A oposição confirma Serra
    março 10, 2010

O primeiro prazo do calendário eleitoral fixa no dia 3 de abril, portanto daqui a menos de um mês, o prazo para a desincompatibilização de candidatos às eleições de 3 de outubro para o primeiro turno e 31 do mesmo para o segundo turno. E na confirmação da mais adiada das novidades, a escolha do governador José Serra, de São Paulo como o candidato da oposição. Falta o vice no parto de cesariana, diante da definitiva e tancrediana recusa do governador Aécio Neves, de Minas Gerais, de completar a chapa para a vice, um cargo decorativo que só entra no palco com a morte ou renúncia do titular.


A contradança das pesquisas favorece a ministra Dilma Rousseff, a candidata do presidente Lula com um favoritismo que se desenha com a linha ascendente nos índices de preferência dos eleitores. Com algumas manchas dos excessos de manipulação da máquina oficial por Lula para antecipar a pre-campanha, com a descarada desculpa de visita às obras em comícios com palanque e platéia garantidos pelos trabalhadores em um dia de folga e discursos.


Os prazos do calendário eleitoral não poderão deixar de ser obedecidos, sob pena de recursos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dilma ganhou a pré-campanha tornando o seu nome conhecido em todo o país, discursando em comícios oficiosos, sempre ao lado de Lula, o melhor cabo eleitoral de todos os tempos.
Mas, a campanha legal é outra conversa. Se o favoritismo de Dilma salta à vista, o desempenho de Serra é ainda uma incógnita. O seu estilo cerimonioso não sugere uma campanha de ataques, crítica e denúncias. Mas, pelos palanques de campanha desfilam todos os candidatos. Aqui mesmo no Rio de Janeiro, quando Distrito Federal, o vigor da oratória de Carlos Lacerda e de Afonso Arinos, a jogada do caminhão do povo, um palanque móvel que correu todos os bairros e subúrbios do Rio, para os comícios de uma hora, com o enxerto de oradores locais, virou pelo avesso uma eleição perdida com a eleição de Arinos para senador e de Carlos Lacerda como o deputado federal mais votado.


Sintomaticamente, e não por acaso, pipocam denúncias de roubalheiras em setores do governo, no rastro do escândalo de Brasília, a cidade construída para ser a capital do desenvolvimento do Brasil e que está sendo destruída pela roubalheira, pelo inchaço e o baixo nível das lideranças locais, com raríssimas exceções.


Brasília será um dos temas da campanha. Com a oposição nas denúncias e o governo na defensiva. Por enquanto, o Congresso das mordomias, das mutretas, da semana de dois a três dias úteis tampa os olhos e os ouvidos para fingir de morto. Mas, na caça ao voto os dorminhocos despertam, pois o mandato parlamentar é um dos melhores empregos do mundo. Em dinheiro vivo e na farra das mordomias.

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A campanha financiada com o dinheiro público
    março 9, 2010

A simples conta de somar valoriza a primeira página de O Globo de hoje, a começar pelo título : Sete minutos de inspeção e duas horas de palanque. Este recorde de descaramento com o dinheiro da Viúva, o nosso dinheiro, aconteceu nas nossas barbas, na inauguração do hospital do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí.


Para princípio de uma boa prosa, presidente da República e ministra-candidata chefe do gabinete Civil da Presidência não são fiscais de obras. E armar palanque, com microfone para o comício e a assinatura de contratos, com a presença do governador Sérgio Cabral, além de autoridades municipais é uma
cena patusca digna de uma comédia. Para carimbar a evidência, a secretária Benedita de Silva empalmou o microfone para pedir votos para a candidata oficial. É muita gente graúda sem nada para fazer.


Lula detesta críticas da imprensa, o que é compreensível para o presidente com o maior, mais completo e competente esquema de divulgação e propaganda da história. É um Ministério que supera o velho Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas. Ora, o hospital inaugurado pela caravana de Lula e Dilma foi construído sem um centavo de investimento federal, só com as choradas verbas estaduais e municipais.


