocando amabilidades com o ex-presidente da África do Sul. Nelson Mandela, numa dessas meia horas que marcam a vida, enquanto o Brasil atravessa momentos que custam a sumir no buraco da memória.

Más notícias para a véspera do segundo turno, com a candidata petista Marta Suplicy despencando nas pesquisas e o Fernando Gabeira sustentando a duras penas a liderança.
O nosso palavroso presidente às vezes tropeça nos calhaus das contradições.

Aproveitei o dia chuvoso para botar ordem na bagunça dos recortes de jornais e revista e acabei por separar algumas dezenas de registros de improvisos, entrevistas, declarações, frases e sentenças do presidente mais loquaz da história deste país.

Como não há espaço para reproduzir todas as pérolas da facúndia presidencial, espremi o suco de uma seleção.

É justo que comece por algumas jóias da coroa da imprensa. Para poupar espaço, omito as datas e cenários da antologia:

1 - “Eu nunca vi tanto preconceito. Porque se a imprensa brasileira tivesse comigo apenas o tratamento republicano, nada mais do que isso… Não queiram uma imprensa chapa branca, mas não quero também uma imprensa contra”.

2 – “Se eu puder um dia vou publicar um livro sobre alguns articulistas deste país para mostrar a quantidade de coisas que publicam sobre mim e a minha família” E, adiante: “Vocês não sabem o que é um fardo de governar este país com uma parte da elite preconceituosa”.

3 – “Pela primeira vez na história, fizemos coisas que não estavam previstas acontecer. A imprensa brasileira poderia dar esta contribuição aos leitores, porque não é possível a gente viver a vida toda subordinada à futrica”.

4 – “Se tem uma coisa que ficou provada nessa eleição é que neste país existe mais povo que formador de opinião”.

O fumante desdenha a lei de combate ao fumo: “Eu defendo, na verdade, o uso do fumo em qualquer lugar… Na sua sala certamente eu não fumarei, porque eu respeito o dono da sala. Mas, na minha, sou eu que mando”,

Num desabafo de modéstia: “Qualquer que seja o meu sucessor vai ter um problema sério: terá que fazer mais do que um metalúrgico”.

Na surpreendente defesa da união civil dos homossexuais, em entrevista à TV Brasil: “Temos que acabar com a hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária”.

Antes de ter sido poupado de assistir pela televisão o empate da Seleção de Dunga com a Colômbia, foi absolutamente preciso no seu pessimismo com a decadência do futebol brasileiro: “Quando vejo o Messi –na minha opinião o melhor jogador do mundo, hoje – perder a bola e sair correndo atrás do adversário até tomar a bola ou fazer falta e vejo os nossos perderem a bola, cruzarem os braços e falarem “o cara da defesa que tire”… Em outra ocasião, o desabafo amargo e preciso: “Lamentavelmente, o Brasil não tem mais o melhor futebol do mundo”.

Severo nas críticas aos adversários políticos e tolerante com os que pulam a cerca, Lula já foi um crítico sem papas na língua no julgamento do Congresso: “O Congresso é uma instituição válida, mas precisa ser renovada por gente comprometida com a classe trabalhadora. Eu acho que lá a maioria é picareta”.

E, na mesma batida: “De todos os deputados do Congresso Nacional, há pelo menos 300 picaretas”.

Sobre o antecessor FHC e sua mais ácida implicância, não mede as palavras: “Quando precisou comprar votos para aprovar a reeleição, o presidente comprou”. E, no embalo: “Temos que criar a medalha Joaquim Silvério dos Reis e entregá-la para o presidente, que é o grande traidor da independência do país”.

Agora, o outro lado da benevolência: “Quem não votou no Jader Barbalho, no Pará, em 1978, para deputado federal? – perguntou o presidente em comício com público a favor”.

E até da Índia mandou o seu receado à candidata do PT ao governo de São Paulo: “Anota aí no seu caderninho: a Marta vai ganhar. A campanha está só no começo”. Na verdade, entra na última semana, com o prefeito Gilberto Kassab (DEM) liderando as pesquisas com confortável diferença.

Palavras, palavras o vento leva…

 
 

A lição ética dos vereadores de Nova Friburgo
    outubro 15, 2008

Com o atraso de mais de uma quinzena, lendo a edição do dia 7 do jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, descobri como garimpeiro que encontra a pepita de ouro da aventura, lá no alto da página 10, com o título que cutucava o interesse sem revelar a surpresa de “Vereadores eleitos receberão subsídio mensal de R$ 7.740” e a sacudidela no subtítulo de “Parlamentares não terão direito a 13º salário” - a manchete que deveria ser publicada na primeira página de todos os jornais do país, nos noticiários das redes de TV e emissoras de rádio.

Vamos ler junto o texto da excepcional e surpreendente lição de ética, que soa como um tapa no rosto do Congresso mergulhado na crise moral que ameaça o regime.

Não é grande e confirma a sabedoria popular que ensina que o melhor perfume é o que se esconde nos frascos pequenos.

Olho vivo e atenção para não perder nada: “Às vésperas do pleito de domingo, dia 6, a Câmara de Nova Friburgo aprovou a resolução de número 4280/08, reajustando o subsídio mensal dos vereadores eleitos e que tomarão posse em 1º de janeiro. O subsídio de cada um dos parlamentares será de R$ 7.740 brutos, vedado o recebimento de qualquer outro tipo de gratificação adicional, abono, prêmio e verba de representação”.

“Respire fundo que o melhor está no fim:” Segundo a resolução legislativa, o futuro presidente da Câmara não terá direito a qualquer acréscimo no subsídio para exercer a função, bem como também não haverá pagamento de 13º subsídio aos futuros parlamentares”.

E no arremate: “Na hipótese de o vereador eleito vir a ser nomeado secretário municipal, deverá optar pelo subsídio ou salário custeado pelo Executivo, vedada a acumulação. Os vereadores não serão indenizados ou remunerados em caso de sessões extraordinárias”.

A ressalva que carimba a autenticidade: Apenas dois dos atuais integrantes da Câmara votaram contra o reajuste: os vereadores Marcelo Verly (PSDB) e a candidata derrotada a prefeita, vereadora Jamila Calil (PSB). ”

A Câmara Municipal de Nova Friburgo mantém uma histórica tradição de compostura e modéstia. Os longevos de boa memória, como o diretor da AVS, Laércio Ventura, conheceram a Câmara com meia dúzia de vereadores e apenas quatro servidores que davam conta do recado.

Quando recebi o título de Cidadão Friburgense, em 15 de agosto de l986, a Câmara Municipal ainda se apertava nos dois andares do venerando casarão da Praça Getúlio Vargas que fora a sede da Prefeitura.

Mudou-se para o prédio de amplos espaços que foi do Banco do Brasil. Um convite ao desatino do empreguismo, com mimos para parentes, amigos, cabos eleitorais e cupinchas.

Agora, ficou difícil uma recaída com a vigilância da sociedade e dos vereadores que deram o recado antes da eleição e da posse.

Certamente não sensibilizará os colegas vereadores de todo o Brasil nem aos deputados estaduais e federais e senadores que desfrutam o vexaminoso privilégio de um dos melhores empregos do mundo, cevados pelas mordomias, vantagens e privilégio e a semana útil de três dias.

Esperança de um choque ético? Ou a vergonha que se perde não se encontra mais.

 
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