A caravana do vote em Dilma visitou a favela da Rocinha para inaugurar o complexo esportivo e um Complexo de Atendimento à Saúde (CIAS/UPA), que ainda não está inteiramente pronto. Falta uma passarela, uma creche, um centro de convivência, abertura e alargamento de ruas, dois planos inclinados e unidades habitacionais. Desta vez o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) banca os R$ 231,2 milhões. O que Lula e Dilma inauguraram corresponde a 20% do total das obras. Cinco ministros vieram ao Rio para participar da inauguração dos 20% do PAC: Franklin Martins, das Comunicações; José Gomes Tinhorão, da Saúde; Orlando Silva, dos Esportes; Márcio Fortes, das Cidades e Carlos Lupi, do Trabalho. Ministério inchado tem as suas vantagens em campanha eleitoral: há sempre ministros disponíveis para os comícios, os discursos e as promessas.


Além dos prováveis votos, o dia de visita a canteiro de obras e de inauguração do hospital sem recursos federais, rendeu algumas das melhores fotos da pré-campanha. De Lula não há o que estranhar na pose de uma troca de socos, com luvas de box, com um menino da Rocinha. E da ministra Dilma Rousseff, com um vistoso conjunto vermelho, empunhando o arco e a flecha e mirando o infinito.


Com a oposição sem candidato assumido, embora já se saiba que o governador de São Paulo, José Serra é o virtual cabeça de chapa contra o governo, o presidente e a candidata Dilma Rousseff visitando canteiros de obras, a campanha para valer continua empacada, sem que os temas de urgência e gravidade como a desmoralização de Brasília, a crise ética do Congresso das mordomias, das vantagens, da madraçaria da semana de dois a três dia úteis aguardam na fila as denúncias da oposição e as justificativas do governo. Na reta final da campanha, com debates, o horário eleitoral gratuito, este pacto de silêncio será furado, com a força das enchentes que vem castigando o mundo e não têm poupado o Brasil.

 
 

A campanha sem lei
    março 8, 2010

Quantas vezes os caríssimos leitores têm lembrança, ainda que pendurada em dúvidas, da ministra Chefe da Casa Civil do presidente Lula, antes de ser lançada candidata pelo seu grande cabo eleitoral à presidência da República, viajando para vistoriar obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), das obras no Rio São Francisco para irrigar as áreas secas do Nordeste e abastecer os açudes sem um pingo d na calamidade cíclica das secas? Francamente não me lembro de nenhuma. Quando ministra das Minas Energia, em administração severamente criticada, fez curtas viagens aéreas para ver as obras do alto e baixando a terra para dar ordens, um de seus cacoetes mais louváveis.


Pois a ministra Dilma Rousseff – perdão a candidata Dilma Rousseff – foi parar em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, para inaugurar o Hospital da Mulher Heloneida Stuart, em festança comandada pelo governador Sérgio Cabral e a presença de políticos locais. O magnífico hospital foi construído sem um centavo de verba federal. O Estado bancou os R$ 40 milhões muito bem empregados.


Cinco ministros convidados pelo governador Sérgio Cabral compareceram ao comício e subiram ao palanque: José Gomes Temporão, da Saúde – o que é compreensível – Carlos Lupi do Trabalho e Emprego, Nilcéia Freire, Secretária Especial de Políticas para Mulheres, Márcio Fortes, de Cidades e Alexandre Padilha de Relações Institucionais. Da existência de alguns dos ilustres ministros do maior ministério da história deste país, tomei conhecimento agora. E até o fim deste comentário, a memória dos 86 anos terá esquecido quase todos.


O Secretário Estadual de Saúde, Sérgio Côrtes soltou esta pérola de justificativa para explicar porque o governo federal não abriu o cofre para a construção do novo Hospital da Mulher Heloneida Stuart: Como quem conversa com o espelho, perguntou-se: “Porque toda essa verba de R$ 40 milhões é do governo do Estado?” E deu a resposta no monólogo: “O investimento que o ministro Temporão vem fazendo em outras áreas da saúde possibilitou que o governador Sérgio Cabral pudesse direcionar os recursos do estado para esse hospital”. Como o governo federal está atento às necessidades e urgências de todos os estados, só não constroem hospitais, os governadores desatentos as urgências da população.


Antes de deixar o palanque à ministra-candidata Dilma mostrou que aprendeu com o seu cabo eleitoral, o presidente Lula, a fazer campanha. Foi didática e graciosa: “Estamos avançando muito. Esse hospital é um avanço. É um lugar humano. Tem até manicora e maquiadora. Quando a gente dá a luz, ficamos gordinhas. Não custa nada sair do hospital mais bonitinha”.


O Tribunal Superior Eleitoral (STE) divulgou o calendário eleitoral, com prazos que começam a vigorar a partir de 3 de abril e termina em 31 de outubro, data do segundo turno das eleições majoritárias que não forem decidas no primeiro turno por maioria absoluta de votos. Falta apenas esclarecer se o calendário engessa apenas a oposição ou se ministra-candidata Dilma Rousseff e demais candidatos governista também terão que enquadrar no calendário do TSE. Não custa nada informar ao eleitor os seus direitos e deveres. Afinal, se o sol nasce para todos, é muito mais quente na praia do governo.

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O lixo dos desmentidos
    março 5, 2010

Das duas bombásticas novidades de ontem sobrou o lixo dos desmentidos: nem o presidente Lula vai pedir licença por dois meses para se dedicar à campanha da sua candidata, a ministra Dilma Rousseff em tempo integral e muito menos passou pela cabeça do senador José Sarney, presidente do Senado, ocupar a presidência.


Lula caiu em si o que é um dos tombos mais ridículos da vida e voltou atrás com o mesmo desembaraço com que alimentou a extravagância. Presidente da República não é um funcionário qualquer que cava uma licença com ou sem vencimentos para uma viagem ao Amazonas ou um passeio em Buenos Aires. O ridículo despertou no presidente – e felizmente – a tolice sem volta em que se enrascaria. E o tiro poderia sair pela culatra com o presidente a pedir votos para a ministra como um cabo-eleitoral da roça.


O senador José Sarney, em pronunciamento categórico, garantiu que jamais assumiria a presidência interina da República depois de ter exercido o cargo por todo o mandato, com a morte do presidente Tancredo Neves. Sarney balança na gangorra entre disputar mais um mandato de senador, agora pelo Maranhão ou encerrar a carreira política para escrever a sua biografia.


Mas, a curta temporada de tolices e mais o escândalo de Brasília, com o ex-governador José Roberto Arruda distribuindo pacotes de notas aos deputados, secretários, assessores e demais elementos da sua gang, empurrou a pré-campanha para o segundo plano. O que será um achado se as lideranças do governo e da oposição aproveitarem a oportunidade única para promover a salvação de Brasília como o compromisso prioritário da campanha eleitoral. Pois, ou é agora ou nunca. Brasília é vítima da leviandade da sua inauguração como um canteiro de obras no cerrado e pela ganância com que parlamentares, ministros e altos funcionários dos três meteram a munheca no cofre da Viúva para embolsar as vantagens e mordomias, da mansão de ministros às passagens aéreas semanais para o fim de semana nos lençóis doméstico, do Acre ao Rio Grande do Sul.


Salvar o que ainda é possível de Brasília como o Distrito Federal, sede dos três poderes, com um administrador nomeado pelo Presidente da República é o grande desafio do futuro governo. E o tema que poderia despertar a campanha da chatice das hesitações da oposição e do desembaraço do presidente Lula como dono da candidatura da ministra Dilma Rousseff.

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Lula vai se licenciar para a campanha de Dilma
    março 4, 2010

Nada mais surpreende no ineditismo do comportamento do presidente Lula na sua obsessão para eleger a ministra Dilma Rousseff para sua sucessora. Mas, esta última, francamente é de derrubar o queixo:Lula vai se licenciar da presidência por dois meses para a arrancada final da campanha da candidata da sua exclusiva escolha e empurrada de goela abaixo do PT e aliados. E como o senador José Sarney, presidente do Senado é o único na linha sucessória que já anunciou que não será candidato, Lula passará o governo ao ex-presidente da República por dois meses críticos, na fase decisiva da campanha.


Nada mais espanta uma população desatenta ás futricas de Brasília e enojada com a série de escândalos que baixaram à pandega da distribuição de pacotes de notas pelo ex-governador de Brasília, José Inácio Arruda e escondidas nas meias, nas cuecas, nas calças dobradas dos aquinhoados com as fortunas desviadas dos cofres públicos.

Tancredo Neves

Ontem no fim da tarde, fui convocado pela editoria política do JB para escrever um artigo para a edição de hoje, sobre o presidente Tancredo Neves, na comemoração do seu centenário. Teria no máximo uma hora para batucar no computador uma matéria que, com as fotos, encheriam uma página. Fiz o que pude puxando pela memória. Os cortes de praxe não chegaram a deformar o texto. E que aqui reproduzo, com as saudades não apenas de um amigo de meio século, mas do mais completo homem público que conheci.

O mais completo homem publico que conheci

Villas-Bôas Corrêa

Poucos dias antes do dia da posse de Tancredo Neves na presidência da República, passei uma manhã conversando, na ampla varanda do edifício na Avenida Atlântica, como mais completo homem público que conheci em 60 anos na militância como repórter político.

À vontade, como se estivesse levantado da cama, Tancredo ainda de pijama, com o robe desbotado, chinelos nos pés descalços, deu ao foca uma aula que nunca esqueci. Propus o tema em que embatucara: durante a campanha, numa dos achados perfeitos, como setas no coração do povo, Tancredo lançou o apelo de “não vamos nos dispersar”, complementado pelo “é proibido gastar”, como o brado de convocação contra a espiral inflacionária que disparava rumo ao infinito. O que me parecia contraditório era o apelo à poupança com o inchaço do ministério que estava quase concluído com generosa distribuição de pastas aos aliados recolhidos em dias e madrugadas de articulações.


A resposta estava na ponta da língua: o ministério da posse que não houve era para garantir sólida maioria na Assembléia Constituinte que 1987, que elaborou a Constituição promulgada pelo presidente José Sarney em 5 de outubro de 1988.

Mas as nossas relações cultivadas na Câmara e no Senado eram mais antigas. E passaram pelas muitas etapas de uma vida dedicada ao interesse do país. Cutuco a memória para selecionar alguns flagrantes. No lançamento do matutino O Dia de Chagas Freitas fui o número um da lista dos contratados para a dobradinha como repórter de A Notícia. E para atender ao jornal popular do editor, Santa Cruz Lima, criei os Comandos Parlamentares de A Noticia e O Dia. Às quartas-feiras, os comandos saiam em camionete da empresa com dois a quatro deputados e senadores para a visita de surpresa onde quer que haja a promessa de um bom assunto.


Tancredo Neves era ministro da Justiça no Governo do presidente Getúlio Vargas, quando recebi, por telefone, em voz abafada, a denúncia das violências, de surras com porretes e outras torturas de um recolhimento de menores do Serviço de Assistência aos Menores – o SAM de amaldiçoada memória - numa rua no Méier. Não hesitei em telefonar para o ministro da Justiça e convidá-lo a visita à noite de surpresa no covil do SAM. Tancredo não hesitou um segundo. Marcamos para o dia seguinte a visita que saiu do Ministério da Justiça, com cobertura dos militares lotados no gabinete.

Chegamos por volta da meia-noite. No velho casarão do SAM com o portão trancado por cadeado. O ministro mandou arrombar e entramos. A impressão era deprimente. Camas sujas, algumas sem lençol, com meninas empilhadas como sacos. Um ar de desmazelo, de bagunça e falta de asseio. Mas, nenhum sinal aparente de violência. Enquanto o ministro conversava com a diretora despertada por telefone, aproximei-se de um grupo de internas e, em sussurro, confessei o meu desapontamento: nenhuma evidência de pancadas. Falando baixinho, a interna deu a dica: disfarce e levante o colchão da cama da inspetora Eva ali no canto. Avisei ao fotografo Achilles Camacho e levei o ministro até a cama. Quando levantei o colchão dezenas de porretes, com as marcas de sangue, de cabelos, de pedaços de roupas era a confirmação documentada das surras e maus tratos.


O ministro Tancredo Neves mandou fechar a arapuca no dia seguinte para reforma, abriu sindicância para punir as culpadas.

Não foi a única vez. Em outro Comando com o ministro da Justiça, Tancredo Neves, no Manicômio Judiciário, na rua Frei Caneca, no flagrante de loucos perigosos enjaulados no porão de paredes cegas com grades no teto, um preso se ensaboava com excrementos. Tancredo fechou a cafua no dia seguinte.
Alonguei estas lembranças pessoais para tentar revelar episódios esquecidos.


Muito mais teria para contar. Na campanha para governador de Minas, acompanhei o candidato Tancredo Neves num giro pelo Triângulo Mineiro e em três matérias de primeira página ousei antecipar a sua vitória. E recebi do candidato a reprimenda amistosa pelo risco de uma reviravolta em campanha que dividia o eleitorado.

E nunca me cheguei a entender a série de erros no martírio das operações antes da posse que não houve. Eleito presidente, com um problema intestinal crônico. Na véspera, em Brasília, almocei com os amigos e compadre José Aparecido de Oliveira, Carlos Castello Branco e dona Antonia, secretária de absoluta confiança de Tancredo. Castello surpreendeu-nos com a informação de que o diretor do Jornal do Brasil, Nascimento Pinto, passara a informação por telefone de que Tancredo Neves teria que ser operado de uma diverticulite. Dona Antonia despistou: o presidente teria que fazer uma pequena intervenção cirúrgica, nada grave ou urgente.


Depois de cinco operações em meio à bagunça da sala de operações invadida por deputados, senadores, ministros, curiosos, repórteres, o presidente Tancredo Neves morreu ante de tomar posse em 21 de abril de 1985.
E mudou o curso da história.

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Aécio é mineiro e neto de Tancredo
    março 3, 2010

Arrisco-me a morder a língua, mas não acredito que a pressão dos tucanos e dos líderes da oposição para arrancar do governador mineiro, Aécio Neves, o desmoralizante recuo de aceitar a vice-presidência na chapa do governador José Serra, de São Paulo tenha a mínima possibilidade de sucesso. E pelas muitas e irrefutáveis: seria um recuo de frouxo, que ele não é; um erro tático travestido de hábil manobra política. Aécio acrescentou às suas muitas razões para ser candidato a uma vaga no Senado, com a eleição praticamente garantida, o argumento irrespondível de que, recuando para ser vice, perderia as condições políticas e éticas para defender o governador José Serra do deboche das cobranças do presidente Lula e da ministra-candidata Dilma Rousseff sobre o seu disse, mas não disse.


Ora, o governador Aécio Neves é neto de Tancredo Neves, um enxadrista que só movia as pedras no tabuleiro depois calcular cinco ou seis lances. A sua competência e habilidade foram demonstradas na fantástica articulação da sua candidatura à presidência, na sucessão do último presidente da ditadura militar, general João Batista Figueiredo quando chegou ao Colégio Eleitoral na eleição indireta com a certeza da vitória por larga vantagem sobre Paulo Maluf, o candidato oficial que derrotou Mario Andreazza na Convenção da Arena.


E, francamente, para um governador de Minas, a vice-presidência da República é uma condenação à forca. Além do Palácio em Brasília e do gabinete para ler os jornais e telefonar para os amigos nas horas ociosas e a substituição do presidente nas viagens pelo exterior, os dias vadios do tédio. E, como a ministra Dilma Rousseff ascendeu ao pódio do favoritismo, o risco da derrota não pode ser ignorado. Em contra-partida a eleição para uma vaga no Senado é praticamente certa.


O neto de Tancredo Neves mostrou que aprendeu as lições do avô, ao sugerir como o melhor nome para candidato a vice de José Serra, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) que “agrega uma fatia do Nordeste”. Com a inauguração, amanhã, da Cidade Administrativa Tancredo Neves, no bairro Serra Verde, na região de Venda Nova, obra monumental, com dois edifícios de 116 mil m2 cada do complexo projetado por Oscar Niemeyer, ao custo de R$ 1 bilhão, o governador Aécio Neves, com convidados de todo o país, a presença do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff, deve carimbar a sua candidatura a senador. E esperar a definição de José Serra para iniciar a campanha em Minas e em todo o país.

 
 

Os números não mentem jamais…
    março 1, 2010

A velha canção dos meus tempos de rapaz, que o Orlando Silva, o maior cantor do Brasil em todos os tempos, gostava de soltar a voz trepado no alto da mangueira do quintal da casa suburbana de seus pais, ainda de calças curtas, a popularíssima Manuelita que ensinava que “os números não mentem jamais…” Nem mesmo o preto no branco das pesquisas que começa a rabiscar o cenário da campanha eleitoral que, privilegiada com a pista livre para a candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, apressa o candidato da Oposição , o governador de São Paulo, José Serra, que procura na praça o companheiro de chapa e assiste a candidata adversária disparar na gangorra da indecisão.


Vamos aos números da pesquisa do Datafolha. No confronto de José Serra com Dilma, de 14 a 18 de dezembro de 2009, os 37% da dianteira do candidato da oposição despencaram para 32% na última pesquisa de 24 a 25 de fevereiro de 2010. Na mesma faixa, Ciro Gomes provável candidato do PSB, de 13% escorregou para 12%, dentro da margem de erro. E a ex-ministra Marina Silva, candidata do Partido Verde, manteve-se em 8%.


Por enquanto, a banca dos boatos registra a óbvia euforia dos petistas, que pularam na garupa da candidatura da ministra, engolindo em seco a escolha pessoal do presidente Lula, que não ouviu ninguém. Mais autêntico é o soar de alerta nas fileiras atordoadas da oposição. Se a candidata de Lula disparar nas pesquisas, a única alternativa do governador José Serra será disputar a reeleição com folgado favoritismo. E a oposição terá que voltar a Minas para retomar a conversa com o governador Aécio Neves para o reexame das duas cancelas de saída: a candidatura à vice-presidente que o governador nunca admitiu ou a mais ousada candidatura a presidente. As saídas pela porta dos fundos.


Serra e Aécio devem se reunir esta semana em Belo Horizonte. È improvável que renda mais do que declarações escapistas e espaço na imprensa. E a oposição centra as críticas na candidata e evita o confronto direto com o presidente Lula que é grande eleitor, com a aprovação nas pesquisas acima de 80%. Esta primeira arrumação da casa deve-se à iniciativa de Lula, que partiu para a campanha fora dos prazos legais, para o teste da viabilidade da sua candidata. E jogou de peito aberto, indiferente ao esperneio da oposição e da penca de recursos ao Supremo Tribunal Federal.

Nada mais detêm a campanha, pois não se cerca fogo de morro abaixo. Acuados, os líderes de uma oposição frouxa e desinteressada só têm a alternativa de criticar o governo, nas suas contradições, na orgia da gastança, nos reajustes de salários de categorias privilegiadas de funcionários, nas nomeações nitidamente políticas, na roubalheira de Brasília e na coleção de tiradas pornográficas dos improvisos presidenciais. E as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da recuperação da rede rodoviária em petição de miséria andam no mesmo passo da reconstrução das imensas áreas por quase todo o país, devastadas pelas enchentes de uma das piores fases dos últimos anos.

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Um caso de polícia
    fevereiro 25, 2010

A leitura dos jornais de hoje, da primeira à última página do primeiro caderno e as sobras em outras, como a de economia – se salva às do esporte e de frivolidades – estraga o resto do dia com a deprimente evidência do nível de sarjeta ou de esgoto a que baixou a pré-campanha eleitoral, com tão raras exceções que só com lupa se consegue ler. O mega-escândalo de Brasília, com as cenas da distribuição de pacotes de notas pelo ex-governador José Roberto Arruda, aos cupinchas da gang que assaltava o cofre público da pobre capital é como um monte de lixo no meio da Praça dos Três Poderes. A cada dia aumenta o mau cheiro, que tresanda pela maravilhosa cidade enfeitada pelo gênio de Oscar Niemayer e não há uma única voz no Congresso que denuncie o crime contra um patrimônio da humanidade e provoque o debate parlamentar para despertar a pasmaceira do Legislativo.


O impeachment do governador Arruda rola e se prolonga no bate-boca entre o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF) e a caricata Câmara Legislativa do Distrito Federal. O corregedor, deputado Raimundo Ribeiro (PSDB) lembrou-se de pedir à Comissão de Ética da Casa – que parece coisa de ficção pornográfica - que abra investigação contra nove deputados pilhados no saque ao mensalão do DEM, chefiado pelo governador trancafiado no xilindró, José Roberto Arruda. Foi incluído na lista que cada vez aumenta mais, o presidente interino da Casa, parlamentar petista Cabo Patrício. A comissão especial deve votar amanhã o impeachment do saudoso ex-governador José Roberto Arruda. E presidente da comissão especial, Cristiano Araújo lembra ao governador preso que ele tem o prazo até segunda-feira para renunciar sem perder os seus sagrados direitos políticos.


A Câmara Legislativa de Brasília tem muito com que se distrair para espantar o tédio de sessões de conversa fiada. Oito são os deputados do pacote de denunciados, todos nomes ilustres e de prestígio nacional: Leonardo Prudente, que honra o sobrenome não tendo partido, Eurides Brito (PMDB), Júnior Brunelli ( PSC), Benício Tavares (PMDB), Benedito Domingos (PP), Rogério Ulysses (ex- PSP) Roney Niemer (PMDB) e Aylton Gomes (PRP). Guardem estes nomes completos, dificilmente voltarão a ouvir falar deles. A lista de suspeitíssimos é quase metade da Câmara. Mas, a comédia é infinita: o governador interino, deputado Wilson Lima, que deixou a presidência da Câmara para sentar na cadeira do governador Arruda, reuniu-se com os secretários para “retomar as atividades normais de administração, pousou para a posteridade em foto colorida que enfeita a página com pouco assunto.


O governador José Roberto Arruda deverá permanecer preso por mais uma semana, até que seja julgado o pedido de hábeas corpus. Mas, a última palavra caberá à maioria dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Marco Aurélio Matos admite a possibilidade de intervenção federal no Distrito Federal. No caso caberia ao presidente Lula nomear um governador para Brasília. O remendo que deveria ser a solução correta e definitiva. Brasília foi construída para ser a capital do Brasil.
Não é um estado, mas o Distrito Federal que acolhe os três poderes e demais órgãos federais. Planejada para uma população de 500 mil habitantes. Já se aproxima dos três milhões. Brasília não é culpada da crise ética, moral que salpica os três poderes. E poderá ser salva por uma emenda constitucional ou por uma Constituinte a ser convocada depois da posse do futuro presidente, com prazo para concluir a reforma da Constituição destroçada pela demagogia, os abusos, as mordomias, a malandragem da semana parlamentar de três dias úteis e a farra com a roubalheira do dinheiro público.

 
 

O baixo nivel da politicagem de Brasília
    fevereiro 24, 2010

O escândalo da distribuição de pacotes de notas pelo engaiolado ex-governador de Brasília, José Roberto Arruda, quando a sua gang foi filmada escondendo a propina nas meias, na cueca, nas dobras das calças e que vai sendo empurrado de moro abaixo do esquecimento, apenas confirmou o que se sabe há quase 50 anos, desde a inauguração da nova capital pelo JK, em 21 abril de 1960. Mas, de novidade mesmo o aprimoramento dos truques para esconder a mesada da corrupção e o primeiro instantâneo de um governador reunindo assessores, deputados estaduais para embolsar a gaita da máfia

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O úbere da corrupção alimenta muitas goelas. E um dos que conquistaram seu lugar no mostruário da fama é o milionário vice-governador Paulo Octavio, que foi governador de Brasília o tempo para pousar para a fotografia. Isolado no DEM, uma legenda influente no cerrado, pressionado por novas denúncias de corrupção (o que não deve constrangê-lo, afinal era a moda no seu partido e no governo) Paulo Octávio renunciou na mesma folha de papel ao governo de Brasília, a vice-governadoria e ao Democratas. Foi o terceiro governador em 12 dias. È de lamentar que não seja o último.


- Os 2,5 milhões de habitantes da capital planejada para no máximo 500 mil habitantes devem estar saboreando a emoção de serem governado pelo deputado Cabo Patrício, vice-presidente e da corporação do PT. Antes de guardar o lenço úmido das suas lágrimas, o multimilionário deputado Paulo Octávio, governador para enfeitar a biografia, desabafou com os jornalistas as suas queixas e críticas aos que o traíram, deixando para a posteridade o conselho que é uma máxima do óbvio: “Uma intervenção no Distrito Federal seria muito ruim, abalaria a autonomia política da capital do país”.


Pois é exatamente o contrário. Nos debates na campanha para valer, seja na rede nacional de propaganda eleitoral, ou promovidos pelas redes de televisão e emissoras de rádio, necessariamente analisarão a fórmula para recolocar Brasília como o distrito federal, sede dos problemas da República, sem os balangandãs de governador, assembléia legislativa, o absurdo da câmara de vereadores e demais excrescências. Brasília é vítima da deformação e da demagogia, das propinas, da semana parlamentar de três dias, de todas as sanguessugas que foram se multiplicando até o escândalo do governador José Roberto Arruda e das tolices do suplente Paulo Octávio.


Brasília pode, precisa ser salva. É o tema sério da campanha eleitoral. Se nada for feito, o ex-governador Roris, recordista da favelização, será reeleito governador. E dará conta do que sobrou.

 
 

A polarização consolidada sustenta Dilma
    fevereiro 23, 2010

Um certo desassossego nas duas bandas da pré-campanha polarizada, com os retardatários em cima do muro, não altera o fundamental no cenário da arrancada: a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff bóias nas águas mansas do favoritismo – com todos os seus riscos de uma briga que ainda não começou – enquanto a oposição se desespera com balanço nas pesquisas do candidato virtualmente escolhido, governador José Serra, de São Paulo.


Mas, há um diferencial significativo: o presidente Lula conseguiu tamponar com a sua popularidade recordista e com intensa participação no Congresso do PT que oficializou por unanimidade o lançamento da candidatura da risonha ministra Dilma, que parece rejuvenescer com os cabelos pintados, as reforma do vestuário com audaciosos vestidos coloridos.
No outro lado da oposição, a indefinição empurra a escolha do candidato de morro abaixo. O governador José Serra (SP) voltou á estaca zero reabrindo a articulação para tentar convencer o governador Aécio Neves - o neto de Tancredo Neves, o presidente que morreu de erro médico e bagunça no troca-troca de hospitais- a aceitar a candidatura à vice-presidente para injetar animo à oposição em crise de pessimismo. Claro, que não vai dar em nada, além do oba-oba na comemoração do cinqüentenário do saudável governador, que gosta da vida e é um apaixonado pelo Rio.


As próximas rodadas de pesquisas deverão registrar as oscilações entre os dois candidatos e da turma do segundo escalão. E a menos que o imprevisível pregue uma peça, nesta batida a candidata Dilma, com o PT na onda das ambições pessoais, deve faturar os resultados da sua intensa mobilização, da nova imagem da candidata que esbanja simpatia, solta gargalhadas estridentes até com piadas de papagaio, encostando-se à cadente vantagem do governador José Serra.


Alguns cascalhos no caminho, como a confirmação da candidatura de Ciro Gomes pelo PSB, só o tempo responderá as dúvidas das especulações. A candidatura da ex-ministra Marina Silva, uma histórica militante da defesa do meio ambiente, terá os votos dos enfastiados do bisado confronto do lulismo cada vez mais ao centro e da oposição que se dilacera em confrontos internos.
Antes que esqueça: certo mesmo é que o deputado Michel Temer, do PMDB de tão modestas ambições, será candidato à vice da ministra Dilma Rousseff, escolha garantida pela estrutura do partido com sólida base estadual e de olho grande em todas as vagas federais para atender ao apetite voraz dos mais poderosos estômagos do país.


Sobre o escândalo da roubalheira do ex-governador José Arruda e sua quadrilha, leiam a página policial dos jornais.